Conto | Os Alunos

O diretor da escola estadual repetiu o ritual de toda sexta-feira e retirou as cartas dos alunos da caixa de sugestões/reclamações que havia ao lado de seu escritório. Parte do hábito era utilizar os minutos finais de seu almoço para lê-las, já que normalmente não haviam muitas. Ele se espantou ao destrancar a urna e ver que o volume de papel desta vez era o maior com o qual já se deparara.

Começou a ler as cartas de pronto para descobrir se o assunto delas era o mesmo. Não era estranho receber reclamações, mas estas costumavam acontecer pessoalmente, de pais preocupados ou de professores, durante as reuniões semanais.

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Crônica | Pra ser sincero

Foi numa festa, à meia-luz, que eu a vi pela primeira vez em muito tempo.  

Nossos caminhos não se cruzavam há tempos. Ela com o mesmo sorriso bobo, eu com alguns fios brancos de cabelo a mais.  

Nossa história passa por minha cabeça como um filme sem palavras. Imagens familiares que voltam a ter sentido.

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Conto | Estátuas

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

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Conto | Cada Gota do Seu Sangue

Larissa perdeu outro dente naquela manhã. Era quase surreal a forma como uma tarefa tão banal como escovar os dentes, assumia mais a cada dia que passava um aspecto de auto-tortura e flagelo.

O dente, o incisivo central superior que ainda vinha resistindo em sua boca e que assumira um aspecto amarelado ao longo da última semana, como um reflexo doentio do estado físico decadente que se apossara dela, repousava inerte na pia do banheiro, e por pouco não fora engolido pelo ralo. Um pouco de sangue tingia de vermelho a espuma do creme dental que decorava o dente perdido.

Era o sexto que ela perdia em duas semanas. Larissa fechou os olhos lacrimejantes e inspirou fundo, segurando o ar em seus pulmões. Sentiu o fraco sabor do creme dental sendo ofuscado pelo gosto forte e ferroso do sangue que ainda escorria em pequena quantidade da sua gengiva. Era uma sensação nova e inesperada.

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Conto | A Longa Caminhada

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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Conto | Martha, My Dear

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

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Conto | Gritos

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

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Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia. Continuar lendo “Conto | Aqui Jaz um Homem Nu”

Conto | O Mar de Prudence

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas. Continuar lendo “Conto | O Mar de Prudence”

Conto | O Menino no Retrato

O menino ajeitou a câmera atrás de si um pouco mais para a direita, olhou de esguelha, testando a expressão: ainda não. Queria a posição perfeita. O que ele queria demonstrar ainda era um mistério. Pelo menos, era assim que ele preferia pensar.

Tentou por um tempo escrever em um diário como se sentia, mas percebeu que algo ainda estava preso em seu peito. Nem a tinta, nem sua mente ou mesmo sua psicóloga entendiam, de verdade, o que se passava em seu coração. Continuar lendo “Conto | O Menino no Retrato”