Resenha | Tartarugas Até Lá Embaixo

Após um hiato de seis anos do lançamento de “A Culpa É Das Estrelas”, John Green está de volta. Em “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Editora Intrínseca, 256 páginas, com tradução de Ana Rodrigues), o autor estadunidense conta a história de Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que luta contra uma doença mental enquanto investiga o misterioso desaparecimento de um bilionário, cujo paradeiro pode render uma vultosa recompensa.

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Conto | Os Alunos

O diretor da escola estadual repetiu o ritual de toda sexta-feira e retirou as cartas dos alunos da caixa de sugestões/reclamações que havia ao lado de seu escritório. Parte do hábito era utilizar os minutos finais de seu almoço para lê-las, já que normalmente não haviam muitas. Ele se espantou ao destrancar a urna e ver que o volume de papel desta vez era o maior com o qual já se deparara.

Começou a ler as cartas de pronto para descobrir se o assunto delas era o mesmo. Não era estranho receber reclamações, mas estas costumavam acontecer pessoalmente, de pais preocupados ou de professores, durante as reuniões semanais.

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Crônica | Pra ser sincero

Foi numa festa, à meia-luz, que eu a vi pela primeira vez em muito tempo.  

Nossos caminhos não se cruzavam há tempos. Ela com o mesmo sorriso bobo, eu com alguns fios brancos de cabelo a mais.  

Nossa história passa por minha cabeça como um filme sem palavras. Imagens familiares que voltam a ter sentido.

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Conto | Estátuas

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

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Conto | Cada Gota do Seu Sangue

Larissa perdeu outro dente naquela manhã. Era quase surreal a forma como uma tarefa tão banal como escovar os dentes, assumia mais a cada dia que passava um aspecto de auto-tortura e flagelo.

O dente, o incisivo central superior que ainda vinha resistindo em sua boca e que assumira um aspecto amarelado ao longo da última semana, como um reflexo doentio do estado físico decadente que se apossara dela, repousava inerte na pia do banheiro, e por pouco não fora engolido pelo ralo. Um pouco de sangue tingia de vermelho a espuma do creme dental que decorava o dente perdido.

Era o sexto que ela perdia em duas semanas. Larissa fechou os olhos lacrimejantes e inspirou fundo, segurando o ar em seus pulmões. Sentiu o fraco sabor do creme dental sendo ofuscado pelo gosto forte e ferroso do sangue que ainda escorria em pequena quantidade da sua gengiva. Era uma sensação nova e inesperada.

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Conto | A Longa Caminhada

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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Conto | Martha, My Dear

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

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Conto | Gritos

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

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Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia. Continuar lendo “Conto | Aqui Jaz um Homem Nu”

Conto | O Mar de Prudence

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas. Continuar lendo “Conto | O Mar de Prudence”