Crônica | Pra ser sincero

Foi numa festa, à meia-luz, que eu a vi pela primeira vez em muito tempo.  

Nossos caminhos não se cruzavam há tempos. Ela com o mesmo sorriso bobo, eu com alguns fios brancos de cabelo a mais.  

Nossa história passa por minha cabeça como um filme sem palavras. Imagens familiares que voltam a ter sentido.  

Sorrisos na praia, brigas na noite. Beijos no cinema, lágrimas na chuva. Trilhas de mãos dadas, gritos ao amanhecer. Paixões na cama, decepções em  manhãs de domingo.

Ela me vê. Caminha em minha direção.  

—  Oi, tudo bem — ela me diz.  

— Tudo, e com você? 

— Tudo — ela responde.  

Respostas protocoladas, conversas que não fluem mais com a harmonia de antes.  

— Ahn, eu preciso voltar ali com o pessoal — ela explica.  

— Tudo bem. Prazer em vê-la! Até mais! 

— Até! 

Ela volta para onde estava, me deixando com o coração cheio de memórias.  

Pra ser sincero, não espero dela mais do que educação. Beijo sem paixão, crime sem castigo e aperto de mãos. Apenas bons amigos.   


*Adaptação da música Pra Ser Sincero, dos Engenheiros do Hawaii 

Crônica | O goleiro da Cidade de Deus

Eram oito da manhã quando cheguei à escola. Embora fosse cedo, Zezé já estava ali há algumas horas. Ele me esperava na quadra de futebol com as mãos sujas de tinta e os olhos cansados, mas orgulhosos. A quadra, que até a noite anterior estivera desbotada, brilhava agora em cores novas e com os passos ansiosos das crianças que corriam de um lado a outro, testando cada pedacinho do piso novo. Grades haviam sido instaladas nas laterais, os vestiários haviam sido reformados, os gols tinham redes e a felicidade estava estampada no rosto de todos ali presentes, principalmente no de Zezé.

Com mais de 60 anos, Zezé hoje é treinador de futebol e se dedica completamente ao CEACC – Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania, projeto realizado na Cidade de Deus com crianças e jovens da comunidade. Através da parceria com a organização ActionAid e com o CONI – Comitê Olímpico Italiano, o CEACC conseguiu reformar a quadra da escola Alphonsus Guimarães e abrir um novo mundo de possibilidades para várias crianças e suas famílias. Continuar lendo “Crônica | O goleiro da Cidade de Deus”

Crônica | A várzea

Quando chegamos, só havia mato. Literalmente. O trajeto para o campo era feito através de uma trilha que serpenteava entre os arbustos. Ao final dela, encontrávamos o famoso Campinho da Bananeira. Nunca descobrimos porque ele tinha recebido esse nome, afinal, não se avistava nenhuma bananeira por perto. É provável que ela já tivesse dado seus cachos e sido arrancada por algum desalmado.

O gramado era uma obra de arte. Como não havia dinheiro para um sistema de drenagem, a própria natureza se encarregou de resolver o problema com um declive de, pelo menos, 15 graus. Assim, a chuva logo escoava estrada abaixo, deixando a grama sequinha de novo. Grama esta que não nascia no habitat dos goleiros, como orienta os melhores manuais varzeanos. E, como simetria é coisa de quem sofre de TOC, as linhas de fundo não tinham, necessariamente, o mesmo comprimento. Continuar lendo “Crônica | A várzea”

Crônica | Imãs

A cidade dorme. A madrugada embala os sonhos – bons ou ruins – sem distinguir sexo, classe ou cor. Da janela do meu quarto, observo um céu sem estrelas e uma lua alaranjada, cheia de mistério. É claro que, vez ou outra, uma buzina solitária, uma briga de gatos ou a cantoria de um bêbado entusiasmado podem quebrar esta ilusão. Não importa, “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

Ao meu lado, deitada, melhor, desmaiada de cansaço está ela, Verusca, a trepadeira. Calma lá, não tire conclusões precipitadas. Eu a chamo desta forma devido à maneira como ela gosta de dormir. Sua cabeça está sobre o meu braço, as pernas trançadas imobilizando as minhas e as mãos entrelaçadas envolvendo minha barriga. Visualizaram? Quando brigamos, eu a chamo de Kuato (o líder da rebelião em “O vingador do futuro”). Ah, minha pequena leonina. Continuar lendo “Crônica | Imãs”

Crônica | Encontros na madrugada

São três da manhã. Uma pata gordinha bate em meu rosto e um choro baixinho pede atenção. Cheia de sono, abro os olhos e vejo que Chanel me vigia de perto. Ou imagino que ela está me vigiando. Ela é uma pug velhinha de nove anos e, como é característico da raça, levemente vesga.

Um de seus olhos está fixo em mim, mas o outro olha sem muita atenção o meu namorado, que dorme sem preocupações ao meu lado. Obviamente, não fora ele o escolhido para levar a nossa pequena senhora ao banheiro nesta noite. Continuar lendo “Crônica | Encontros na madrugada”

Crônica | Flores na beira do abismo

Acordo. Olho o celular, a madrugada ainda está correndo. Apesar do frio lá fora, estou com calor. O susto foi resultado de mais um pesadelo e logo, vejo que irei demorar para conseguir voltar a dormir.

A madrugada sempre é um horário em que eu passo a pensar demais sobre minha vida, minhas escolhas, meus fantasmas. É viver a vida e sentir a dor. Hoje, depois de muita luta interna, já não tento mais domar tanto a dor. Ela é parte de mim. Ela é necessária. Ela é merecida. Continuar lendo “Crônica | Flores na beira do abismo”

Crônica | Cá entre nós

— Posso ir andando com a senhora?

— Eu estou com Deus, obrigada moço.

— Ai que ótimo! 3 é melhor ainda! Essa cidade anda tão perigosa a noite.

— É melhor eu apertar o passo…

— Eu estava mesmo rezando pra encontrar alguém pra não precisar ir sozinha. Esse caminho entre o metrô e o meu trabalho é super perigoso. Continuar lendo “Crônica | Cá entre nós”