Conto | O que fazer quando seu filho se perder

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Conto | Chroma Key

Não notei quando a porta sumiu. Minha esposa e filhos tinham ido para o interior visitar a minha sogra. Demorei um pouco para processar a informação, constatar que onde havia a porta do nosso apartamento agora era uma parede lisa, sem qualquer ranhura.  Refiz o caminho quarto-sala umas dez vezes, mas o resultado era o mesmo: estava preso.

Começou como férias antecipadas. Tinha muito trabalho a fazer, concordamos que o melhor era ficar em casa, sozinho. A despensa cheia ia me dar a paz e o tempo que precisava para terminar o livro e deslanchar os novos projetos. Me considerava um bom marido e um pai decente.

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Conto | O Vilarejo Solar

Oram comprou uma passagem para Terra. Ele nunca planejou uma viagem tão longa, mas seu desejo era ir o mais distante possível de casa. Recém-inaugurada, a rota tinha pouca procura, o que a tornava perfeita.  Deixou seu futuro em suspensão. Até logo, Plutão.

Sonhou com areia e gelo, Caronte banhada em vermelho. Seus desfiladeiros profundos, o Sol frio e distante. Nada que lembrasse a Guerra das Cinco Luas. Voltou ao lugar em que conhecera Xion. De repente, um grito, uma explosão. Despertou pra solidão.

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Artigo | Jornada Literária - Ideia

Continuando nossa jornada literária, chegou a hora de falarmos sobre a ideia. Já sabemos que contar histórias é fundamental para a formação humana, ponto muito bem abordado no artigo anterior do M. C. Magnus. Entender como ela é concebida, alimentada e desenvolvida é o nosso objetivo.

Perceberam que no final do parágrafo anterior a ideia foi caracterizada como ser vivo? Cabe ressaltar dois aspectos: o primeiro, que o texto literário depois de finalizado ganha autonomia do seu criador. Ele cresce e se transforma como um ser orgânico. Alguns envelhecem e perdem a força com o passar do tempo, enquanto outros se renovam e fortalecem; o segundo, a noção de multiplicidade implícita nesse conceito de criação é deliciosa. Independente de onde parta a sua ideia (enredo, personagem ou conflito), a abordagem subjetiva e suas implicações revigoram a escrita.

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Artigo | Leitura é o que interessa, o resto não tem pressa.

Um dos efeitos da solteirice em estágio mais avançado, pasmem, é a total inabilidade para presentear os filhos dos amigos. Cada vez que recebo um convite por e-mail, Messenger ou WhatsApp, sinto uma enorme responsabilidade. Isso porque só dou livros de aniversário. E nem sempre são infantis.

Confesso que nem sempre acerto. Acho natural. A arte de escolher um livro se assemelha ao ato de compreendê-lo. Às vezes, simplesmente, não estão prontos. Ou não aprenderam a ler, ou não viveram o suficiente. Claro que apelo ao irmão mais velho ou aos pais a missão de contador de histórias. Voltaremos a este ponto mais a frente, porém, é nas palavras o lugar mais seguro para se reencontrar.

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Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia. Continuar lendo “Conto | Aqui Jaz um Homem Nu”

Resenha | Lobo de Rua

Lobo de Rua é uma novela escrita por Jana P. Bianchi ambientada em São Paulo, uma cidade cheia de excessos ― carros, habitantes, desigualdades e violência ― que conta a história de Raul, um menor abandonado em busca de sobrevivência, de entender o seu papel no mundo. Ao longo das suas 105 páginas, somos convidados a testemunhar a transformação de Raul em lobisomem, de solitário em membro de alcateia e da cidade crua e cinza no mundo fantástico da Galeria Creta. Continuar lendo “Resenha | Lobo de Rua”

Entrevista | Eduardo Spohr

“Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” (William Shakespeare)

Não se engane, não há escapismo. Precisamos de fantasia. Porque sempre há um duelo, um romance, uma batalha contra o mal nos esperando em cada página, em cada esquina.  Como numa dança muito bem coreografada, realidade e fantasia se alternam na condução de nossas vidas. Crescemos com a jornada de personagens romanescos, mas ao mesmo tempo, eles ganham novos contornos com o nosso crescimento. Seja você um leitor, seja você um escritor.

Escritor iniciante, fã veterano.  Foi este o título do e-mail que enviamos ao Eduardo Spohr – maior expoente da fantasia nacional, com mais de 700 mil livros vendidos – solicitando uma entrevista para o Conte Histórias. Pareceu-nos apropriado dizer que tanto suas histórias, quanto sua postura como autor nos serve de exemplo. E ele não nos decepcionou. Continuar lendo “Entrevista | Eduardo Spohr”

Crônica | Imãs

A cidade dorme. A madrugada embala os sonhos – bons ou ruins – sem distinguir sexo, classe ou cor. Da janela do meu quarto, observo um céu sem estrelas e uma lua alaranjada, cheia de mistério. É claro que, vez ou outra, uma buzina solitária, uma briga de gatos ou a cantoria de um bêbado entusiasmado podem quebrar esta ilusão. Não importa, “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

Ao meu lado, deitada, melhor, desmaiada de cansaço está ela, Verusca, a trepadeira. Calma lá, não tire conclusões precipitadas. Eu a chamo desta forma devido à maneira como ela gosta de dormir. Sua cabeça está sobre o meu braço, as pernas trançadas imobilizando as minhas e as mãos entrelaçadas envolvendo minha barriga. Visualizaram? Quando brigamos, eu a chamo de Kuato (o líder da rebelião em “O vingador do futuro”). Ah, minha pequena leonina. Continuar lendo “Crônica | Imãs”

Artigo | O leitor, o escritor e o texto

O que é metalinguagem? Se você ficou em dúvida ou não sabe, resista à vontade de abrir outra janela e consultar o Google. A verdade da metalinguagem não está lá fora. Esta é sua principal característica: A linguagem apontando para si mesma. Literatura, Música, Pintura, Cinema. Todas as formas de arte usam e abusam da autoreferenciação, tornando o código mais complexo.  O título deste artigo é uma singela homenagem a um clássico do western europeu “O bom, o mau e o feio”, de Sérgio Leone. Verá que os papéis de recepção e emissão são constantemente alterados para a construção do leitor, do escritor e do texto. Continuar lendo “Artigo | O leitor, o escritor e o texto”