Conto | Martha, My Dear3 min de leitura

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

Atravessaram a rua de mãos dadas, mas com quilômetros entre os dois. Do outro lado, sentiu ela parar e se virou. Encontrou Marta com olhos marejados e ouviu as palavras antes que ela as dissesse.

— Eu quero terminar — Marta disse entre soluços e lágrimas.

Era isso, ela teve a coragem que ele não tinha tido até agora. O jovem não conseguiu sentir raiva. Ainda estava atordoado e percebia que aquilo estava doendo mais nela do que nele. Ele a levou de volta para o ponto, trocaram um beijo de despedida, um beijo tão curto quanto a frase que havia colocado um fim em tudo.

O mundo a sua volta era só ruído. As vozes de Paul e John não conseguiam colocar o mundo nos eixos, até porque Beatles sempre foi algo deles.

Chegou em casa, jogou chaves e carteira sobre o balcão e foi lidar com a raiva que estava começando a aparecer. Fotos deletadas, presentes guardados em caixas e mensagens para amigos e familiares avisando que havia acabado.

Não queria tocar nesse assunto nos próximos encontros. Arthur sempre foi bom em explodir e dissipar a raiva em instantes. O problema é que quando esse sentimento some, a cabeça tem tempo de pensar e aí surgem as dúvidas: “Será que ela estava apaixonada por outra pessoa?” ou “O que ele havia feito de errado?” o assombravam.

Era a vez do abandono assumir o lugar da culpa e o fazer companhia. Conseguia ver todos os planos e sonhos que tinha para o futuro deles virar pó. Maria Eduarda e Matheus jamais existiriam, assim como a casa e o cachorro chamado Boo.

Arthur resolveu ir para cama e finalmente se permitiu chorar. Ao seu lado só a tristeza e um coração partido, mas o rapaz tinha um analgésico para isso. Rádio ligado e a primeira faixa de “Blood on the Tracks” invade o quarto.  Poucos álbuns expressam tão bem a dor dos últimos dias e do fim quanto esse. “Tangled up in Blue” o fazia lembrar dos bons momentos e viu muito do seu término em “Simple Twist of Fate”. Dylan e aquele álbum eram os únicos amigos que o ajudariam naquele momento.

Dias, semanas e meses foram necessários para curar cada um dos ferimentos. Términos muitas vezes são como “Exile on Main St.”, a recepção inicial nem sempre é boa, mas no futuro você percebe que estava errado. Arthur logo estaria ansioso para encontrar a próxima pessoa que partiria seu coração.

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Yuri Szirovicza

Nascido no Rio de Janeiro em 1993, sonha ser escritor desde 2002 quando escreveu sua primeira história que possuía 30 protagonistas. Felizmente, aprendeu a trabalhar com menos personagens de destaque. Ama quadrinhos, filmes e longas caminhadas na praia e odeia escrever sobre si mesmo na terceira pessoa.
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