Conto | O que o Natal pode trazer

Por: Tiara Gonçalves

Houve um tempo em que as festas de Natal eram cheias de luz. As pessoas se reuniam em volta de grandes mesas cobertas com toalhas brancas e comida abundante. Todos riam, contavam historias e trocavam presentes. Mas esse tempo ficou para trás.

Nos natais da vida, Mariland não ganhava presentes. Não comia nada diferente; era sempre a mesma proteína de soja ou sopas enlatadas, como em qualquer outro dia. Entretanto a garota tinha algo raro nos dias atuais: ela tinha esperança. Mesmo quando os agentes do governo invadiam o assentamento e levavam os homens ainda saudáveis, mesmo quando o frio era intenso demais e todos eram obrigados a se amontoarem para compartilhar um pouco de calor corporal, mesmo quando a energia, racionada, era totalmente cortada e eles ficavam no escuro. Ainda assim, ela era capaz de sorrir e se encantar.

Mariland ouvia de seu pai histórias sobre o Natal, e aquelas histórias a mantinham viva. Uma delas contava sobre um homem com roupas vermelhas e longas barbas brancas. Na história o homem invadia as casas das pessoas, não para roubar, como era tão comum ultimamente, e sim para deixar algo. O bom velhinho tinha o presente ideal para cada um – não o que a pessoa pedia, mas o que realmente precisava – ou assim contava o pai a uma Mariland atenta e com olhos brilhando de expectativa.

Contou sobre quando aquele ser mágico visitou a avó de Mariland, na época apenas uma menina, e como ela estava brava demais com os pais, por não ganhar o que queria. Na noite de Natal o abraço forte da mãe, confortando-a, foi o melhor presente.

Contou também sobre uma senhora que vivia triste em um grande casarão na antiga rua onde moravam, e em como em todos os natais ela chorava por não ter com quem compartilhar sua imensa ceia, até que esqueceu o seu orgulho, tão adulto, e pediu ao Papai Noel que lhe trouxesse um amigo. Na noite seguinte, a casa estava cheia, eram pedintes dos bairros próximos, que vinham compartilhar a comida, e traziam palavras de gratidão e carinho verdadeiro.

Certa vez, um garotinho pediu um trem de brinquedo e acabou ganhando uma viagem num trem de verdade. Atravessou as montanhas com a família e os amigos. Nunca em sua vida foi mais feliz. Mariland suspeitava que esse garotinho era o próprio pai.

Papai Noel sempre sabia o que dar. Não importava o que pedisse em voz alta, ele ouvia os desejos do coração de cada um.

Quando o pai de Mariland foi levado pelos homens do governo, ela não teve medo. Não muito. Esperou, pacientemente, pela época do ano em que deveria ser o Natal, acompanhando por um calendário antigo a passagem dos dias. E quando a data se aproximou fez seus pedidos em silêncio, colocando toda a força em seus pensamentos, levando os desejos até seu coração. Pedia pela volta do pai com a certeza de que seria atendida.

As outras crianças do assentamento, não acreditavam em Natal. Não mais. Elas não tinham quem lhes contasse histórias antigas. Então Mariland tomou essa função para si, contando todas as histórias que ouvira do pai, e outras mais, saídas da própria imaginação e sonhos.

E tanto contou que as crianças começaram a acreditar que aquelas histórias fossem reais, parte de um passado distante, mas ainda assim, verdade. E juntas tomaram uma decisão: trariam o Natal de volta.

Durante os intervalos do trabalho ou nas trocas de turno, ou pouco antes das horas de dormir, esgueiravam-se para fora do assentamento e buscavam por objetos que lhes traziam a ideia de Natal. Encontraram uma bota vermelha, fitas de tecido colorido, pinhas encontradas na floresta, até arrastaram uma árvore seca, que lembrava vagamente um pinheiro descrito em uma das histórias de Mariland. Latas de alumínio foram cortadas em formatos diversos e penduradas na árvore. Cacos de vidro viraram enfeites também.

Aos poucos, o aspecto do assentamento foi mudando; as barracas cinzentas e sujas, não pareciam mais tão desoladas, e com a mudança na paisagem veio algo mais. Havia alguma coisa no ar, um sentimento, que há muito não era sentido por todos. Os dias pareciam mais curtos, o trabalho já não era tão estafante, as conversas banais eram mais frequentes e risos ocasionais podiam ser ouvidos aqui e ali.

As crianças se divertiam com os preparativos. Sua alegria contagiante também chegava aos adultos. As mães começaram a trazer pequenas sementes coloridas para a árvore, alguém teceu figuras de anjos, com feltro e retalhos velhos, e um pai teve o cuidado e capricho de providenciar uma estrela, feita com os restos de um caixote velho e coberto com corda, não brilhava como a estrela das histórias, mas ainda assim era uma estrela.

A noite em que Mariland supunha ser a Noite de Natal, estava destacada em vermelho no calendário. E sem nenhum aviso, sem que ninguém precisasse dizer, todos se prepararam para ela. Mesmo com o racionamento de água, estavam todos de banho tomado, as roupas embora gastas, eram as melhores possíveis. E com todos juntando seus suprimentos foi possível fazer um grande caldeirão de sopa, de modo que, pela primeira vez em muito tempo, teriam uma refeição quente e farta.

Reuniram-se na clareira entre as barracas, onde haviam montado a árvore. As fogueiras acesas refletiam nas centenas de enfeites improvisados, e davam ao local um ar de magia.

Todos se abraçaram e conversaram por um longo tempo e, aos poucos, conforme a noite ia avançando caíram em um silêncio respeitoso, sentando-se aleatoriamente ao redor da árvore, aquecidos pela comida, pelas fogueiras e pelo amor que haviam despertado ali.

Quando todos estavam sentados, Mariland reparou, surpresa, que era a única ainda em pé, ela fez menção de também se sentar, envergonhada, mas antes disso uma das crianças lhe perguntou:

— Mariland, você vai nos contar uma história hoje?

A menina sorriu, emocionada pelo que via em volta, refletido nos olhos daquela criança e espalhando-se pelo rosto de cada morador do assentamento: esperança.

Era isso que o Natal lhes trazia. Era isso que as histórias de Natal lhes prometiam.

Tocada pelos sorrisos e gestos de incentivo, Mariland começou a contar uma história após a outra. Eles riram e se emocionaram. Celebraram o Natal de uma forma nunca feita antes. Um verdadeiro Natal.

Mariland, já de madrugada, foi para a pequena barraca compartilhada com mais três meninas que também tiveram os pais levados, com a sensação de dever cumprido. Mas nem por isso, deixou de fazer seu pedido. Debruçando-se na janela minúscula, olhou para o alto e implorou para ver o pai novamente.

Como um sinal de que ela podia ser ouvida, as nuvens de fumaça da fábrica foram sopradas para longe por um vento frio e Mariland pode ver o céu, pontilhado com estrelas de verdade. Uma delas brilhava mais que todas as outras.

A menina sorriu ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria por seu rosto.

— Obrigada, Papai Noel. Obrigada por atender ao meu pedido.


Card alaranjado com a foto e a mini bio da escritora Tiara Gonçalves. A foto dela está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio da escritora.

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