Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?4 min de leitura

Apesar de recorrente em qualquer debate sobre literatura, a máxima de que o brasileiro lê pouco não é inteiramente verdadeira. Com a internet e as redes sociais, o que mais vemos são pessoas consumindo informação escrita. Seja através de mensagens curtas, passando pelos “textões” de Facebook até chegarmos ao conteúdo jornalístico impresso e digital, vemos muitos leitores em ação.

Todavia, no que diz respeito a livros, o Brasil realmente sofre com um número de leitores abaixo do desejável para um país que busca se desenvolver. Segundo ranking elaborado pela agência Nop World, ocupamos a 27ª posição entre trinta países quando o assunto são horas semanais dedicadas à leitura. Paralelamente, figuramos no Top 10 no que diz respeito à televisão, rádio e internet.

A boa notícia veio ano passado com a divulgação da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” encomendada pelo Instituto Pró-Livro, trazendo a informação de que o número de leitores no país havia crescido seis pontos percentuais desde 2011 e que o número de leitores chegara a 56% da população. Cabe ressaltar que foi considerado “leitor” o entrevistado que leu inteiro ou em partes pelo menos um livro nos três meses anteriores ao questionário. Como se percebe, trata-se de um conceito bem amplo, uma vez que ler trechos da Bíblia está incluso no espectro de leitores.

De certo, existe um longo caminho a ser percorrido antes de nos definirmos como um país de leitores. Recomenda-se que o cultivo do hábito de ler comece em casa e não somente na escola. Cabe aos responsáveis apresentar aos filhos livros que não sejam apenas didáticos, uma vez que a leitura se torna muito mais acessível quando é prazerosa. Mas como cobrar algo assim se, muitas vezes, os próprios pais não possuem esse hábito?

Tentando responder a essa questão, nos deparamos com um grande dilema presente em nossas salas de aula: a quase ausência da literatura de entretenimento contemporânea no ambiente escolar, sem espaço diante dos clássicos de nossa literatura. Gabriela Rodella, doutora em Educação pela USP e autora da tese “As práticas de leitura de adolescentes e a escola: tensões e influências”, defende em artigo para a revista Galileu que é preciso trazer a literatura de entretenimento para a sala de aula, trabalhar com o relato dessas leituras, debater a estrutura narrativa, discutir seu apelo e sua recepção. A doutora diz ainda que tal leitura pode ser a porta de entrada para textos mais complexos como Machado de Assis e José de Alencar, vistos hoje como “chatos” por boa parte dos alunos.

É possível que a Doutora Gabriela tenha se aproximado da resposta à pergunta que dá título a este artigo. Parte de nossa população não lê ou lê poucos livros por não encontrar prazer na atividade. Isso se deve ao fato dessa fatia muitas vezes enxergar o livro como mera obrigação acadêmica, sem ceder ao apelo que encanta leitores no mundo todo.

Não foram poucos os países a adotarem livros de ficção fantástica como didáticos justamente pelo poder de atração. “O Senhor dos Anéis” é um caso bastante conhecido, mas “Harry Potter” talvez seja o melhor exemplo. Uma pesquisa realizada em 2006 comprovou que metade dos leitores entre cinco e dezessete anos começou a ler livros de entretenimento com a saga do jovem bruxo e 76% dos pais entrevistados acreditam que o desempenho escolar dos filhos cresceu após lerem a obra. Dados como esses são importantes para confrontarmos a resistência que tais livros enfrentam no meio acadêmico que em boa parte ignora sua importância na formação de novos leitores.

Num contexto em que tal estímulo não se inicia em casa, como ocorre com frequência no Brasil, cabe à escola fomentar o hábito recebendo também as obras de ficção contemporâneas de portas abertas. Neste caso, quebrar esse paradigma torna-se tarefa inerente ao ambiente escolar, uma vez que a boa prática educativa sempre andou de mãos dadas com a leitura.

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M.C. Magnus

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
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Comentários

comentários

2 comentários em “Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?

    1. Olá, Tiago. Muito bom saber que você curtiu o Conte Histórias. Estamos trabalhando para oferecer um conteúdo bacana para todos os apaixonados pela leitura. E eu também costumo ler no ônibus. 🙂
      Abraço e obrigado pela participação!

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