Crônica | Imãs

Por: Rodrigo Chama

A cidade dorme. A madrugada embala os sonhos – bons ou ruins – sem distinguir sexo, classe ou cor. Da janela do meu quarto, observo um céu sem estrelas e uma lua alaranjada, cheia de mistério. É claro que, vez ou outra, uma buzina solitária, uma briga de gatos ou a cantoria de um bêbado entusiasmado podem quebrar esta ilusão. Não importa, “As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio”.

Ao meu lado, deitada, melhor, desmaiada de cansaço está ela, Verusca, a trepadeira. Calma lá, não tire conclusões precipitadas. Eu a chamo desta forma devido à maneira como ela gosta de dormir. Sua cabeça está sobre o meu braço, as pernas trançadas imobilizando as minhas e as mãos entrelaçadas envolvendo minha barriga. Visualizaram? Quando brigamos, eu a chamo de Kuato (o líder da rebelião em “O vingador do futuro”). Ah, minha pequena leonina.

A nossa noite foi mágica. Sem brigas. Só carinhos, arranhões e mordidas. Tudo acompanhado de Beaujolais, Bruschetta e brigadeiro de colher. Fique tranqüilo que esta não é uma história erótica. Pelo menos não do ponto em que iniciei a narrativa.  Falamos pouco, como de costume, mas nos entendemos nos olhares e nos sorrisos; nos cheiros que carregam lembranças prazerosas e reconfortantes; na pele que transmite calor e proteção. Lindo, não?

Olho para o relógio sobre o criado mudo, ao lado da cama, e já passa das três. Agora meu corpo dói. O Braço está dormente e molhado. Sim, ela baba.  Minhas costas estão descobertas, pois ela simplesmente tomou posse do edredom. Mas o pior é o ronco. O rugido. O anuncio do fim do mundo que sai pelos seus lábios doces e macios. A primeira vez que dormimos juntos me fez lembrar o filme Little Nick, do Adam Sandler.  Há no filme um cachorrinho que vem do inferno – totalmente inofensivo – para proteger o personagem principal, mas que ao dormir ronca como se estivesse possuído por uma horda de demônios.

Já utilizei quase todas as minhas táticas para fazê-la parar de roncar. Rezei por dez minutos; assoprei em direção à sua boca, contrária à do ronco – inútil e frustrante; chamei baixinho pelo seu apelido carinhoso: “coração, acorda”; até que finalmente desisti e usei meu último recurso, um soco no braço. Seco, calculado, inspirado no soco de duas polegadas do mestre Bruce Lee.

— Ai, paixão! Por que você me bateu? Tava sonhando com você. E pro meu desespero ela se enroscou mais ainda em mim.

— Desculpe, coração. Foi sem querer. Também estava sonhando com você. Porém, de repente, estava sozinho no meu quarto, somente com o silêncio e o meu edredom. Foi horrível. Na tentativa de acordar acabei te machucando.

— Tadinho dele. Sentiu falta dos meus abraços, foi? Vem cá que te dou mais carinho.

— Claro que sim. Só me deixa ir até a cozinha tomar um copo d’água. Volto logo. E ao mesmo tempo em que beijava sua testa, me desvencilhava das suas garras, desculpe, braços.

Não foi uma caminhada tranquila, posso afirmar. Apenas quando cheguei na frente da geladeira é que comecei a sentir minhas pernas. Apoiei as mãos na porta e fiz um breve alongamento. Preciso aproveitar cada segundo deste descanso. Não me leve a mal, gosto dela. Mas gosto mais ainda da minha cama só pra mim. Estamos juntos há oito meses, e toda vez que ela vem pra dormir a história se repete. Olheiras, mau humor e um pouco menos de amor.

Na porta da geladeira estão pendurados dois ímãs: um Tubarão Branco e uma Salamandra. São presentes de nossa última viagem à Europa. Ela sempre me diz que devo enfrentar meus medos, que com o decorrer do tempo o real supera o irreal. Por via das dúvidas, nunca tiro os olhos daquele Tubarão quando abro a geladeira. O seguro morreu de velho.

Mas é da viagem a Barcelona, especificamente, ao Parc Guell, que tenho mais carinho. Na visita à casa em que Antonio Gaudí morou por quase vinte anos – transformada em museu – é que ganhei a miniatura de Salamandra – El drac – que encanta quem visita o parque.  É o símbolo da alquimia, da magia criada pelo grande arquiteto catalão.

Por isso, imagine a minha tristeza ao perceber que durante a viagem de volta, a pata esquerda da Salamandra se partiu e foi perdida. Fiz questão de colocá-la à mostra, pois é, para mim, uma perfeita metáfora da vida. Regeneração, mágica e realidade. Tudo misturado e potencializado pelo tempo. Mesmo que seja em uma Salamandra de pedra.

A pausa acabou. Ela me chama com aquele jeito manhoso e sexy que adoro. Percebo ao entrar no quarto que fui substituído por duas enormes almofadas. Minha pequetitinha é iluminada por escassos fachos de luz, deixando exposta parte das coxas e seios. Sua beleza crua me inebria, confunde meus sentidos. Apaga minha memória. As almofadas são arremessadas para longe e sei exatamente qual é o meu lugar.

Exausto, eu sonho. Percorro os jardins de um parque onírico. Em meio à multidão, um som conhecido me faz lembrar Verusca. Eu não a vejo, mas sei que está por perto. Vou até a entrada do parque. Sim, lá está a Salamandra. Inteira, majestosa com suas pedras de cerâmica e vidro. Apesar de não estarmos tão próximos ao mar, é um barulho de ressaca que ouço. Vai ficando mais alto, tão alto que já sinto gotas do mar cair sobre o meu braço. Então sinto suas mãos me abraçarem e sua cabeça encostar-se ao meu peito. Paixão. Coração.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Rodrigo Chama. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

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