Artigo | Jornada Literária – Storytelling7 min de leitura

Nesta série exclusiva do Conte Histórias, vamos percorrer todos os caminhos que compõem a criação literária, da ideia à edição, passando pela criação de universos e personagens. Um espaço ideal para quem deseja conhecer as técnicas de contar histórias ou mesmo descobrir a matéria-prima que compõe a ficção.

Storytelling

Minha curiosidade sobre storytelling – ou sobre a melhor maneira de se contar uma história – começou ainda na infância. Consumia HQs e desenhos animados em quantidade industrial e tentava repetir o que via enchendo cadernos e mais cadernos com essas histórias, bem antes do termo fanfic se popularizar. Quando a adolescência chegou, me interessei por entrevistas de mestres como Stan Lee e Frank Miller na esperança de entender o funcionamento de suas mentes brilhantes. Anos depois, os quadrinhos passaram a dividir espaço com a literatura, mas a paixão pelo processo criativo continuou.

Nessa jornada pelos caminhos da criação, a primeira coisa que se tornou clara para mim é que os grandes contadores de histórias, em qualquer mídia, conhecem as ferramentas do ofício. Contudo, quando se fala de literatura, percebo que muitos acreditam que escrever não é algo que possa ser ensinado, como se fosse possível adquirir o conhecimento necessário por mágica. É provável que as mesmas pessoas não lançariam mão de tal raciocínio para se referir ao processo de aprendizagem de um músico ou de um advogado. Então por que seria diferente com um escritor?

De Shakespeare a George R. R. Martin, passando por Hemingway, o que mais vemos são técnicas literárias. Trata-se do uso de construções linguísticas que fazem parte dos padrões de experiência do público, algo que é parte de nossa própria educação. Deste modo, quanto maior o domínio dessa ferramenta, maiores serão as chances de alcançar o público.

Tela de máquina de escrever com a mensagem "What Is Your Story"

Partindo desse princípio, qual seria o núcleo de uma história? Desde a Grécia Antiga, Aristóteles ensinou que uma história é composta por início, meio e fim, no que também podemos chamar de estrutura dos três atos: início – uma situação tranquila até que algo a perturba; meio – necessidade de retornar à situação anterior e/ou de remover o objeto de perturbação; e fim – perturbação neutralizada, talvez voltando à situação inicial.

Obviamente, os séculos seguintes subverteram a lógica aristotélica. É cada vez mais comum nos depararmos com histórias que partem de um acontecimento retirado do meio da narrativa, contadas de trás para frente ou mesmo fragmentadas. O exemplo mais famoso desse “embaralhamento” talvez seja o clássico Pulp Fiction, filme magistralmente dirigido por Quentin Tarantino.

Agora, espere. Releia o parágrafo acima. Reparou numa coisa? Estamos falando de histórias que subvertem a lógica do início, meio e fim. Porém, nós mesmos as recolocamos dentro do padrão reconhecível na primeira oportunidade. E isso acontece porque nossos cérebros estão condicionados a isso. Não adianta tentar trapacear. Em algum momento recolocaremos as histórias em ordem.

Mas nossa conversa vai começar a esquentar quando eu disser que todas as histórias já foram contadas. Isso mesmo. A trama básica de cada história que vemos nas páginas de um romance, nas telas de cinema ou nas séries televisivas já foi mostrada milhares de vezes. Não com a mesma roupagem, obviamente, mas com o mesmo enredo. Quer um exemplo? Em Odisseia, de Homero, vemos o líder militar Ulisses precisando acabar com a guerra e então voltar para a mulher e o filho. E não é essa a trama de Tropa de Elite?

Não, não estou falando de plágio. Embora a estrutura básica se mantenha, é importante sabermos quando e onde o protagonista foi localizado na sociedade, seu objetivo e seus obstáculos. O que importa não é se a história já foi contada, mas como o autor combinou os elementos da narrativa para tornar o enredo marcante. A isso damos o nome de originalidade.

O primeiro elemento de uma narrativa é a história a ser contada ou storyline. E logo adianto que é muito arriscado não saber qual é essa história antes de começar a escrever. Sem isso, projetos inteiros, trabalhos que consomem meses de investimento, se perdem em questões que poderiam ser resolvidas com boas doses de instruções.

Inicialmente, é preciso delimitar o tema. A storyline se estabelece com um protagonista, o objetivo do protagonista e os obstáculos entre ele e o que deseja alcançar. Esse é ponto de partida da história e de onde todo o restante se desenvolve. A Pixar define a estrutura da seguinte forma: era uma vez ____. Todos os dias, ____. Um dia, ____. Por causa disso, ____. E, por causa disso, ____. Até que finalmente, ____. Não por acaso, todas as histórias do aclamado estúdio se encaixam nesse modelo.

Outra fórmula bastante conhecida de se contar histórias é a Jornada do Herói ou monomito. Mais precisamente, um conjunto de conceitos reunidos pelo antropólogo Joseph Campbell na obra O Herói de Mil Faces a partir de estudos de nomes como Carl Jung, Sigmund Freud e Arnold van Gennep. Mais tarde, a jornada foi adaptada por Christopher Vogler no livro A Jornada do Escritor e se tornou uma espécie de manual para escritores e roteiristas. Para termos uma ideia de sua importância, basta lembrar que os filmes da Walt Disney Pictures seguem essa fórmula até hoje.

Com o tempo, a Jornada do Herói se tornou um guia prático para diversas mídias, porém, da mesma forma que conquistou admiradores, também colecionou críticos do que entendem como uma espécie de engessamento da criatividade. Um dos maiores escritores da atualidade, Stephen King não se mostra muito afeito a estruturas pré-fabricadas. Autores como ele são chamados de “jardineiros”, alguém que planta uma ideia para colher os frutos depois.

Em Sobre a Escrita, obra que mistura autobiografia com ensinamentos de escrita, King aborda a questão do surgimento e do tratamento de uma ideia com uma analogia bastante eficiente. Para ele, encontrar uma boa ideia equivale a descobrir um fóssil. O autor se depara com um pequeno osso, que é a ideia, e começa a escavar até retirar todo o fóssil da terra, que equivale à história. Outro dos muitos conselhos que o livro nos oferece é ler muito e escrever muito. Parece óbvio, mas o escritor não pode fugir dessas duas tarefas. O escritor é, antes de tudo, um leitor.

Como diz o mestre do terror, não há atalho para se tornar um escritor que não passe por ler muito. Mas não leia apenas seu gênero preferido. Experimente outras coisas também. Esse é um hábito que só nos enriquece. Agora, quando for escrever, separe as histórias que você gosta. O que você gosta nelas é uma parte sua e você precisa reconhecer esses fatores antes de usá-los. Por que você precisa contar determinada história? Qual é a crença que você tem nela? Por que acredita que ela é importante? A resposta é o coração da história que você vai contar.

Referências bibliográficas:

KING, Stephen. Sobre a Escrita: a arte em memórias. Trad. Michel Teixeira. Rio de Janeiro: Editora Objetiva LTDA, 2015

KOCH, Stephen. Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção. Trad. Marcelo Dias Almada. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.

VOGLER, Cristopher. A Jornada do Escritor: estrutura mítica para escritores. Trad. Petê Rissatti. São Paulo: Editora Aleph, 2015.  

RODRIGUES, Sonia. Como Escrever Séries: roteiro a partir dos maiores sucessos da TV. São Paulo: Editora Aleph, 2014.

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M.C. Magnus

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
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