Entrevista | Eduardo Spohr9 min de leitura

“Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” (William Shakespeare)

Não se engane, não há escapismo. Precisamos de fantasia. Porque sempre há um duelo, um romance, uma batalha contra o mal nos esperando em cada página, em cada esquina.  Como numa dança muito bem coreografada, realidade e fantasia se alternam na condução de nossas vidas. Crescemos com a jornada de personagens romanescos, mas ao mesmo tempo, eles ganham novos contornos com o nosso crescimento. Seja você um leitor, seja você um escritor.

Escritor iniciante, fã veterano.  Foi este o título do e-mail que enviamos ao Eduardo Spohr – maior expoente da fantasia nacional, com mais de 700 mil livros vendidos – solicitando uma entrevista para o Conte Histórias. Pareceu-nos apropriado dizer que tanto suas histórias, quanto sua postura como autor nos serve de exemplo. E ele não nos decepcionou.

Blogger, podcaster (Filosofia Nerd e Jovem Nerd), jornalista e, principalmente, escritor dos Best-sellers “A Batalha do Apocalipse” e da trilogia “Filhos do Éden”, além do conto “A Torre das Almas”. Eduardo Spohr é o símbolo de uma nova geração de escritores no Brasil. Público leitor formado na internet, estreito contato com os fãs através de redes sociais e cordialidade no trato com a imprensa.

Sua franqueza e objetividade nas respostas, disponibilidade em atender grandes veículos de informação ou blogs iniciantes como nosso, reforçam o profissionalismo e afasta de vez a figura do escritor em sua torre de marfim, alheio ao que se passa entre os que o leem. Nesta entrevista, aprendem os escritores iniciantes e regozijam os fãs veteranos.

Conte Histórias: Como e quando você se tornou escritor?

Eduardo Spohr: Não sei se foi algo que eu tenha realmente decidido. Muito menos foi de uma hora para outra. Penso que foi um caminho natural e gradual. Sempre gostei de escrever. Minha primeira aventura nessa área foi uma HQ, aos 6 anos de idade, sobre um extraterrestre, claramente inspirada no filme “E.T.”, de 1982. Como era péssimo desenhista, só me restavam os textos como veículo para eu contar as minhas histórias. Durante a infância e adolescência escrevi muito e de tudo (contos, novelas, romances), primeiro em cadernos espirais, com caneta esferográfica, e depois na máquina de escrever. Tudo era muito ruim (risos), mas pelo menos me ajudou a treinar a minha prosa. Serviu com experiência.

CH: E quais são as suas obras literárias favoritas?

ES: É muito difícil fazer uma lista de obras favoritas (afinal, são muitas), mas eu destacaria “1984”, de George Orwell (talvez o romance mais importante do século XX); “Xógum”, de James Clavell (livro icônico, responsável por reascender, no ocidente, o interesse pela cultura japonesa); “Lúcio Flávio – o Passageiro da Agonia”, de José Louzeiro (livro-reportagem sobre  o “bandido dos olhos verdes”, que aterrorizou a sociedade carioca nos anos 70); “Entrevista com o Vampiro”, de Anne Rice (pela primeira vez o vampiro aparece como protagonista); “O Iluminado”, de Stephen King (unanimidade quando o assunto é terror); “O Rei do Inverno” de Bernard Cornwell (obra-prima do escritor britânico); “Os Pilares da Terra”, de Ken Follet (um retrato cru e perturbador da Inglaterra medieval); “O Exorcista”, de William Peter Blatty (tão bom quanto o filme); e “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger (um tesouro da prosa).

CH: Como foi o processo de elaboração do universo presente nos quatro livros da tetralogia angélica?

ES: Começou justamente através do RPG. Na época nós (eu e meu grupo) jogávamos no Mundo das Trevas, uma ambientação de RPG que incluía vampiros, lobisomens, fantasmas e magos. Depois que assistimos ao filme “Anjos Rebeldes” (1995), ficamos com vontade de jogar com anjos e demônios, mas não existia regras para tal, então nós a criamos. Inventamos muitos personagens e situações. Eu peguei esses fragmentos e os costurei no meu primeiro livro publicado: “A Batalha do Apocalipse”. Portanto, vale lembrar, esse universo nasceu de uma criação coletiva.

CH: Conte-nos como foi a trajetória para publicar seu primeiro livro.

ES: Terminei de escrever “A Batalha do Apocalipse” em março de 2005 e decidi enviar o original para as editoras. Para causar uma boa impressão, rodei 30 exemplares em formato de livro mesmo (com capa e miolo) em uma gráfica que imprimia pequenas tiragens: a Fábrica de Livros do Senai, no Rio. Na época, a Fábrica estava com um concurso: era preciso deixar três exemplares para avaliação e o vencedor ganharia 100 livros produzidos por eles. Eu tinha pouco dinheiro e não poderia dispensar três livros dos 30 que tinha pagado, mas mesmo assim resolvi arriscar e acabei premiado. Esses primeiros 100 livros (adquiridos a custo zero) foram comercializados em 2007 pela NerdStore, a recém-inaugurada loja virtual do site Jovem Nerd. As cópias venderam todas muito rapidamente, e usamos o dinheiro para produzir mais 500 livros, que também foram vendidos em menos de 2 meses.

A jornada não acabou por aí. Tendo vendido, em setembro de 2007, 600 cópias pela internet, eu achava que tinha um grande case (risos), e tentei vender a ideia para as editoras, mas nenhuma se interessou, nem as pequenas. Foi só em 2009, quando fizemos uma segunda tiragem de “A Batalha do Apocalipse” pela NerdStore (agora produzindo 4.000 cópias), que a repercussão nas redes sociais chamou a atenção da editora Verus, que recentemente fora comprada pelo Grupo Editorial Record. Tive uma reunião com a Raissa Castro, que até hoje é minha editora, e assinamos o contrato. Em 2010, enfim, “A Batalha do Apocalipse” foi lançada pelo Grupo Editorial Record e distribuída nas livrarias de todo o Brasil.

CH: Vem aí o RPG de “Filhos do Éden”, uma expansão do universo angélico tão conhecido. E depois, há planos de desbravar novos mundos? Que tipo de história (em quais mídias?) você se sente instigado a contar para o seu público?

ES: Por enquanto os únicos planos são do livro do universo expandido mesmo, que na verdade são dois em um: livro ilustrado e manual de RPG. Estamos muito animados com a possibilidade de os leitores poderem interagir com a história dos romances. E o RPG é o recurso perfeito para isso.

CH: Você costuma dizer que nossa tecnologia, infelizmente, ainda não permite que um livro (em papel) venha acompanhado por uma trilha sonora própria. Em “Herdeiros de Atlântida”, sua opção foi “Can’t Take My Eyes Off You” por ser uma música, além de belíssima, mundialmente conhecida. Mas se você pudesse montar uma playlist para suas obras, quais gêneros indicaria?

ES: Cada livro teria um gênero, na minha opinião. “A Batalha do Apocalipse” e “Filhos do Éden: Paraíso Perdido” são mais épicos. Gostava de escutar as trilhas sonoras de “Senhor dos Anéis” e “Gladiador” para me inspirar. Já “Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida” e “Filhos do Éden: Anjos da Morte” nos remete a músicas mais pop.

Eu particularmente gosto de bandas antigas e simplesmente adorei montar a playlist de AdM.

CH: Com o aumento do número de leitores – mesmo que aquém do desejado – o numero de novos escritores, principalmente de fantasia, é visível. Autores como André Vianco, Fábio M. Barreto (CONTE) estão ministrando cursos de Escrita Criativa.  Você já foi professor – Faculdade Hélio Alonso, RJ – e aluno em cursos de formação. Conte-nos o que aprendeu em cada uma delas? Como avalia o cenário atual e futuro para quem ambiciona seguir a carreira de escritor? Há espaço para novos autores?

ES: Claro, sempre há espaço para novos autores que tenham um material bacana para mostrar. Com certeza! Em relação aos cursos, o mais importante é conhecer pessoas que estão na mesma sintonia que você. A sala de aula deve ser um ambiente criativo e de troca de ideias. Sobre as técnicas que a gente aprende, são importantes. Você não precisa usar uma técnica ou uma fórmula especial para escrever um livro (na verdade, é melhor que não o faça), mas conhecê-las é algo que abre seus horizontes.

CH: Você já mencionou em entrevistas que acha importante escrever sobre lugares em que já esteve, muito por causa da atmosfera que é possível captar.  Transportando para a publicação, como analisa a vontade de novos escritores de produzirem em inglês, até mesmo antes do português?

ES: Pessoalmente, eu nunca fiz isso, mas não vejo problema. O mundo está cada vez mais globalizado. E todos leem inglês. Claro que ter o material em inglês amplia muito o seu rol de leitores.

CH: O escritor Charles Kiefer, em seu livro “Para ser escritor”, faz uma distinção entre escritor e autor. O primeiro é solitário, ensimesmado no ato de escrever. O segundo é público, empenhado na missão de se fazer conhecer. Você concorda? Se, sim, como faz para gerenciar os dois?

ES:  Eu me organizo por etapas (risos). Quando estou escrevendo um livro, fico assim mesmo, introspectivo, dentro da caverna. Quando termino, saio para viajar, a lazer ou trabalho. Para mim, é importante dosar esses dois aspectos.

CH: Você é conhecido por ser um autor que recebe críticas e elogios com muita naturalidade. Contudo, recentemente, houve uma matéria na Folha de São Paulo cujo teor beirou a crítica destrutiva. Como lidar com algo assim vindo de um veículo tão grande?

ES: Para ser bem sincero, confesso que não sei que crítica é essa, mas acho válido cada um ter a sua opinião. Fico feliz em estarmos em um país onde (apesar de todos os problemas) temos liberdade de expressão. E além disso, as críticas negativas não raro são uma propaganda melhor do que as críticas positivas. A pessoa escuta o crítico falando mal e fica morrendo de curiosidade para ler o livro. Então o escritor não deve se abalar com isso, nem achar ruim. É excelente, na verdade.

CH: O Conte Histórias é formado por diversos escritores, alguns publicados, que iniciaram suas carreiras preocupados com a formação de um público leitor. Apesar de não existir uma regra, qual o conselho que pode deixar aos nossos escritores?

ES: O melhor conselho possível (e que todos podem concordar) é, por incrível que pareça, o mais genérico: escreva. Simplesmente escreva. Só a prática nos ajuda a melhorar.

Rodrigo Chama

Nasceu em Cuiabá-MT no ano em que Elvis Presley e Charles Chaplin morreram. Tem orgulho ser conterrâneo de Manoel de Barros. Fez 12 anos no dia em que o muro de Berlim foi derrubado. Já foi biólogo, professor, bancário e gastrônomo. Quase se afogou duas vezes, talvez por isso tenha medo de tubarão. Joga boardgame, vai ao cinema sozinho, adora longas conversas e nunca percebe quando alguém está afim dele. Escreve sobre o que gosta e gosta de muitas coisas.

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