Artigo | O leitor, o escritor e o texto

Por: Rodrigo Chama

O que é metalinguagem? Se você ficou em dúvida ou não sabe, resista à vontade de abrir outra janela e consultar o Google. A verdade da metalinguagem não está lá fora. Esta é sua principal característica: A linguagem apontando para si mesma. Literatura, Música, Pintura, Cinema. Todas as formas de arte usam e abusam da autoreferenciação, tornando o código mais complexo.  O título deste artigo é uma singela homenagem a um clássico do western europeu “O bom, o mau e o feio”, de Sérgio Leone. Verá que os papéis de recepção e emissão são constantemente alterados para a construção do leitor, do escritor e do texto.

A língua é o código da literatura: gasta, maltratada, ignorada por grande parte da população. Qual delas, você me pergunta? As duas! Se a experiência da leitura nos transporta, muitas vezes, para mundos exóticos e fantásticos, o exercício da escrita nos demanda a purificação da palavra. Não confundam com rebuscamento. Refiro-me ao que Roland Barthes chamou de “signo de pé”, ou seja, a palavra vertical, que por não ter ligações pré-concebidas, possui todas as ligações.

Quais fatores operam na formação do leitor? Quais formatos – HQs, mangás, romances, contos, poemas – e conteúdos – solidão, amor, morte, amizade – compõem o seu arcabouço sonoro, imagético e sensorial? A quem o escritor se reporta? Quais as intenções escondidas em seus textos? E como o texto transita entre passado e presente apontando o futuro? Com vocês, o mestre Machado de Assis em “Memórias póstumas de Brás Cubas”:

Capítulo II
O emplasto

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéa no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Antes de prosseguirmos esta conversa, saiba que o seu professor de literatura tinha razão: Entre “Café com pão, café com pão” e “Tinha uma pedra no meio do caminho” o primeiro e maior ensinamento pode ter passado despercebido: sempre desconfie.

Para contextualizá-los, trata-se de um defunto-autor narrando suas peripécias durante a vida. Narrador – personagem – inventor (escritor).  O primeiro movimento é interno, pois o texto nos conduz para dentro da cabeça do narrador/personagem. Mas não é o cérebro que encontramos lá, é um trapézio (palco/formato). Uma ideia (história/palavra) se pendurou e realiza uma trajetória pendular. O processo de criação acontece e o autor experimenta, brinca com a ideia que ganha vida e se transforma em palavra, em Esfinge. Agora, o segundo movimento é externo, pois é direcionado ao leitor, que é desafiado pelo escritor a seguir pelo caminho da leitura apenas se conseguir decifrar o texto.

Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.

O escritor Charles Kiefer, em seu livro “Para ser escritor”, faz uma distinção entre escritor e autor. O primeiro é solitário, ensimesmado no ato de escrever. O segundo é público, empenhado na missão de se fazer conhecer. Não é possível afirmar que a inspiração para tal afirmação partiu desse texto, mas elas conversam. O narrador ironicamente justifica suas motivações humanitárias ao criar o emplasto. Salvar a humanidade de sua melancolia não é o que todo escritor busca? Ver a sua obra ser usada como válvula de escape das intempéries da vida. Mas eis que o autor assume e confessa que a vaidade também está presente. A construção do imaginário só se realiza em parceria.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a cousa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto

Nesta análise superficial do capítulo, altamente tendenciosa, observamos como o texto pode se autorreferenciar e, ao mesmo tempo, construir significados para além de si. Somos lançados de um lado para o outro nesse trapézio textual, onde o leitor (quebra da quarta parede não é novidade do cinema) é questionado através de uma estrutura narrativa complexa.

A imagem desse pêndulo criativo é importantíssima para entender a tríade que compõem o título deste texto. O leitor ao se deparar com uma obra deve buscar na sua estrutura intenções, armadilhas e sentidos. Para então olhar para fora e comparar com tudo que já leu.  Processo semelhante ao do escritor, que além de leitor, busca suas referências em obras passadas – seja para concordar ou discordar. Por fim, a obra em si. Instrumento de salto quântico, capaz de conversar com passado, presente e futuro. Não se engane, quando escreve um livro cujo gênero gosta e homenageia, também conversa com as obras vindouras. Dúvida? Com a palavra, Álvaro de Campos em “Saudação a Walt Whitman”:

“Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,

Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,

Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…

Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,

Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,

E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,

Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.

Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,

Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,

Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,

E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,

De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma”.

 

Referências bibliográficas:

Verdade e Metodo, VI – Hans-Georg Gadamer;

O Grau Zero da Escrita – Roland Barthes;

Para ser Escritor – Charles Kiefer;

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis;

Saudação a Walt Whitman – Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Rodrigo Chama. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

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