Resenha | Lobo de Rua

Por: Rodrigo Chama

Lobo de Rua é uma novela escrita por Janayna Pin ambientada em São Paulo, uma cidade cheia de excessos ― carros, habitantes, desigualdades e violência ― que conta a história de Raul, um menor abandonado em busca de sobrevivência, de entender o seu papel no mundo. Ao longo das suas 105 páginas, somos convidados a testemunhar a transformação de Raul em lobisomem, de solitário em membro de alcateia e da cidade crua e cinza no mundo fantástico da Galeria Creta.

A fantasia urbana é um campo profícuo para a releitura de temas clássicos. Não me refiro à Stephenie Meyer e seus vampiros que brilham quando expostos ao sol ou dos lobisomens que se transformam como super-heróis, mas àqueles que trazem um novo olhar para nossos monstros queridos. Aqui, a licantropia é uma maldição, ela não é transmitida por mordidas e a sua transformação se assemelha a morte. Na verdade, é a morte do racional em detrimento ao animal.

Daquele jeito, logo seu corpo iria se romper. A coisa dentro dele estaria livre mais uma vez, e, com ela, voltaria o terror”.

Raul está à margem da sociedade. A sua coisificação está presente antes da contaminação. Sua “morada” é composta por papelões e jornais velhos, sujos, que falham na tentativa de aquecer ou aconchegar, mas são bem sucedidos em esconder o fracasso de um modelo social opressor.

Neste sentido, a situação do garoto se assemelha a do personagem Mitchell Chaplin, do episódio To See the Invisible Man, da série Twilight Zone. Baseado em um conto de Robert Silverberg, conta a história de um mundo paralelo, onde a sociedade não tolera aqueles que são individualistas ou não amigáveis com as pessoas que o cercam. Assim, é condenado a ficar um ano sem contato visual ou verbal com outro cidadão. Para isso, recebe uma marca na pele que possibilite a identificação de sua pena. Ele se torna invisível, um pária. A ironia é que Raul anseia por contato, por acolhimento. A ele nunca foi dada a oportunidade de pertencimento. Sua sentença parece ser perpétua.

Dois pedestres, que conversavam animados enquanto se dirigiam ao ponto de ônibus próximo, recuaram assustados com o movimento daquilo que, na escuridão originada pela ausência de uma lâmpada no poste, haviam julgado ser uma pilha de entulho. Quando vislumbraram a figura patética de Raul, atravessaram a rua aos risinhos e apertaram o passo, suas vozes diluindo-se pouco a pouco no silêncio da noite”.

O livro "Lobo de Rua" está deitado em cima do piso de chão de madeira. Sobre ele, está um bonequinho de plástico em forma de lobisomem.

Acostumado a uma vida de sofrimento e exclusão, o garoto luta contra uma besta interior ― irracional e assassina ―, enquanto enfrenta a fome, o frio e a violência. No momento em que estas duas forças convergem para sua derrocada física e espiritual, eis que surge um salvador, um alpha. Símbolo de tudo que falta a Raul, Tito Agnelli é a esperança de um futuro menos sombrio para o menino.

Tito é o guia deste mundo mágico. Ele pode ser comparado ao barqueiro Caronte, que leva as almas recém chegadas ao outro mundo. Imigrante italiano radicado em São Paulo, ele está familiarizado com a maldição, com a adoção de novos membros e com a Galeria Creta, lugar em que criaturas diversas coexistem sobre a tutela do Minotauro. É para lá que eles devem seguir em busca de abrigo nas noites de lua cheia.

O narrador em terceira pessoa usa o personagem do italiano generoso e experiente para explicar ao garoto e ao leitor detalhes deste universo construído em Lobo de Rua. A conexão mental entre os personagens, característica dos lupinos, se estende ao leitor. Alternamos entre os pontos de vista de Raul ― poderia ter sido mais explorado ― e Tito, absortos com a riqueza de detalhes e maravilhas deste mundo.

A primeira parte do livro serve como apresentação desta mitologia paulistana, permeada de vampiros, caçadores, ciganos, lobisomens e figuras mitológicas. O efeito criado nos transporta para dentro da cena e nos sentimos como parte da alcateia. Talvez, por isso, a autora use descrições sensitivas (gostos, cheiros e sentimentos) para compor a história, ao invés de exagerar nas descrições das locações.

Na segunda parte do livro, o ritmo acelera com a apresentação de outros personagens ― Soraia, Téo e Bruna ―, cuja trajetória será mais explorada em outros livros. Independente do tempo de cena, a composição é consistente e significativa. Nada aparenta ser gratuito, e os diálogos bem construídos tornam críveis os atores do livro. O clímax é condizente com toda a estruturação do texto, sendo extremamente tocante e libertador.

Chegamos ao final com a vontade de conhecer mais sobre esse universo, que é cru, sujo, visceral e, ao mesmo tempo, lírico e fantástico. Como ponto de partida para a introdução da Galeria Creta, cumpre seu papel com louvor. Faz de cada leitor um cúmplice, uma testemunha, um parceiro.

A autora Janayna Pin é uma promessa da nova geração de autores nacionais. Nasceu em Campinas-SP, mas reside na Galeria Creta. Ela começou sua carreira com publicações independentes (Lobo de Rua, Sombras), porém, conseguiu seu primeiro contrato com uma editora, Dame Blanche, onde relançará Lobo de Rua. Outros contos situados neste universo da Galeria Creta podem ser encontrados na Amazon.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Rodrigo Chama. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

 

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3 comentários em “Resenha | Lobo de Rua

    1. Obrigado, O Taverneiro! Na verdade, o blog é coletivo. Somos em treze escritores que alternam publicações de contos, crônicas, resenhas e artigos. Fico feliz que tenha gostado da resenha, pois o livro vale a pena. Mais uma vez, agradeço pelo retorno. Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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