Conto | Isabele2 min de leitura

— Brinca comigo, mamãe.

Ela vinha com passos incertos e curtos para perto de mim. Os braços eram esticados ao máximo, oferecendo-me o ursinho de pelúcia. Eu me apertava contra a parede, rezando para que pudesse atravessar o concreto e sumir dali.

Os pelos do meu braço estavam arrepiados e não era efeito do frio congelante que invadia o quarto. Era verão e, mesmo assim, o ar condicionado estava desligado. Um choque elétrico percorria minha coluna cada vez que encarava os olhinhos tristes, e permeados por profundas olheiras, dela. O cheiro de velas, margaridas e desinfetante preenchia o ar.

— Por que você não brinca, mamãe?

A voz infantil e chorosa – parecia até melosa – não me convencia. Eu sabia com o que estava lidando. Apertava-me mais e mais contra a parede. Cada vez que a via mais perto, fechava os olhos com força e proferia uma oração. Ela apareceu repentinamente e meu coração foi parar na garganta. Não importava o que eu fizesse; ela não desaparecia e o coração não voltava para o seu lugar fisiológico.

A camisola rosa esvoaçava. As bochechas rechonchudas não eram capazes de despertar aquele instinto primitivo de apertá-las. A pele branca não era natural.

Deixei de lutar quando percebi a inevitabilidade da situação. Ela me perseguiria até conseguir o que queria. E ela queria a mamãe. Mãe. Um título que nunca quis ostentar. Por isso fiz o que fiz. Não houve arrependimento.

Até aquele momento.

Sabendo que não me livraria dela como da primeira vez, encarei o rosto angelical. Nunca imaginei que seria capaz de gerar uma criatura tão bonita. Uma menina que parecia tão meiga.

Menina.

Disseram que era uma menina. Eu não quis saber. Pouco importava. Você quer pensar num nome? Nome? Não houve sentido algum nisso. Fui embora e ignorei todos aqueles pensamentos.

Ela veio para me confrontar. E era tão bela. Bela… Bele… Isabele. Esse seria um bom nome. Um nome perfeito para o feto que não deixei nascer.

Camila Servello Aguirre

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.
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