Conto | Estátuas3 min de leitura

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

O mundo era muito grande e tinha coisas demais para eu não interagir. Queria viver, fazer parte do que eu via. Costumava inventar histórias para as pessoas, os prédios, as árvores e o que quer que eu botasse os olhos; isso é, antes que minha mãe me trouxesse de volta para a realidade “Não seja tão avoada, menina” ela dizia enquanto me puxava para o seu lado novamente na rua movimentada.

Falar então estava fora de cogitação. As falas, as músicas cantadas ou as danças, muitas vezes, tinham que ficar somente na minha cabeça. Na pressa do dia a dia, desviávamos de muitas coisas, pessoas, animais, até das estátuas que havia nas ruas de alguns bairros. O importante era “não falar com os estranhos” e “não se perder”, mesmo que muitos desses estranhos nitidamente quisessem conversa.

Tudo acontecia tão rápido quando estávamos na rua que me acostumei a pensar em quem estava na rua, não importa o que fosse, como estátuas. Algumas delas sorriam e era possível acenar e até responder a um “bom dia”; outras eu era proibida de olhar, mesmo que quisesse. Mal podia esperar pela minha vez de iniciar o “bom dia”, mas parecia que só algumas das estátuas podiam falar. Eu não entendia o porquê da proibição ou por que as cores e o cheiro me faziam pensar que aquelas estátuas já estavam no mesmo local a mais tempo do que eu imaginava.

Minha mãe disse uma vez que elas eram “parte da paisagem” e eu percebi então que há muito por aí que não vemos mais; acho que paisagem não é só o que vemos, mas o que com o tempo paramos de enxergar. Aquele aviso importante, aquela pessoa vestida igual a todas as outras, tudo parte de uma paisagem que passa despercebida aos olhos.

Foi com esse pensamento que cresci. De que havia muito mais no mundo do que comentávamos ou apreciávamos. Não sei se é um mecanismo de defesa da mente, mas nos acostumamos a não ver mais o que nos desagrada. E é aí que essas estátuas, que um dia foram pessoas, começam a desaparecer diante de nossos olhos.

Eu optei por ver. Por me incomodar. A não ver mais aquela guernica pintada com o cinza da nossa sociedade como natural. Crescer não foi só questão de separar os sonhos da realidade, mas de entender que só me incomodando que poderia fazer alguma diferença.

Hoje, entre uma correria e outra por aí, entreguei um pacote de salgadinhos para alguém na rua. Sabia que não era muita coisa, mas por alguns segundos, vi a “paisagem” ganhar vida e sorrir para mim da mesma forma que eu costumava fazer – e ainda faço – ao encarar o sol todas as manhãs.

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Diego Vieira

Paulistano, formado em Marketing e viciado em séries. Ler é outro vicio que possui. Começou com Agatha Christie, passou por Sidney Sheldon e conheceu a obra de James Patterson, que influencia muitos de seus trabalhos em desenvolvimento. Comprou um kindle, mas não abre mão do livro físico e sempre tem um a mão. Ama contar histórias desde que aprendeu a falar e sonha viver disso. Acredita que qualquer situação pode gerar uma boa história, principalmente com uma dose de mistério e fantasia.
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