Conto | Claustrofobia

Por: Tiara Gonçalves

Ela abriu os olhos, e os fechou imediatamente. Apertou-os bem forte tentando impedir a claridade que entrava pela janela com persiana aberta. Rolou na cama desejando que aquele dia não começasse. Um segundo depois o alarme do celular gritou na mesinha ao lado. Ela escutou por alguns minutos e só então esticou-se para desligar o maldito aparelho. Não adiantava acionar o “soneca”.

Levantou-se um pouco tonta arrastando os pés descalços pelo chão frio e dez passos depois tropeçou no par de sapatos de salto alto que estavam jogados, bem no meio do corredor. Xingou alto e chutou-os para longe. O apartamento grande e bem mobiliado estava uma bagunça. Havia roupas espalhadas e copos com restos de bebida aqui e ali.

— Você devia tê-los guardado quando chegou ontem a noite. Não adianta xingar agora — Ele falou divertindo-se com a cena.

Ela pulou, assustada, ao ouvir a voz dele. Se virou sem pressa e observou a figura parada próxima a porta do banheiro, ele estava sorrindo, vestido apenas com a calça do pijama, descalço, e com os braços cruzados sobre o peito. O olhou de cima a baixo e passou rápido por ele dando-lhe uma resposta ríspida sem olhar para trás.

— Não me lembro nem de ter voltado pra casa. Como lembraria de guardar a porcaria dos sapatos?

Bateu a porta com força e se encostou nela por um segundo. As paredes pareciam mais próximas. Então se moveu, diante do espelho que cobria toda a parede do banheiro, observando com atenção. O rímel preto havia escorrido e formou um estranho desenho embaixo de cada olho, o cabelo parecia um ninho, e ela se perguntou mais uma vez por que os tinha pintado de loiro. Parecia estranha e artificial. Uma caricatura de si mesma.

Arrancou a camiseta amassada pela cabeça e entrou no chuveiro. Iria se atrasar para o trabalho com certeza, mas tentaria ao menos chegar com uma boa aparência. A cabeça já começava a doer. Ela ouviu a voz dele por cima do som da água quente que escaldava seu coro cabeludo. Sempre preferira a água muito quente, pois lhe trazia a sensação de segurança e conforto. Ouvira certa vez em um programa de rádio que pessoas solitárias tendiam a tomar banhos mais longos e quentes. Concordava com aquilo.

— Devia tomar um banho frio. Vai te ajudar a se sentir melhor. A água quente pode fazer sua pressão cair.  — A voz dele demonstrava preocupação.

Ela não queria ouvir aquilo. Não queria mais ouvir a voz dele. Pressionou as mãos contra as orelhas e cantarolou, uma melodia boba de uma canção antiga, por tempo suficiente para ele se cansar e ir embora. Tempo demais.

Se trocou apressadamente, colocou sapatos confortáveis, pegou a bolsa e o celular. Passou na cozinha, e olhando para a louça na pia pensou que deveria contratar uma empregada o mais rápido possível. Tirou um café da máquina de expresso e o engoliu queimando a língua, alcançou uma fruta e a colocou na bolsa, para mais tarde, antes de se dirigir para porta.

Ele surgiu ao seu lado, já pronto, o cabelo perfeitamente penteado, a barba feita, o terno impecável. E o sorriso irritante de sempre.

— Não pode continuar a se alimentar assim. Precisa comer comida de verdade. Você vai acabar ficando doente.

Ela revirou os olhos e pegou a chave do carro sobre a bancada. Não se lembrava de ter dirigido até em casa, mas se as chaves estavam ali e se ela própria estava inteira significava que o carro também estava bem. E devia estar na vaga. Puxou o ar profundamente e se preparou para sair. Ele gritou enquanto ela se afastava:

— Estou apenas tentando cuidar de você Lily, só quero que fique bem. Não pode me ignorar pra sempre.

Mas ela ignorou.

Entrou no elevador e foi imediatamente tomada pelo pânico, aquela sensação sempre ocorria quando estava sozinha em um lugar fechado. A boca ficou seca e as pernas moles. O teto e as paredes se fecharam em volta dela.

            — Apenas respire. Apenas respire.

Ela repetiu para si mesma vendo os números dos andares pularem no painel digital. Uma viagem de dez segundos. Pareciam horas. Ela podia ouvir a voz dele em sua cabeça, que agora doía de verdade. Só quero que fique bem, Lily.

— Apenas respire.

A porta se abriu e ela se jogou para fora, enchendo os pulmões de ar. Ajeitou o cabelo com as mãos, olhou para os lados certificando-se que ninguém a observava e se preparou para enfrentar o dia.

O trânsito estava congestionado, então ela tentou prestar atenção ao que estava acontecendo a sua volta. Sem sucesso. A mente insistia em levá-la por caminhos obscuros, lugares aonde ela não queria voltar.

Ao rosto dele.

A lembrança do rosto dele surgiu a sua frente, deixando todo o mundo fora de foco. Não foi capaz de lutar contra aquilo.

Chegou ao trabalho sem perceber, e mais uma vez enfrentou o elevador. Se forçaria a passar por aquilo, até superar seu pânico. Desta vez a presença de outras pessoas a ajudou passar pela provação. Embora a respiração tenha ficado curta e as mãos suadas, os segundos passaram na velocidade normal e sua curta viagem não foi uma tortura completa.

Na baia de trabalho, os projetos se acumulavam, ela não conseguia ter o mesmo ritmo do ultimo ano. Mas continuava trabalhando, mesmo que aquilo lhe parecesse uma perda total de tempo. Era o que mantinha sua pouca sanidade. Entre um e-mail e outro olhou para a foto deles no canto da mesa, eles pareciam felizes. Felizes de verdade. Ela até tinha aquele sorriso irritante no rosto. Tão comum aos dois. Naquela época.

Por hábito, tocou a aliança na mão esquerda e percebeu com surpresa que estava ficando larga.

— Ele tem razão. Preciso me alimentar melhor — pensou em voz alta.

Seus pensamentos a levaram para longe por um minuto, e mesmo em um local aberto sentiu a conhecida pressão das paredes a sua volta. Como se a sala de repente fosse menor, muito menor. Tirou os óculos e esfregou os olhos que lacrimejavam. O ambiente a sua volta continuava a se fechar, seu coração parecia estar sendo esmagado.

— Continue respirando — repetiu, baixinho, o mantra que costumava acalma-la. — Você consegue, Lily. Apenas respire.

E então a amiga Marta surgiu, toda peitos e sorrisos e cachos esvoaçantes. Um anjo salvador e inconveniente. Se recostou em sua estação de trabalho.

— Bom dia! — o som da voz dela era estridente. — Como foi a noite ontem? Pela sua cara não deve ter dormido muito.

— Na verdade, não me lembro muito bem. Está tudo um pouco nublado — Ela respondeu recolocando os óculos , sem olhar a amiga.

Marta se debruçou sobre a mesa, numa invasão desnecessária do espaço pessoal de Lily.

— Menina, você tem que se controlar, isso não faz bem para você.

— Eu sei.

— Não pode perder o controle.

— Tem razão.

— Não acha que está bebendo um pouco demais ultimamente?

— E você não acha que está transando com gente demais, ultimamente? — respondeu com rispidez exagerada. Desejando acabar com aquela conversa sem sentido.

— Ei… Guarde as garras, garota. Só estou tentando ajudar — Marta respondeu e levantou as mãos, na defensiva.

 — Pois é, parece que todos decidiram me ajudar de repente. Eu não me meto nos seus assuntos, então não se meta nos meus.

Ela foi grosseira e sabia disso. Esfregou as têmporas e respirou fundo, de novo.

 — Certo. Você pode fazer isso  — pensou, obrigando-se a olhar a amiga loira, que já estava com lágrimas nos olhos.

— Desculpe, eu não queria ser estupida. Estou morrendo de dor de cabeça e dormi muito pouco a noite passada.

A expressão de Marta era pura mágoa, mas ela não era do tipo de pessoa que se ressentia por muito tempo, então abriu o sorriso perfeito e jogou os cachos dourados para trás.

— Tudo bem. Considerando tudo que passou, é normal se descontrolar as vezes. Sorte a sua eu ser uma amiga tão legal. Vou pegar um café e trarei um analgésico para você. Apenas respire e relaxe. Até o fim da tarde a ressaca vai passar. Não se esqueça de beber bastante água.

Ela apenas acenou agradecendo.

Tentou voltar a se concentrar no trabalho, mas estava difícil. Ainda sentia o mundo ficando menor. Mas graças à presença constante da amiga, pairando sobre ela de tempos em tempos, o dia passou rápido.

Conforme o fim da tarde se aproximava a ansiedade tomava conta dela. Marta tinha razão, a ressaca acabou passando, e ela estava totalmente desperta ao fim do expediente, Lily só não sabia se isso era bom ou ruim.

A volta para casa passou como um borrão, ela estava atenta às coisas a sua volta, mas nem as distrações da rua foram capazes de trazer seus pensamentos para o momento presente. Ela sentia falta de ar e tudo que queria era chegar em casa.

Lily tinha dias bons e dias ruins. Aquele era um dia ruim. Ela sabia que teria problemas para dormir de novo. E não queria depender novamente dos remédios.

Entrou no prédio e olhou o elevador, um rapaz com fones de ouvido e skate embaixo do braço segurou a porta pra ela.

— Vai subir, moça?

Ela ia? Não. Dessa vez não. Já havia se colocado à prova duas vezes naquele dia. Era mais do que podia suportar. O rapaz soltou a porta e Lily ficou olhando enquanto ela se fechava devagar, então se virou em direção as escadas. Suspirando.

O apartamento estava escuro e frio. E ela acendeu logo todas as lâmpadas do lugar, ligou a TV e aumentou o volume para ouvir a voz de alguém, tomou um banho demorado e secou os cabelos sem pressa. Estava escovando os dentes quando o bilhete colado no espelho chamou sua atenção. A caligrafia dele era perfeita. Inconfundível.

— Minha vida! Seu sorriso me encanta e comove! Volto em dois dias… Te amo! Fred

Ela tocou o papel com a ponta dos dedos, com cuidado, quase com reverência. Absorvendo cada palavra, como se ele as estivesse pronunciando diante dela.

Recolheu a mão de repente e escovou os dentes vigorosamente.

Se trocou mais rápido do que já havia feito na vida, o vestido preto escolhido era curto demais, mas ela não se importava, precisava sair depressa dali. Procurou os sapatos até se lembrar que os havia chutado pelo corredor. Calçou-os e sem se olhar no espelho saiu. Parou um último instante para colocar uma gota de perfume atrás de cada orelha. Perfume era importante, se lembrou.

O bar estava cheio. Ela se sentou e pediu uma dose de vodca. Olhou o relógio e viu que já passavam das vinte horas, conseguira ficar um dia inteiro sem beber. Já podia recomeçar.

Não demorou mais do que cinco minutos. O primeiro estranho que se aproximou foi o escolhido, principalmente por ser o oposto de Fred. Cabelos loiros, olhos claros, pele pálida, não muito alto, não muito forte. Iria servir.

— Você pode fazer isso — repetiu silenciosamente para si mesma.

Meia hora depois, algumas doses de vodca a mais, uma conversa sem sentido que serviu apenas para deixar claro suas intenções, eles chegavam ao apartamento dele. Uma hora depois estavam na cama. Minutos intermináveis depois e o estranho ressonava baixinho ao lado dela.

— Pronto, você conseguiu. Você sempre consegue — Ela pensou, apertando os olhos com força até que pontos brilhantes surgissem diante de sua visão.

Deitada, nua, na cama de um estranho, olhando para o teto desconhecido sentiu o vazio invadir sua alma. Como se estivesse caindo, sem nunca chegar ao fundo. O pânico a tomou com força máxima. Sufocando-a. Mãos suadas, pulsação acelerada, um enjoo terrível. As janelas estavam fechadas, as portas também. Ela jamais seria capaz de sair daquele quarto. Arranhou a pele do pescoço buscando ar. Nenhum mantra conseguiria acalmá-la agora.

Ela esperou por mais alguns minutos até sentir as pernas firmes de novo. E então rolou para fora da cama, vestiu suas roupas e pegou os sapatos de salto alto para não fazer barulho ao sair.

Já na rua, respirou o mais profundamente possível. Várias vezes. A claustrofobia parecia ter atingido um novo nível, se manifestando até mesmo dentro de um quarto amplo. As lágrimas vieram antes que ela pudesse pensar em contê-las. Caminhou sem rumo, tentando se localizar, pensando onde teria deixado o carro. Perdida. Sozinha.

Só havia um lugar para onde ir. Apenas um lugar onde se sentiria segura de novo. Então ela correu.

O cemitério ficava normalmente fechado a noite. Mas felizmente alguém havia morrido horas antes. Felizmente para Lily; ela passou pelas pessoas que se dirigiam ao velório na capela central, continuou caminhando, ignorando os olhares para o seu vestido curto e os pés descalços.

Parou diante da lápide e, pela primeira vez naquele dia, não precisou puxar o ar com força, a respiração era calma assim como o choro. Ela chorou por muito tempo, sentada ao lado do tumulo. Apreciando o silêncio. Até ouvir a voz dele.

— Querida, eu achei que você fosse escolher algo menos clichê.

Ela olhou para a pedra, e leu a inscrição gravada em letras douradas.

 Frederick Otavio Taylor – Amado Marido e Melhor Amigo

Voltou a chorar, dessa vez foi tomada por espasmos e se abraçou para segurar o próprio corpo. As lembranças do dia da morte do marido vieram com força.

— Lily, vai ficar tudo bem. Tente se acalmar. Apenas respire — Ele disse pousando uma mão sobre o ombro dela. Ela não podia senti-lo.

— Você é um anjo. Eu sempre soube que você era um anjo. Mas não precisava ter morrido tão cedo pra provar isso.

Ele se abaixou olhando diretamente nos olhos dela. Ela não tinha reparado como os olhos dele haviam se tornado escuros. Até agora.

— Não sou um anjo meu amor. Sou um fantasma. Existe uma grande diferença. E tudo bem, não me importo de assombrar você.

Fred sorriu com o mesmo sorriso irritante de sempre, e ela desejou tocá-lo, mais do que qualquer outra coisa que já havia desejado. Mas não se mexeu.

— Sou uma pessoa horrível, Fred — Ela sussurrou, escondendo o rosto na curva do braço.

— Não é não. Eu vou cuidar de você, meu amor. E no final vai ficar tudo bem. O medo vai passar, as crises vão passar, logo você estará inteira de novo. Vem, vamos pra casa.

Ela se levantou controlando o impulso de segurar a mão dele. Lembrou-se do quanto tinha se sentido só e inútil quando o enterrou, para logo em seguida se dar conta que não era ele enterrado ali. Era apenas um corpo no qual ele havia habitado por um tempo.

Estavam indo em direção ao portão quando ela parou e se voltou para ele. Uma ruga marcando sua testa.

— Você é um fantasma. — Lily afirmou, mais para si mesma.

— Sim, meu amor.

— O que isso faz de mim?

— Lily, você pode ser o que quiser. Eu estou morto. Meu estado é imutável. Mas você está viva. E pode fazer o que quiser com a sua vida. A decisão é sua. Pode levar uma vida vazia, dormindo com um estranho diferente todas as noites. Pode continuar bebendo até cair. E pode ficar em pânico cada vez que precisar entrar no elevador. Ou não. Pode mudar sua historia, amor. Pode fazer o que quiser. Pode ser o que quiser.

Ela o olhou incrédula, jamais acreditara em algo sobrenatural. Entretanto estava ali, conversando com o espirito do marido morto em pleno cemitério. E ele a estava aconselhando!

Lily sorriu, como não fazia há um ano. Genuinamente.

Eles continuaram a caminhar e ela soube o que faria daquele dia em diante. Ela tinha um anjo ao seu lado, não importava que ele não se visse dessa forma. Importava o que ela sentia.

Imagem: Gerald Appel


Card alaranjado com a foto e a mini bio da escritora Tiara Gonçalves. A foto dela está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio da escritora.

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