Conto | Os Alunos

O diretor da escola estadual repetiu o ritual de toda sexta-feira e retirou as cartas dos alunos da caixa de sugestões/reclamações que havia ao lado de seu escritório. Parte do hábito era utilizar os minutos finais de seu almoço para lê-las, já que normalmente não haviam muitas. Ele se espantou ao destrancar a urna e ver que o volume de papel desta vez era o maior com o qual já se deparara.

Começou a ler as cartas de pronto para descobrir se o assunto delas era o mesmo. Não era estranho receber reclamações, mas estas costumavam acontecer pessoalmente, de pais preocupados ou de professores, durante as reuniões semanais.

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Conto | CHUPA-CABRA

— Se amanhã tu ainda estiver aqui, vai queimar junto da casa.

A cada latejar do olho lembrava-se daquelas palavras. Estava sentado no canto mais escuro do bar, longe da luz matinal e de curiosos. A sombra escondia providencialmente sua vergonha. Com a cabeça baixa não via muito além do balcão à sua frente e parte da movimentação do Seu Chico, o dono da birosca. Alguém sentou ao seu lado e, pelo estardalhaço, já sabia quem era.

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Conto | Força da Natureza

Após horas de caminhada, o explorador viu algo que mudaria sua vida para sempre. As pernas cansadas fraquejaram quando ele parou para tomar fôlego e observar os itens a sua volta.

Itens. Mercadorias. Esses foram os termos que passaram pela sua mente assim que percebeu o que era a vastidão colorida que ele estava desbravando cada vez mais. A fonte de desejo era a floresta amazônica, onde, perto da fronteira com o Acre, o explorador soube que poderia encontrar não só plantas, mas também pedras raras para vender.

Ele se curvou e olhou com mais cuidado para uma planta roxa que não conhecia. Era raro que não reconhecesse algo da vasta flora do país. Desde as folhas roxas pontudas até os filamentos alaranjados, o espécime ganhou sua curiosidade, já que havia poucas como aquela naquela clareira. Já imaginava quais eram suas propriedades e o quanto poderia faturar com ela.

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Conto | Estátuas

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

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Conto | Cada Gota do Seu Sangue

Larissa perdeu outro dente naquela manhã. Era quase surreal a forma como uma tarefa tão banal como escovar os dentes, assumia mais a cada dia que passava um aspecto de auto-tortura e flagelo.

O dente, o incisivo central superior que ainda vinha resistindo em sua boca e que assumira um aspecto amarelado ao longo da última semana, como um reflexo doentio do estado físico decadente que se apossara dela, repousava inerte na pia do banheiro, e por pouco não fora engolido pelo ralo. Um pouco de sangue tingia de vermelho a espuma do creme dental que decorava o dente perdido.

Era o sexto que ela perdia em duas semanas. Larissa fechou os olhos lacrimejantes e inspirou fundo, segurando o ar em seus pulmões. Sentiu o fraco sabor do creme dental sendo ofuscado pelo gosto forte e ferroso do sangue que ainda escorria em pequena quantidade da sua gengiva. Era uma sensação nova e inesperada.

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Conto | A Longa Caminhada

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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Conto | Martha, My Dear

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

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Conto | Gritos

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

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Conto | Noiva Insana

As pálpebras foram as primeiras partes que ela arrancou. Não houve dor, eu estava sedado. Tudo voltou num borrão e as engrenagens dentro da minha cabeça ora rodavam demais, ora de menos. Eu me esforçava para piscar e poder limpar a visão, mas não havia membrana alguma que cobrisse meus olhos.Uma gota gelada em cada olho e tudo pareceu melhorar. Pude me ver enfim, estirado na cama, como da última vez, nu, refletido no imenso espelho instalado no teto, com uma estrutura presa à cabeceira da mesa. Não sabia o que era, mas não estava ali quando apaguei.

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Conto | Maldita Noite de Oktoberfest

DESABAFO – 10 de Julho de 2015

Recusaram outro conto meu. Já faz dois anos que escrevo e ainda não tenho um conto sequer selecionado para uma antologia. Talvez seja a minha insistência em escrever contos de terror. Já me disseram que tenho uma mania de inventar moda e tentar inovar demais. Quer saber? Que se fodam as antologias, e que se foda o que os outros pensam.

FIM – 11 de Julho de 2015

Este é provavelmente meu último post. Escrever talvez não seja para mim, e o meu ego já não suporta mais os golpes cruéis e desproporcionados da crítica, sempre dura e às vezes injusta. Assim sendo, não espere por novidades tão cedo.

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