Conto | Através da chuva

Para onde ir quando não se tem ninguém?

Lisa girou a maçaneta e correu para fora de casa com um único pensamento em mente: fugir. Não sabia aonde devia ir, apenas que precisava fugir. Deixou a porta aberta e pulou o último degrau da escadinha que conduzia ao jardim, caindo em uma poça de lama criada pela chuva e sujando as galochas vermelhas.

Olhou por apenas um segundo para as botas feitas de borracha e decidiu que estar impecavelmente limpa não era tão importante assim. Um pouco de lama lhe caía bem. Outro segundo e já estava com a sombrinha nos ombros, quase tão grande quanto seu corpo miúdo, a cor berrante combinando com as galochas.

Estava pronta. Ou, pelo menos, se sentia pronta.

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Crônica | Sussurros na Noite

Acordei no meio da noite com alguém em minha casa.

Eram apenas 2h da manhã quando ouvi um ruído estranho vindo da sala. Parecia um chiado, vozes murmurando algo incompreensível, bem ao lado da porta do quarto.

Congelei na hora.

As vozes cochichavam apressadas, como se estivessem tramando algo. Olhei para meu namorado, que dormia sem muitas preocupações ao lado, e tentei acordá-lo.

— Amor — sussurrei.

Ele roncou em resposta. Cheguei bem perto de seu ouvido e tentei de novo.

— Amor.

Ele virou de costas e roncou mais alto ainda. Não adiantava. Estava sozinha. E o que era pior: precisava ir ao banheiro.

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Conto | Tempestade Perfeita

Soltei a bolsa de couro no chão. Estava leve já que se tratava da bagagem de mão. Ela se apoiou nas outras malas maiores que estavam ao lado da porta de casa. Prontas para o grande dia.

Amanhã a mudança tão aguardada finalmente aconteceria. Foram meses de preparação, pesquisas, economias, viagens de reconhecimento, conversas com família e amigos e despedidas. Muitas despedidas. Em menos de 24 horas seria hora de entrar em um avião e deixar tudo para trás.

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Resenha | Tartarugas Até Lá Embaixo

Após um hiato de seis anos do lançamento de “A Culpa É Das Estrelas”, John Green está de volta. Em “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Editora Intrínseca, 256 páginas, com tradução de Ana Rodrigues), o autor estadunidense conta a história de Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que luta contra uma doença mental enquanto investiga o misterioso desaparecimento de um bilionário, cujo paradeiro pode render uma vultosa recompensa.

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Conto | Os Alunos

O diretor da escola estadual repetiu o ritual de toda sexta-feira e retirou as cartas dos alunos da caixa de sugestões/reclamações que havia ao lado de seu escritório. Parte do hábito era utilizar os minutos finais de seu almoço para lê-las, já que normalmente não haviam muitas. Ele se espantou ao destrancar a urna e ver que o volume de papel desta vez era o maior com o qual já se deparara.

Começou a ler as cartas de pronto para descobrir se o assunto delas era o mesmo. Não era estranho receber reclamações, mas estas costumavam acontecer pessoalmente, de pais preocupados ou de professores, durante as reuniões semanais.

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Crônica | Pra ser sincero

Foi numa festa, à meia-luz, que eu a vi pela primeira vez em muito tempo.  

Nossos caminhos não se cruzavam há tempos. Ela com o mesmo sorriso bobo, eu com alguns fios brancos de cabelo a mais.  

Nossa história passa por minha cabeça como um filme sem palavras. Imagens familiares que voltam a ter sentido.

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Conto | Estátuas

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

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Conto | Cada Gota do Seu Sangue

Larissa perdeu outro dente naquela manhã. Era quase surreal a forma como uma tarefa tão banal como escovar os dentes, assumia mais a cada dia que passava um aspecto de auto-tortura e flagelo.

O dente, o incisivo central superior que ainda vinha resistindo em sua boca e que assumira um aspecto amarelado ao longo da última semana, como um reflexo doentio do estado físico decadente que se apossara dela, repousava inerte na pia do banheiro, e por pouco não fora engolido pelo ralo. Um pouco de sangue tingia de vermelho a espuma do creme dental que decorava o dente perdido.

Era o sexto que ela perdia em duas semanas. Larissa fechou os olhos lacrimejantes e inspirou fundo, segurando o ar em seus pulmões. Sentiu o fraco sabor do creme dental sendo ofuscado pelo gosto forte e ferroso do sangue que ainda escorria em pequena quantidade da sua gengiva. Era uma sensação nova e inesperada.

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Conto | A Longa Caminhada

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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Conto | Martha, My Dear

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

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