Conto | Hotel California4 min de leitura

Acordei sem lembrar de nada do que tinha acontecido antes. A estrada estava escura, nenhum sinal de qualquer carro passando. A única luz presente era a da lua, que me permitia enxergar mais ou menos o caminho que eu deveria seguir. Segui em frente, sem nenhuma certeza de onde eu chegaria. Percorria o trajeto, tentando entender o que estava acontecendo, um passo de cada vez.

Andei milhas e milhas pela escuridão. Horas depois vi uma luz ao longe. O brilho azulado foi ficando cada vez mais forte. Pouco tempo depois, percebi que era um hotel. Bati as mãos no bolso e senti que minha carteira ainda estava comigo. Ótimo. Pelo menos eu teria onde passar a noite antes de seguir viagem pela manhã. Com sorte, eu teria um telefone para ligar para minha esposa, que deveria estar morrendo de preocupação.

Finalmente, cheguei na recepção do hotel. Sem sinal de ninguém por perto. Era uma biboca qualquer, mas parecia aconchegante. Bati na sineta empoeirada no balcão e logo uma jovem apareceu.

— Boa noite, senhor!

— Boa noite — respondi.

— O senhor está precisando de um quarto?

— Sim. — Eu não conseguia deixar de reparar nos olhos dela. — Mas eu não lembro como cheguei aqui. Eu preciso de um quarto com telefone.

— Nós não temos nenhum telefone no momento, senhor.

— Como assim?

— Por conta da tempestade de ontem à noite, todas as linhas estão mudas, senhor.

A voz dela era extremamente calma. As palavras pareciam deslizar no ar. Sentia algo errado nisso, estava incomodado, mas não sabia o que. Não há muito que possa ser feito.

— O senhor pode esperar até amanhã. Talvez as linhas voltem.

— Tudo bem, tudo bem. Só me veja um quarto pra eu dormir — respondi, passando a mão no rosto para tentar me manter acordado. — Quanto é?

— O senhor não precisa se preocupar com isso agora — ela respondeu —, nosso sistema é diferente. Depois o senhor acerta o valor.

Achei estranho, porém, não tinha ânimo qualquer para discutir naquele momento.

Ela preencheu lentamente alguns papéis, buscou uma chave e finalmente me entregou.

— Bem-vindo ao Hotel Califórnia — ela sorriu. — É um lugar encantador. Temos muitos quartos aqui.

Eu sorri de volta, sentindo alguma coisa estranha dentro de mim, uma angústia, uma sensação de aperto constante no peito. Segui pelos corredores até chegar no meu quarto. Era pequeno, um pouco sujo. Mas daria conta de me abrigar por uma noite. Deixei minhas coisas e segui para o bar.

No balcão, uma cinquentona não parava de falar de seus carros e de seus namorados. A voz dela me dava raiva. Não sei por quê. Mas dava. Decidi que precisaria de algo mais forte.

— Capitão, eu quero um uísque — pedi ao bartender.

— Nós estamos sem bebidas há algum tempo, senhor — ele me respondeu.

— Por causa da tempestade?

— Exatamente, senhor.

Merda. Acendi um cigarro. Que hotel infernal. Mas, confesso, havia algo de encantador no lugar.

— O senhor gostaria de comer alguma coisa?

Eu queria beber, na verdade. Mas já que não tinha essa opção, assenti.

Pouco tempo depois, o bartender me trouxe um prato com um bife. Aparentava estar suculento. Quis saborear o momento e dei a primeira garfada e tudo se desfazia na minha boca como manteiga. Quando olhei para o prato novamente, vermes rastejavam em cima da carne podre.  Tentei gritar com toda a força, mas nenhum som saiu.

Sai correndo em direção ao meu quarto. O corredor do hotel parecia não ter fim, como se tudo estivesse se alongando até o infinito. Senti uma mão atrás de mim, quando virei, o bartender estava sorrindo:

— O senhor já vai? — ele ria. — Você pode fazer o checkout na recepção, mas nunca vai poder partir. Vai ficar conosco no Hotel Califórnia.

Novamente eu tentei gritar. Meus sentidos não estavam funcionando direito. Tudo girava. Desmaiei.

Acordei sem lembrar de nada do que tinha acontecido antes. A estrada estava escura, nenhum sinal de qualquer carro passando. A única luz presente era a da lua, que me permitia enxergar mais ou menos o caminho que eu deveria seguir. Segui em frente, sem nenhuma certeza de onde eu chegaria. A cada passo, eu tentava entender o que tinha acontecido.

Andei milhas e milhas pela escuridão. Horas depois, vi uma luz ao longe. O brilho azulado foi ficando cada vez mais forte. Pouco tempo depois, percebi que era um hotel.

O Hotel Califórnia.


Adaptação da música Hotel California, da banda Eagles.

Cesar Gaglioni

Cinéfilo e nerd, Cesar escreve sobre séries de TV, games e música no Jovem Nerd e escreve sobre todos os outros mundos possíveis em seu tempo livre. Amante do terror e do drama, tem Kerouac como seu ídolo pessoal. Editor do site Oligarquia Pop e um fanático por literatura, está escrevendo “O Fim de Quem eu Fui”, seu primeiro romance.

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