Conto | Gritos

Por: Cesar Gaglioni

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

Se eu estivesse lá poderia fazer alguma coisa. Poderia salvar a todos, apagar o fogo. Vejo a capa vermelha. Uma lágrima escorre pelo meu rosto. Do que adianta ser o Superman se eu perdi todos os meus poderes?

Choro copiosamente enquanto me lembro dos dias em que eu ia ao alto e avante.

Só restam as lágrimas. Nada mais.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Cesar Gaglioni. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

Conto | Noiva Insana

Por: Camila Servello Aguirre

As pálpebras foram as primeiras partes que ela arrancou. Não houve dor, eu estava sedado. Tudo voltou num borrão e as engrenagens dentro da minha cabeça ora rodavam demais, ora de menos. Eu me esforçava para piscar e poder limpar a visão, mas não havia membrana alguma que cobrisse meus olhos.Uma gota gelada em cada olho e tudo pareceu melhorar. Pude me ver enfim, estirado na cama, como da última vez, nu, refletido no imenso espelho instalado no teto, com uma estrutura presa à cabeceira da mesa. Não sabia o que era, mas não estava ali quando apaguei.

Continuar lendo “Conto | Noiva Insana”

Conto | Maldita Noite de Oktoberfest

Por: Dyego Alekssander Maas

DESABAFO – 10 de Julho de 2015

Recusaram outro conto meu. Já faz dois anos que escrevo e ainda não tenho um conto sequer selecionado para uma antologia. Talvez seja a minha insistência em escrever contos de terror. Já me disseram que tenho uma mania de inventar moda e tentar inovar demais. Quer saber? Que se fodam as antologias, e que se foda o que os outros pensam.

FIM – 11 de Julho de 2015

Este é provavelmente meu último post. Escrever talvez não seja para mim, e o meu ego já não suporta mais os golpes cruéis e desproporcionados da crítica, sempre dura e às vezes injusta. Assim sendo, não espere por novidades tão cedo.

Continuar lendo “Conto | Maldita Noite de Oktoberfest”

Conto | Um Levante na Noite

Por: Tiara Gonçalves

Havia uma goteira no abrigo. Uma goteira insistente que, mesmo após a tempestade ter se dissipado, persistia. Itta contava as gotas que caíam e agradecia internamente por aquela ser a única goteira. Nas últimas chuvas, o teto quase cedera e tiveram que passar muito tempo substituindo a madeira velha, que cobria o local abafado sem janelas e com portas reforçadas. Seu abrigo e prisão nos últimos três anos.

Ela rolou no chão de terra batida, procurando uma posição menos desconfortável. O dia fora longo. Os capatazes os fizeram trabalhar além do horário, pareciam ter pressa em extrair os minérios. Muita pressa.

Continuar lendo “Conto | Um Levante na Noite”

Conto | Dia de Carnaval

Por: Adele Lazarin

A rua se encheu de confete e serpentina. As fantasias brilhavam à luz do sol enquanto os foliões riam, dançavam e cantavam ao som das marchinhas de carnaval. O calor de fevereiro subiu do asfalto e invadiu os corpos pintados e suados no meio de Ipanema. A praia, ao fundo, abriu alas para os mascarados que desejavam recuperar as energias junto às ondas do mar.

Era mais um dia de festa no Rio de Janeiro.

Continuar lendo “Conto | Dia de Carnaval”

Conto | Liberdade

Por: Adele Lazarin

O vento carregou Laila para longe do penhasco, em direção ao abismo. Sem amarras ou segurança, ela se deixou levar pelo impulso, mergulhando de cabeça e abrindo os braços, pronta para abraçar o mundo. A barriga começou a formigar, e, logo, esse estranhamento se transformou em cócegas. Partindo do umbigo, o sentimento de liberdade se expandiu por todo o corpo até explodir em uma risada.

E, então, ela abriu os olhos.

Continuar lendo “Conto | Liberdade”

Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Por: Rodrigo Chama

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia. Continuar lendo “Conto | Aqui Jaz um Homem Nu”