Artigo | Leitura é o que interessa, o resto não tem pressa.2 min de leitura

Um dos efeitos da solteirice em estágio mais avançado, pasmem, é a total inabilidade para presentear os filhos dos amigos. Cada vez que recebo um convite por e-mail, Messenger ou WhatsApp, sinto uma enorme responsabilidade. Isso porque só dou livros de aniversário. E nem sempre são infantis.

Confesso que nem sempre acerto. Acho natural. A arte de escolher um livro se assemelha ao ato de compreendê-lo. Às vezes, simplesmente, não estão prontos. Ou não aprenderam a ler, ou não viveram o suficiente. Claro que apelo ao irmão mais velho ou aos pais a missão de contador de histórias. Voltaremos a este ponto mais a frente, porém, é nas palavras o lugar mais seguro para se reencontrar.

Há muito tempo, quando eu ainda falava com os animais e era preciso recarregar as minhas energias em contato com o sol, eu aprendi a ler. Na verdade, eu aprendi a ler para outros, mais especificamente, para minha irmã mais nova. Foi nessa época que meus pais tiveram a brilhante ideia de confrontar meu medo da Cuca — vilã principal da série televisiva “Sítio do Pica Pau Amarelo” — com a leitura dos livros de Monteiro Lobato. “Filho, um livro que não é lido é como um abraço reprimido. Há de se compartilhar”, dizia minha mãe.

Vale ressaltar que ali começou a minha mania de falar sozinho. Eram muitas vozes implorando para serem lidas, ou melhor, ouvidas. A leitura sempre foi um exercício vocal, imaginativo e de paciência. Nunca duvidei que as palavras de uma história, uma vez evocadas, tinham o poder de transformar o mundo. Construíam uma história, dentro de outra história. E, assim, o meu passado virou fábula, virou parábola, virou memória.

Retomando, é fácil visualizar a cara de desespero de alguns pais quando me veem chegar à festa. Eles não sabem, mas a minha fórmula para escolher o presente envolve um conhecimento básico do gosto do casal e o sexo da criança. Sim, procuro por representatividade aliada à diversão. Eu sei que não há glória imediata na pilha de presentes, pois não há como concorrer com bonecos de Star Wars, vídeo games e pijamas do Batman. Antes de depositar o livro, eu cochicho: “espere até que sejam cativados”.

Você não está sozinho. É o que tenho vontade de escrever no cartão de presente. Dentro dessas páginas, no meio das palavras, estão seus sonhos e medos. Cada vez que ler e reler, vai deixar uma pequena parte de quem é, ao mesmo tempo, levará consigo um pouco do autor, do personagem. Aprenderá a se dividir na vida em pequenos contos, em grandes romances. Assumirá protagonismos e antagonismos, aventuras e dramas. Você, o colecionador de mundos.

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Rodrigo Chama

Nasceu em Cuiabá-MT no ano em que Elvis Presley e Charles Chaplin morreram. Tem orgulho ser conterrâneo de Manoel de Barros. Fez 12 anos no dia em que o muro de Berlim foi derrubado. Já foi biólogo, professor, bancário e gastrônomo. Quase se afogou duas vezes, talvez por isso tenha medo de tubarão. Joga boardgame, vai ao cinema sozinho, adora longas conversas e nunca percebe quando alguém está afim dele. Escreve sobre o que gosta e gosta de muitas coisas.
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