Conto | A Longa Caminhada8 min de leitura

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

Estariam tão perto? Míriam se encheu de esperança. Se chegassem até a fronteira, mesmo que estivesse tomada pelo caos da guerra, ao menos teriam chegado. E ela precisava se apegar a isso. Chegar. Sentar-se. Colocar os pés feridos em algo confortável. Repousar o corpo. Era tudo que precisava.

Haviam deixado a cidade pouco antes da Invasão Final, como os rebeldes estavam chamando o ataque anunciado pelos alto-falantes nas ruas. Não fora nada fácil. Elas tiveram que deixar tudo para trás. Usaram todo o dinheiro que tinham para comprar a passagem delas para fora da cidade. Levavam consigo apenas o que conseguiam carregar, nada mais que uma muda de roupas e o desejo ardente de atravessar a zona de guerra.

Ela olhou para o lado e viu sua companheira de caminhada, uma garota jovem e magra, que apesar da escassez dos últimos meses ainda parecia forte e animada.

De onde tira sua força, criança?

Eu não sei — a menina respondeu, dando de ombros. — Acho que é porque eu consigo dormir. Então não fico tão cansada. Ou talvez sejam os sonhos.

Sonhos?

É… quando você deita e adormece e surgem coisas na sua cabeça.

Sei o que são sonhos, criança — ela sorriu. — Mas não sei como eles podem ajudar em tempos como esses.

Ora, e o que pode?

As duas continuaram a andar por mais um tempo, em silêncio.

Míriam, tentava se lembrar da última vez que sonhara ou da última vez em que dormira profundamente. Não conseguiu.

Uma bolha no pé esquerdo incomodava dentro dos pesados coturnos e ela já mancava um pouco. Para se distrair da dor chamou a garota de novo.

Me conte um dos seus sonhos, criança.

Eu não poderia. Mal acordo e eles já se dissolvem na minha cabeça. Mas sempre sobra algo.
O que quer dizer?

Ora, é como quando toma café. Um bom café, não essa coisa nojenta que bebemos agora. Um café forte e cremoso, com aquele sabor amargo e doce ao mesmo tempo. Depois de tomar uma xícara o sabor permanece na língua por um bom tempo. E o perfume do café ainda fica no seu nariz, mesmo depois de ele ter acabado. E quando você termina sente um quentinho no peito que se espalha pelo corpo e te deixa feliz.

Míriam conhecia a sensação, lembrava-se da mãe torrando os grãos na antiga torradeira em forma de bola sobre o fogão a lenha e depois girando a manivela do moinho até obter o pó escuro e perfumado. Lembrava-se de como a casa inteira recendia ao aroma forte quando a água escaldante se transformava na bebida que todos aguardavam, lembrava-se de como aquele cheiro trazia conforto. e sorriu ao lembrar-se.

É assim com o sonho. Mesmo quando não lembro o que sonhei ainda sinto o gostinho na boca. E isso me deixa feliz, quando estou feliz sou mais forte. Minha mãe dizia isso.

O vento soprou, gelado. As duas estavam duras e frias e se aproximaram mais do grupo. Já era madrugada, e ficar juntas poderia garantir algum calor, por menor que fosse. Talvez, ficar juntas garantisse que chegariam vivas até a fronteira.

Os pés continuavam a doer, assim como as costas e ombros e pescoços. Mas elas não parariam. Tinham que chegar antes do primeiro raio de sol. Encobertas pela penumbra teriam uma chance de atravessar. Então continuavam. Lenta, mas progressivamente.

Míriam queria que a menina ao seu lado continuasse falando, mas ela parecia ter se fechado. Olhava para o chão de terra dura e vez ou outra chutava um cascalho. Talvez estivesse com mais dor do que deixava transparecer, mas não a ouviu reclamar. Míriam invejou a força da garota.

Ela própria, caminhava encurvada, arrastando os pés e tremores violentos sacudiam seu corpo de tempos em tempos. O nariz escorria uma água quente que Míriam já desistira de tentar limpar. E, mesmo sem querer, um lamento de dor escapava de seus lábios rachados de vez em quando. Mas caminhava e tentava lembrar-se de um sonho. Apenas um, e teria um pouco mais de ânimo para prosseguir. Clamava aos céus por uma lembrança assim.

Senhora, — a garota sussurrou para ela depois de um tempo — e se não conseguirmos chegar? E se os soldados nos alcançarem antes de atravessarmos?

Isso não vai acontecer — Míriam tentou manter a voz firme. — Estamos perto agora. Vamos atravessar. Tem uma vida nova para todas nós depois da fronteira. Vamos poder dormir tranquilas novamente. E até sonhar.

Isso já parece um sonho!

Sim, parece. Mas esse sonho podemos realizar logo. É só colocar um pé na frente do outro e chegar na fronteira. É só caminhar.

Míriam e sua companheira de estrada apoiaram-se uma na outra, os braços envolveram-se e continuaram a caminhar, juntas. Talvez, até um pouco mais rápido.

O dia estava quase nascendo quando avistaram o muro. E houve um grande alvoroço entre elas. Jogavam as mãos para o alto e agradeciam aos céus por terem conseguido. Estavam esgotadas. Andavam aos tropeções. Algumas estavam feridas, algumas praticamente carregadas por suas companheiras. Na ânsia de chegar algumas caíram e foram erguidas pelas outras. A estrada as fizera irmãs. Eram agora uma só família. Abraçavam-se e choravam. E continuavam a caminhar.

Míriam beijou o topo da cabeça da garota ao seu lado. O rosto cansado da menina exibia um sorriso febril.

Chegaram ao muro. Apenas pedras e arame farpado as separava da vida que poderiam ter.

Uma delas tomou a frente para falar com o soldado armado na guarita. Todas as outras esperavam. Em silêncio, mas ainda sorrindo.

Míriam apertou forte a pequena trouxa de roupa contra o peito. Uma brisa tocou seu rosto e ela trazia o cheiro de café, ou talvez ela estivesse imaginando coisas.

Olhou para cima e viu muitos homens armados, seu corpo inteiro tremeu, mas tentou se convencer que aquilo era normal ali, na fronteira. Eles precisavam se proteger dos rebeldes inimigos. Precisavam ter certeza que elas não estavam preparando uma armadilha. Não podiam deixar qualquer um passar. Se precisassem ser revistadas, Míriam colaboraria com prazer. Não escondia nada. Diria isso para as outras: sejam pacientes e fiquem calmas, cooperem e logo tudo estará acabado.

Desviou os olhos das armas que pareciam estar apontadas para elas. Foi quando viu a comoção em volta.

A líder do grupo voltava para elas, estava sendo empurrada pelo soldado armado. Ele esbravejava em uma língua que elas não entendiam, mas nem precisavam. Os gritos, empurrões e a arma em punho apontada na direção dela, eram uma linguagem universal, a mensagem não precisava de tradução.

Houve pânico, elas começaram a falar todas juntas, imploravam e choravam desesperadas. Ajoelhavam-se. Mas outros soldados surgiram, mais armas, cães.

A primeira mulher a ser atingida por um violento golpe de cassetete caiu no chão poeirento com um baque surdo e não se levantou mais. Outras vieram em seguida. Os soldados não tiveram piedade. Mas elas lutavam, resistiam. Tentavam avançar.

Míriam estava no meio do caos, viu a garota ao seu lado ser jogada ao chão por um homem muito maior que ela. Tentou ajudá-la, mas também caiu. Levantou-se chutando e batendo e gritando e mordendo.

Mas não era forte o bastante. Nenhuma delas era.

Então ouviram o primeiro tiro. Para o alto. E correram em todas as direções possíveis. Algumas em direção ao muro.

Míriam foi uma delas. Não havia caminhado tanto, sem descanso, para desistir. Não poderiam obrigá-la a voltar para o horror da cidade sitiada, onde mulheres e crianças eram violentadas e torturadas e mortas todos os dias. Não poderiam fazê-la recuar. Viu suas amigas caírem, mas continuou acreditando que conseguiria.

O corpo esforçava-se para frente mas parecia afundar em lama, as mãos estendiam-se em direção a liberdade, a pequena trouxa de roupas já perdida em meio a confusão. Seus ouvidos zumbiam pelos estampidos constantes. Mal sentiu quando a bala acertou sua barriga. O impacto a jogou longe, ela caiu sobre um braço e esfolou o rosto, tentou se levantar de novo. Tinha que levantar, tinha que prosseguir.

Porém, seus pés machucados não estavam mais suportando o peso de seu corpo e de repente ela se deu conta que poderia descansar. Ali mesmo na terra dura. Não lhe parecia tão desconfortável.

Pensou nas companheiras a sua volta, mas as vozes delas estavam cada vez mais distantes, pensou na garota que caminhara ao seu lado. Teria ela conseguido fugir?

E, enquanto pensava, uma sensação de conforto foi se apoderando de seu corpo. E vieram as lembranças. Míriam se lembrou de quando sonhara pela última vez. Fora a muito tempo. Conforme os sons a sua volta se distanciavam e a dormência em seu corpo aumentava, as imagens ficaram mais nítidas e um sonho tomou forma diante de seus olhos.

Míriam sorriu e fechou os olhos para aproveitar o sonho.

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Tiara Gonçalves

Mineira que trocou o norte de Minas Gerais pelo interior de São Paulo, Tiara é analista fiscal e apaixonada por números e palavras. Deixou a literatura tomar conta de sua vida nos últimos anos. Escreve principalmente sobre magia e fantasia, pois acredita que é preciso sonhar e fugir (um pouco) do mundo racional. Quando não está envolta em decifrar nossa complexa legislação tributária, gosta de levar o filho, Pietro, para dentro de suas histórias, lugar onde constroem castelos e matam dragões, porque todas as crianças merecem se aventurar por mundos mágicos.
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