Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Por: Rodrigo Chama

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia.

***

“Não há perigo. Não há perigo”. Ela repetia essa frase sem parar. A garota não se permitia amedrontar pelas batidas frenéticas de seu coração. Era uma questão de honra, um último ato de adolescência. No convés da Escuna, as últimas instruções do guia eram entrecortadas com a gritaria dos amigos. A boca seca, o vento nos cabelos e o sol a pino tornavam o cenário familiar. Enquanto tomava coragem para saltar, os meninos e meninas passavam ao seu lado aos berros de “Gerônimo”, “Homens ao mar”, “Manhê”. Então, pulou e fechou os olhos. E afundou dentro de si.

***

O painel eletrônico emitiu um som agudo e mostrou o número 3. Luiza andou até o caixa equilibrando os produtos entre os seus braços – não gostava de empurrar carrinhos de supermercado. Enquanto depositava as compras na esteira, começou a imaginar a noite com Sara. Era o primeiro aniversário que passariam juntas, como namoradas. Não se importava com formalidades, mas, sim, que fosse marcante.

— A senhorita é cliente Mais?

— Oi?! Ah, não.

— Nota fiscal paulista?

— Não, obrigada.

Escondido entre os vinhos, queijos e tremoços estava um pacote de bolinho de chuva da marca Dona Benta. Era impossível desassociar a chuva que caía lá fora e a infância na casa dos avós. Sua primeira lembrança como “cozinheira” remetia às férias em Sorriso, interior de MT. A menina que dançava e ajudava o avô com a comida, agora gargalhava dentro dela – a memória tem forma redonda, açucarada e com canela.

Com a chuva aumentando e raios serpenteando o céu, achou melhor aguardar em frente ao mercado. Claro que não estava só, pois as pessoas compartilhavam do mesmo medo. Aliás, era curioso observar a interação entre desconhecidos que encontravam algo em comum. Logo se lembrou de sua brincadeira favorita nos tempos de colégio: mãe da rua. Uma pessoa ficava no meio da quadra – a mãe da rua – vigiando os amigos que estavam nas extremidades. O objetivo era impedir que trocassem de lado, sendo a travessia feita num pé só.

Luiza olhava para as pessoas saindo dos escritórios, da escola, dos carros e se deparando com a chuva vigiando a rua. Que delícia de experiência. Era quase uma vingança. Ela reparou também que, mesmo tentando se proteger das gotas intimidantes, que enrolavam os cabelos, as pessoas se divertiam. Tomar a decisão de correr na chuva era uma mistura de risco e prazer. Uma permissão para ser livre.

Uma mensagem chegou ao celular. Sara estava em casa. Respondeu que o clima a fazia de refém e garantiu que tinha testemunhas, mas que não devia demorar. As fotos das roupas jogadas pelo chão do quarto em direção ao banheiro foram suficientes para convencê-la a se molhar.

***

As luzes se apagaram e os trailers começaram a passar. Era uma segunda-feira, sessão matutina.  Checava o celular e via o número de chamadas perdidas aumentarem. Ela não queria falar. Apenas chorar.

“Paris, eu te amo” era a síntese de como se sentia – um mosaico de relações aleatórias que teimava em buscar sentido: “encontrar na origem do mundo e na sua representação o paralelo que nos identifica como criador e criatura”. Falava sobre uma cidade, as pessoas que moravam nela e os tipos de amor que despertava. 21 histórias representando cada Arrondissement, com atores e diretores diferentes. E, ao contrário dos gregos, podia jurar que a catarse era reversa. Os personagens podiam sentir a sua dor e angústia por estar sozinha. Após o curta do 14° arrondissement, foi tomada por um pensamento: “eu sou Paris. Sim, eu sou Paris. Sou a constante desse mosaico, desse filme, dessa vida. Pelo menos da minha”.

E atendeu a mãe. Já não havia mais lágrimas. Era hora de enterrar o pai.

***

Com a cabeça encostada no vidro, ela observava a cidade passar de maneira frenética. Consultou o mapa dentro do vagão e contou mais quatro paradas. Começou a cantarolar Riders on the Storm e fechou os olhos.

Desceu na estação Père Lachaise e seguiu em direção ao famoso cemitério. Não visitava um desde a morte do pai. Mas, por mais estranho que pudesse parecer, comemorar o seu aniversário de 27 anos, ali, era a coisa certa a fazer. Nada de guias. Sem perguntas sobre os túmulos dos famosos. Parecia certo tratar a todos de maneira igualitária.

Depois de 30 minutos lendo as lápides de ilustres desconhecidos, avistou um grupo de adolescentes com mapas nas mãos e uma empolgação contagiante. Sim, alguém famoso estava por perto. Não era trapaça, tentou se convencer. Era só sua intuição. Guardou distância e seguiu a pequena trupe. Logo estacaram em frente a uma pequena lápide e, com certa reverência, fizeram um minuto de silêncio. Uma garota se aproximou e depositou uma flor. Saíram abraçados e pensativos. A experiência só é sentida quando há transformação.

Esperou uns minutos antes de se aproximar.  Queria ter certeza de que estava sozinha. Aquele momento precisava ser único. Inteiro. Então, reconheceu o busto e a inscrição logo abaixo: James Douglas Morrison. Uma mistura de sensações a tomou de supetão. Ouviu a voz do pai contando sobre Aldous Huxley e As Portas da Percepção, livro que inspirou o nome da banda. Sentiu a pele macia de Sara na primeira noite que passaram juntas ao som de Love Street. Riu de todas as vezes em que a mãe cobriu os ouvidos nos intermináveis solos de teclado de Light my Fire.

Outro grupo se aproximava na medida em que ela se afastou da lápide. Escurecia e a chuva ameaçava aparecer. Cantarolando por entre os túmulos, a criança, a garota e a mulher dividiam o mesmo corpo. E o mesmo espaço.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Rodrigo Chama. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

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