Resenha | Vidas Muito Boas

Antes de tudo, é preciso dizer que “Vidas Muito Boas” (Editora Rocco, 80 páginas com tradução de Rita Vynagre) não é um novo romance de J.K. Rowling. Trata-se, na verdade, da transcrição do discurso da autora como paraninfa na Universidade de Harvard em 2008. Inclusive, o texto foi escrito em primeira pessoa, voz narrativa que Rowling não costuma usar em seus livros. Porém, não se deixe enganar, pois se trata de uma obra tão inspiradora quanto qualquer aventura contada pela criadora de Harry Potter.

Diferente da maioria dos discursos sonolentos que ouvimos em cerimônias, a autora optou por falar sobre si mesma, seus fracassos e o poder da imaginação. Quem conhece um pouco da trajetória de Rowling, sabe que a escritora enfrentou diversas dificuldades e privações antes de encontrar o sucesso na carreira literária. No entanto, poucos suspeitavam até então que a britânica encontrou forças justamente quando se viu no fundo do poço.

Capa do livro Vidas Muito Boas em um fundo vermelho

Contrariando a vontade dos pais, que consideravam a carreira de escritora algo divertido, mas que não pagava as contas, Rowling seguiu o único caminho possível para si e abraçou a vocação literária. Cursando línguas modernas, a autora se manteve perto dos clássicos, dividindo seu tempo entre as aulas, a biblioteca e o refeitório onde passava horas escrevendo histórias.

Porém, os primeiros anos após a formatura foram bem difíceis. Sete anos depois de deixar a faculdade, o divórcio e o desemprego bateram à porta. Sem dinheiro e com uma filha para criar, Rowling era, em suas próprias palavras, o maior fracasso que conhecia.

Embora afirme que pobreza e fracasso não são nada divertidos, Rowling sempre temeu mais o segundo. Mas mesmo o fracasso carregava em si uma vantagem: poder despojar-se do que não era essencial. Somente assim, a escritora pôde direcionar sua vida para a conclusão do único trabalho que lhe importava. Não é preciso muitas alternativas para descobrir qual.

Tempos depois, sua vida começou a mudar quando surgiu a oportunidade de atuar na sede da Anistia Internacional em Londres. Nesta etapa, J.K. conheceu diversas pessoas que fugiram de regimes opressores na África, sendo que algumas delas se tornaram seus próprios colegas de trabalho. Na Anistia Internacional, a autora aprendeu muito sobre bondade e empatia, naquela que define como a experiência mais inspiradora de sua vida. Não por acaso, empatia é uma marca frequente em suas obras.

Diante dessa e de outras experiências narradas no discurso, J.K. Rowling nos leva a acreditar que não precisamos de magia para imaginar um mundo melhor, pois já temos dentro de nós o poder de que precisamos: o poder de imaginar melhor.

Top 10 – Adaptações de livros em 2018

Opção é o que não deve faltar. 2018 promete trazer uma série de adaptações literárias para o cinema e até para mídias relativamente novas como a Netflix. Então, acomode-se e confira as principais emoções que o Ano Novo nos reserva.

10º – “Aniquilação”

Vencedor do Prêmio Nebula de 2014, o livro de Jeff VanderMeer traz a história de um grupo de cientistas composto apenas por mulheres cuja missão é investigar a Área X, um local conhecido por suas mudanças ambientais, mas também pelo desaparecimento de diversos profissionais que se aventuraram por lá. Natalie Portman é a estrela do longa-metragem que será lançado no Brasil em 22 de fevereiro.

Continuar lendo “Top 10 – Adaptações de livros em 2018”

Resenha | Tartarugas Até Lá Embaixo

Após um hiato de seis anos do lançamento de “A Culpa É Das Estrelas”, John Green está de volta. Em “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Editora Intrínseca, 256 páginas, com tradução de Ana Rodrigues), o autor estadunidense conta a história de Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que luta contra uma doença mental enquanto investiga o misterioso desaparecimento de um bilionário, cujo paradeiro pode render uma vultosa recompensa.

Continuar lendo “Resenha | Tartarugas Até Lá Embaixo”

Entrevista | Eric Novello

Nascido no Rio de Janeiro e residente em São Paulo desde 2007, Eric Novello figura entre os escritores brasileiros mais promissores da atualidade. Após a experiência bem-sucedida na ficção fantástica com as obras “A Sombra do Sol”, “Neon Azul” e “Exorcismo, Amores e Uma Dose de Blues”, universo sugestivamente batizado de “magoverso”, Eric decidiu aderir a uma pegada mais realista em seu livro mais recente “Ninguém Nasce Herói” (Companhia das Letras, 2017). Antenado com o momento atual do Brasil, o autor desenvolveu uma ficção distópica com elementos presentes em nosso cotidiano somados a uma visão pessimista, mas assustadoramente plausível do nosso futuro. Abaixo, em entrevista exclusiva, Novello nos conta um pouco mais sobre sua carreira e os motivos que o levaram a construir sua nova e incitante obra.

Continuar lendo “Entrevista | Eric Novello”

Resenha | A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

Embora o título da obra automaticamente remeta ao clássico “A Jornada do Escritor” de Christopher Vogler, não espere encontrar mais um manual de escrita criativa com estruturas prontas. E nem era essa a intenção de Kátia Regina Souza. Nas 173 páginas de “A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil”, a autora gaúcha busca desvendar o cenário da literatura fantástica brasileira desde o processo criativo, passando pelas angústias do ofício, até chegar à publicação.

A autora, autografando um livro.
Kátia Regina Souza

Continuar lendo “Resenha | A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil”

Resenha | Em Águas Sombrias

Segundo romance de Paula Hawkins, “Em Águas Sombrias” (Record, 2017) apresenta o drama vivido pelos habitantes da pequena Beckford, cidade situada no norte da Inglaterra conhecida pelos diversos afogamentos de mulheres ao longo dos séculos. Essa trágica sina começa a mudar quando Jules Abbot recebe em Londres a notícia de que Nel, sua irmã mais velha, também foi encontrada sem vida no local conhecido como “Poço dos Afogamentos”. Obrigada a retornar ao lugar que a traumatizou na adolescência, Jules se vê diante de um mistério que envolve não só a morte da irmã como seus próprios fantasmas do passado.

Continuar lendo “Resenha | Em Águas Sombrias”

Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?

Apesar de recorrente em qualquer debate sobre literatura, a máxima de que o brasileiro lê pouco não é inteiramente verdadeira. Com a internet e as redes sociais, o que mais vemos são pessoas consumindo informação escrita. Seja através de mensagens curtas, passando pelos “textões” de Facebook até chegarmos ao conteúdo jornalístico impresso e digital, vemos muitos leitores em ação.

Todavia, no que diz respeito a livros, o Brasil realmente sofre com um número de leitores abaixo do desejável para um país que busca se desenvolver. Segundo ranking elaborado pela agência Nop World, ocupamos a 27ª posição entre trinta países quando o assunto são horas semanais dedicadas à leitura. Paralelamente, figuramos no Top 10 no que diz respeito à televisão, rádio e internet.

Continuar lendo “Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?”

Artigo | Aquele 1% de inspiração

Quando um livro de ficção chega às mãos do leitor, uma pergunta costuma ser inerente à história: de onde surgiu essa ideia? Sem dúvida, uma obra de ficção evoca questões que fogem de simples regras gramaticais ou referências bibliográficas. Existe algo invisível, nascido da imaginação de alguém, e, quanto mais criativo e envolvente, mais cativante se torna aos olhos do público. No entanto, a maioria das pessoas não sabe que esse mesmo texto permeado de inspiração segue uma estrutura muito bem pensada e definida na qual pouca coisa nasce do mero improviso.

Continuar lendo “Artigo | Aquele 1% de inspiração”

Top 10 – Adaptações de livros em 2017

Alguns livros se tornam amados por um público tão grande que suas histórias extrapolam as páginas e invadem as telas do mundo inteiro, arregimentando mais e mais fãs para essas obras. Neste novo ano que inicia, o blog Conte Histórias reuniu as principais adaptações literárias para o cinema e o resultado você acompanha a seguir: Continuar lendo “Top 10 – Adaptações de livros em 2017”

Crônica | A várzea

Quando chegamos, só havia mato. Literalmente. O trajeto para o campo era feito através de uma trilha que serpenteava entre os arbustos. Ao final dela, encontrávamos o famoso Campinho da Bananeira. Nunca descobrimos porque ele tinha recebido esse nome, afinal, não se avistava nenhuma bananeira por perto. É provável que ela já tivesse dado seus cachos e sido arrancada por algum desalmado.

O gramado era uma obra de arte. Como não havia dinheiro para um sistema de drenagem, a própria natureza se encarregou de resolver o problema com um declive de, pelo menos, 15 graus. Assim, a chuva logo escoava estrada abaixo, deixando a grama sequinha de novo. Grama esta que não nascia no habitat dos goleiros, como orienta os melhores manuais varzeanos. E, como simetria é coisa de quem sofre de TOC, as linhas de fundo não tinham, necessariamente, o mesmo comprimento. Continuar lendo “Crônica | A várzea”