Entrevista | Eric Novello

Nascido no Rio de Janeiro e residente em São Paulo desde 2007, Eric Novello figura entre os escritores brasileiros mais promissores da atualidade. Após a experiência bem-sucedida na ficção fantástica com as obras “A Sombra do Sol”, “Neon Azul” e “Exorcismo, Amores e Uma Dose de Blues”, universo sugestivamente batizado de “magoverso”, Eric decidiu aderir a uma pegada mais realista em seu livro mais recente “Ninguém Nasce Herói” (Companhia das Letras, 2017). Antenado com o momento atual do Brasil, o autor desenvolveu uma ficção distópica com elementos presentes em nosso cotidiano somados a uma visão pessimista, mas assustadoramente plausível do nosso futuro. Abaixo, em entrevista exclusiva, Novello nos conta um pouco mais sobre sua carreira e os motivos que o levaram a construir sua nova e incitante obra.

Conte Histórias: Seu livro mais recente, Ninguém Nasce Herói, traz a visão de um Brasil distópico, mas que dialoga perfeitamente com o momento vivido pelo país. Você se recorda de como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Eric Novello: Com o fim da ressaca de “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”, estava na hora de reunir ideias e decidir qual delas seria mais interessante para um livro novo. O Brasil começava a ensaiar perder o rumo, com o Cunha mandando e desmandando na agenda do país, e por mais que eu tentasse me concentrar em outros assuntos, o descontrole na política e a agressividade que começava a surgir nas ruas não me saíam da cabeça. Estávamos sendo bombardeados com isso na televisão, rádio e redes sociais. Pensando no problema, me fiz duas perguntas: e se um político aproveitador, com discurso pilantra de salvador da pátria, se aproveitasse desse momento e conseguisse chegar ao poder com uma agenda política retrógrada? E outra, como estariam se sentindo pessoas na idade em que mais se pensa no futuro, seja planejando entrar numa faculdade, sair de casa ou arrumar um emprego, com a estabilidade política, econômica e social do país começando a desmoronar? Há claramente um grupo grande de iludidos com esse discurso de “salvador”, mas e para o restante, qual a sensação? Essas duas questões me levaram a escrever o “Ninguém Nasce Herói”. Foi uma tentativa de entendimento e também de exorcizar tudo que eu vinha sentindo com a situação.

CH: Apesar dos indícios de que a história se passa num futuro próximo, não há delimitação de datas. Como você lidou com essa questão temporal no romance?

EN: Desde o começo eu sabia que deixaria essa questão na mão do leitor: o livro é uma possibilidade preocupante para o futuro ou estamos vivendo isso agora, no presente? Ele é uma distopia ou literatura contemporânea? Foi um recurso para provocar uma reflexão sobre nossa situação atual sem precisar entrar em discursos explicitados sobre o assunto. Decidido isso, fui brincando com os marcadores de tempo que fazem referência a uma São Paulo real. Ler relatos de jovens morando em países de regime autoritário me fez ver que a “transição” de uma situação democrática para governos fundamentalistas ditatoriais às vezes é mais cinzenta do que percebemos. Tudo parece estar bem, tudo parece ter jeito, fica aquela crença do “não é possível que isso esteja acontecendo”, e de repente um livro é proibido, uma exposição é censurada, um amigo some e a realidade nos dá uma bela sacudida.

CH: Na trama, o principal antagonista é nada menos que o presidente da república. Embora ele faça lembrar políticos contemporâneos, é correto dizer que não se trata de alguém específico, mas de um conjunto de características?

EN: É triste pensar na quantidade de políticos e figuras políticas que conseguimos projetar no Escolhido, não é verdade? Os leitores o associam a vários nomes diferentes e eu, sinceramente, gostaria que não existissem tantas inspirações possíveis no nosso país para alguém com um discurso tão desprezível. Mas essas pessoas estão por aí, se aproveitando de um momento de fragilidade da parte progressista da população e da nova dinâmica de disseminação de informações imposta pelas redes sociais para acumular seguidores alienados, agrupar conservadores surtados e conseguir poder.

CH: Além da crise econômica que atravessa, o Brasil tem vivido uma severa onda que beira o obscurantismo com minorias sofrendo ainda mais que o restante da população. Você acredita que o futuro retratado em ‘Ninguém Nasce Herói’ é uma possibilidade mesmo que remota?

EN: Se pararmos para pensar que temos uma bancada fundamentalista cada vez maior, mantendo alianças com os maiores donos de terra do país e com a bancada armamentista. Não parece um futuro promissor. Por outro lado, a pessoa certa na presidência poderia mudar todo o clima político do país. Então vamos manter aquela última gota de esperança e torcer para que a parte sã da população ainda seja maioria.

Eric Novello
Eric Novello

CH: Chuvisco, o protagonista da história, trabalha como tradutor, ofício que, para quem não sabe, você também exerce. Além disso, sua imagem nas redes sociais passa a impressão de alguém bastante engajado. O que tem de Eric no Chuvisco e de Chuvisco no Eric?

EN: Durante a escrita do livro houve um processo de imersão tão grande que acabei me tornando o Chuvisco por um tempo. Mas considero o Chuvisco um sujeito mais sonhador do que eu. Embora não tenha perdido as esperanças com o atual cenário político (dedos cruzados por 2018), mantenho um olhar mais cínico ao pensar na situação brasileira, e tomei certo cuidado para isso não contaminar a visão do personagem, apesar de respingar propositalmente em alguns dos seus amigos, principalmente no Pedro. Como o próprio livro fala, existem várias maneiras de fazer a diferença, até o silêncio é um ato político, e é importante pensarmos em todos os caminhos possíveis. Nesse ponto, eu e Chuvisco concordamos cem por cento.

CH: No romance, narrado em primeira pessoa, o leitor dispõe apenas do ponto de vista do protagonista. Para você, quais são os prós e contras dessa voz narrativa?

EN: Hum, sabe que nunca parei para pensar nisso? A terceira pessoa, obviamente, oferece um olhar mais fluido, que pode ir de um personagem para outro com tratamento equivalente, enquanto a primeira pessoa mantém o autor preso a um único personagem, nos obrigando a pensar um recorte diferente de cenas para contar uma história. Escolhi a primeira pessoa para o NNH para poder entrar na cabeça do Chuvisco, alguém que tem um modo muito peculiar de encarar o mundo, e permitir que o leitor o visse como alguém do seu círculo de amigos contando uma história em tempo real. Quando alguém me diz que ficou perdido sem saber se uma catarse criativa era real ou não, eu abro um sorriso e penso “que bom”, sinal de que o personagem funcionou. Foi uma imersão mágica e exaustiva emocionalmente, e não acho que teria sido possível com a terceira pessoa.

CH: Embora haja componentes fantásticos oriundos da mente de Chuvisco em Ninguém Nasce Herói, a história não se passa no “Magoverso”, mundo que abrangeu seus romances anteriores. Há planos de retomar esse universo fantástico?

EN: Me faço sempre essa pergunta, acredite! A resposta direta é: nesse exato momento não. Dependeria muito do convite certo na hora certa. Por outro lado, estou trabalhando em um novo livro com elementos de fantasia, passado aqui no nosso mundo, na cidade de São Paulo, que deve ajudar a amenizar a saudade dos fãs do magoverso.

CH: Eric, o Conte Histórias agradece a oportunidade e deseja muito sucesso em sua carreira. Gostaria de deixar uma mensagem para os nossos leitores?

EN: Primeiro de tudo, obrigado pelo espaço! Sobre a mensagem, bem, comprem “Ninguém Nasce Herói” e venham falar comigo nas redes sociais. E, ano que vem, se o país ainda estiver de pé, pensem com carinho em quem votar (dica: políticos com discurso de ódio são uma péssima opção).

Crédito da imagem de capa: Renato Parada

Resenha | A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

Embora o título da obra automaticamente remeta ao clássico “A Jornada do Escritor” de Christopher Vogler, não espere encontrar mais um manual de escrita criativa com estruturas prontas. E nem era essa a intenção de Kátia Regina Souza. Nas 173 páginas de “A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil”, a autora gaúcha busca desvendar o cenário da literatura fantástica brasileira desde o processo criativo, passando pelas angústias do ofício, até chegar à publicação.

A autora, autografando um livro.
Kátia Regina Souza

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Resenha | Em Águas Sombrias

Segundo romance de Paula Hawkins, “Em Águas Sombrias” (Record, 2017) apresenta o drama vivido pelos habitantes da pequena Beckford, cidade situada no norte da Inglaterra conhecida pelos diversos afogamentos de mulheres ao longo dos séculos. Essa trágica sina começa a mudar quando Jules Abbot recebe em Londres a notícia de que Nel, sua irmã mais velha, também foi encontrada sem vida no local conhecido como “Poço dos Afogamentos”. Obrigada a retornar ao lugar que a traumatizou na adolescência, Jules se vê diante de um mistério que envolve não só a morte da irmã como seus próprios fantasmas do passado.

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Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?

Apesar de recorrente em qualquer debate sobre literatura, a máxima de que o brasileiro lê pouco não é inteiramente verdadeira. Com a internet e as redes sociais, o que mais vemos são pessoas consumindo informação escrita. Seja através de mensagens curtas, passando pelos “textões” de Facebook até chegarmos ao conteúdo jornalístico impresso e digital, vemos muitos leitores em ação.

Todavia, no que diz respeito a livros, o Brasil realmente sofre com um número de leitores abaixo do desejável para um país que busca se desenvolver. Segundo ranking elaborado pela agência Nop World, ocupamos a 27ª posição entre trinta países quando o assunto são horas semanais dedicadas à leitura. Paralelamente, figuramos no Top 10 no que diz respeito à televisão, rádio e internet.

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Artigo | Aquele 1% de inspiração

Quando um livro de ficção chega às mãos do leitor, uma pergunta costuma ser inerente à história: de onde surgiu essa ideia? Sem dúvida, uma obra de ficção evoca questões que fogem de simples regras gramaticais ou referências bibliográficas. Existe algo invisível, nascido da imaginação de alguém, e, quanto mais criativo e envolvente, mais cativante se torna aos olhos do público. No entanto, a maioria das pessoas não sabe que esse mesmo texto permeado de inspiração segue uma estrutura muito bem pensada e definida na qual pouca coisa nasce do mero improviso.

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Lista | Top 10 – Adaptações de livros em 2017

Alguns livros se tornam amados por um público tão grande que suas histórias extrapolam as páginas e invadem as telas do mundo inteiro, arregimentando mais e mais fãs para essas obras. Neste novo ano que inicia, o blog Conte Histórias reuniu as principais adaptações literárias para o cinema e o resultado você acompanha a seguir: Continuar lendo “Lista | Top 10 – Adaptações de livros em 2017”

Crônica | A várzea

Quando chegamos, só havia mato. Literalmente. O trajeto para o campo era feito através de uma trilha que serpenteava entre os arbustos. Ao final dela, encontrávamos o famoso Campinho da Bananeira. Nunca descobrimos porque ele tinha recebido esse nome, afinal, não se avistava nenhuma bananeira por perto. É provável que ela já tivesse dado seus cachos e sido arrancada por algum desalmado.

O gramado era uma obra de arte. Como não havia dinheiro para um sistema de drenagem, a própria natureza se encarregou de resolver o problema com um declive de, pelo menos, 15 graus. Assim, a chuva logo escoava estrada abaixo, deixando a grama sequinha de novo. Grama esta que não nascia no habitat dos goleiros, como orienta os melhores manuais varzeanos. E, como simetria é coisa de quem sofre de TOC, as linhas de fundo não tinham, necessariamente, o mesmo comprimento. Continuar lendo “Crônica | A várzea”

Resenha | Armada

Uma viagem pela cultura pop. Esta talvez seja a melhor definição para o estilo do escritor Ernest Cline. Fanático por ficção científica e games, Cline, assim como o diretor Quentin Tarantino, trabalhou em sua juventude como atendente em uma locadora de vídeos e teve acesso a uma infinidade de filmes que ajudou a moldar sua base autoral. Em boa parte, o que vemos nas 432 páginas de Armada (Leya, 2015) é uma compilação de filmes, séries, jogos e músicas que fizeram sucesso dos anos 1960 até os dias atuais.

Em termos narrativos, o autor repete em Armada o ponto de vista adotado em Jogador Nº 1, seu primeiro best-seller. A história é narrada em primeira pessoa e o leitor é levado a mergulhar no interior do protagonista, conhecendo seus sonhos e temores. Contudo, ao contrário de Jogador Nº 1 onde o personagem principal oferece o desfecho da aventura no prólogo e passa a contar como tudo aconteceu, em Armada os acontecimentos seguem uma linha do tempo mais tradicional. Continuar lendo “Resenha | Armada”

Artigo | A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser

Ao se deparar com as inúmeras críticas recebidas pelo filme Batman vs Superman, o diretor Zack Snyder não teve dúvidas na hora de apontar a razão para o blockbuster baseado nos dois maiores ícones da DC Comics ter ficado aquém das expectativas: “A principal coisa que aprendi foi que as pessoas não gostam de ver seus heróis serem desconstruídos. É difícil porque são personagens com os quais crescemos e com os quais nos acostumamos. Gostamos de vê-los em toda a sua glória”, afirmou durante as filmagens de Liga da Justiça.

Por sua vez, após amargar decepções cinematográficas como a adaptação do anime Speed Racer e, posteriormente, com O Destino de Júpiter, as irmãs Wachowski escolheram o mercado – “a indústria hoje está vivendo da criação de produtos, não de arte.” – e o público – “voltamos a ser crianças que querem a mesma história de ninar todos os dias, de novo e de novo.” – como motivos para os fracassos. Continuar lendo “Artigo | A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”

Resenha | Vocação para o Mal

J.K. Rowling acertou mais uma vez. Ou melhor, Robert Galbraith, pseudônimo menos famoso por trás da obra. Vocação para o Mal (Rocco, 2016) é a continuação perfeita para as histórias de Cormoran Strike e dá sequência à saga iniciada com O Chamado do Cuco (Rocco, 2014) e sucedida por O Bicho-da-Seda (Rocco, 2015), estabelecendo com mais força o cânone do detetive inglês.

Nesta aventura, Strike se vê diante de um novo e instigante caso quando Robin Ellacott, sua assistente, é destinatária de uma caixa contendo uma perna feminina decepada. Para espanto da dupla de investigadores, o membro solitário vem acompanhado de um bilhete com a estrofe final de uma canção do Blue Öyster Cult, curiosamente, a banda preferida da falecida mãe de Strike, a super groupie Leda. Continuar lendo “Resenha | Vocação para o Mal”