Crônica | Imãs

A cidade dorme. A madrugada embala os sonhos – bons ou ruins – sem distinguir sexo, classe ou cor. Da janela do meu quarto, observo um céu sem estrelas e uma lua alaranjada, cheia de mistério. É claro que, vez ou outra, uma buzina solitária, uma briga de gatos ou a cantoria de um bêbado entusiasmado podem quebrar esta ilusão. Não importa, “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

Ao meu lado, deitada, melhor, desmaiada de cansaço está ela, Verusca, a trepadeira. Calma lá, não tire conclusões precipitadas. Eu a chamo desta forma devido à maneira como ela gosta de dormir. Sua cabeça está sobre o meu braço, as pernas trançadas imobilizando as minhas e as mãos entrelaçadas envolvendo minha barriga. Visualizaram? Quando brigamos, eu a chamo de Kuato (o líder da rebelião em “O vingador do futuro”). Ah, minha pequena leonina. Continuar lendo “Crônica | Imãs”

Crônica | Quando você voltar

— Puta merda, eu não aguento mais brigar com você! – Ela disse enquanto saia em disparada para a porta.

— Calma, vamos conversar! — Ele tentou reparar o dano.

A briga tinha começado por algo completamente besta. A escolha de canais na TV no horário nobre. Como toda boa briga de casal que se preze, o que começou completamente banal havia se tornado um cenário digno de batalha travada em uma das Guerras Mundiais. As brigas tinham se tornado cada vez mais comuns, quase uma rotina na vida do casal. Era uma fórmula pronta: tinham bons momentos, algo bobo engatilhava uma briga, brigavam feio; tudo voltava ao normal. Continuar lendo “Crônica | Quando você voltar”

Crônica | Insegurança elevatória

O elevador abriu as portas.

Ela estava ali, diante dele, talvez o mais perfeito anjo que tivesse cruzado seu caminho. Nunca a tinha visto no prédio.

– Esse é o elevador mais antigo da cidade inteira – disse a ela (mas queria dizer “Oi, tudo bem?”).

Ela lançou um olhar meio esquisito pra ele, mas ao fim sorriu. Continuar lendo “Crônica | Insegurança elevatória”