Crônica | Pra ser sincero

Foi numa festa, à meia-luz, que eu a vi pela primeira vez em muito tempo.  

Nossos caminhos não se cruzavam há tempos. Ela com o mesmo sorriso bobo, eu com alguns fios brancos de cabelo a mais.  

Nossa história passa por minha cabeça como um filme sem palavras. Imagens familiares que voltam a ter sentido.  

Sorrisos na praia, brigas na noite. Beijos no cinema, lágrimas na chuva. Trilhas de mãos dadas, gritos ao amanhecer. Paixões na cama, decepções em  manhãs de domingo.

Ela me vê. Caminha em minha direção.  

—  Oi, tudo bem — ela me diz.  

— Tudo, e com você? 

— Tudo — ela responde.  

Respostas protocoladas, conversas que não fluem mais com a harmonia de antes.  

— Ahn, eu preciso voltar ali com o pessoal — ela explica.  

— Tudo bem. Prazer em vê-la! Até mais! 

— Até! 

Ela volta para onde estava, me deixando com o coração cheio de memórias.  

Pra ser sincero, não espero dela mais do que educação. Beijo sem paixão, crime sem castigo e aperto de mãos. Apenas bons amigos.   


*Adaptação da música Pra Ser Sincero, dos Engenheiros do Hawaii 

Conto | Gritos

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

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Conto | O Mar de Prudence

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas. Continuar lendo “Conto | O Mar de Prudence”

Conto | Hotel California

Acordei sem lembrar de nada do que tinha acontecido antes. A estrada estava escura, nenhum sinal de qualquer carro passando. A única luz presente era a da lua, que me permitia enxergar mais ou menos o caminho que eu deveria seguir. Segui em frente, sem nenhuma certeza de onde eu chegaria. Percorria o trajeto, tentando entender o que estava acontecendo, um passo de cada vez.

Andei milhas e milhas pela escuridão. Horas depois vi uma luz ao longe. O brilho azulado foi ficando cada vez mais forte. Pouco tempo depois, percebi que era um hotel. Bati as mãos no bolso e senti que minha carteira ainda estava comigo. Ótimo. Pelo menos eu teria onde passar a noite antes de seguir viagem pela manhã. Com sorte, eu teria um telefone para ligar para minha esposa, que deveria estar morrendo de preocupação. Continuar lendo “Conto | Hotel California”

Conto | Asa Branca

Ele não podia ver nada além da secura. O sol do meio-dia fazia com que o suor ensopasse sua roupa, que já grudava em seu corpo como uma segunda pele. No horizonte, ele podia ver a fumaça da queimada. Sentiu uma melancolia dentro de si e seguiu seu caminho. Na estrada, conseguiu ver o corpo do Alazão já cercado de moscas. O gado dava seu último suspiro nesse mundo com olhar pesado.

Andou por mais alguns minutos até o centro da cidadela. O sorriso das pessoas desaparecera há meses, mas ele ainda era capaz de manter a gentileza que dava algum alívio pra vida daquela gente. Entrou na capelinha tirando o chapéu. Com os joelhos fracos e franzinos, colocou-se aos pés do Criador. Continuar lendo “Conto | Asa Branca”

Conto | O homem, a caverna e o grande truque

O viajante já estava caminhando há três dias e três noites. Seus pés doíam, sua cabeça latejava. Sentia fome e acreditava que seria capaz de comer os próprios dedos se não encontrasse alimento nas próximas horas.

A chuva respingava em seu rosto e trazia pelo menos algum alívio no calvário. Precisava de um abrigo para deixar suas coisas e partir para a caça. Encontrou uma caverna. Deparou-se com uma entrada colossal, com metros de altura e largura. Com cautela, adentrou a abertura. Sua tocha iluminava pouco, mas o suficiente para ele ter a certeza de que alguém já havia passado por lá antes.  Poucos metros depois começou a vislumbrar os cadáveres. Os mortos ali jaziam com uma expressão de completo horror em seus rostos. Agonia congelada em uma expressão facial que perduraria pela eternidade. Continuar lendo “Conto | O homem, a caverna e o grande truque”

Crônica | Flores na beira do abismo

Acordo. Olho o celular, a madrugada ainda está correndo. Apesar do frio lá fora, estou com calor. O susto foi resultado de mais um pesadelo e logo, vejo que irei demorar para conseguir voltar a dormir.

A madrugada sempre é um horário em que eu passo a pensar demais sobre minha vida, minhas escolhas, meus fantasmas. É viver a vida e sentir a dor. Hoje, depois de muita luta interna, já não tento mais domar tanto a dor. Ela é parte de mim. Ela é necessária. Ela é merecida. Continuar lendo “Crônica | Flores na beira do abismo”