Ele não podia ver nada além da secura. O sol do meio-dia fazia com que o suor ensopasse sua roupa, que já grudava em seu corpo como uma segunda pele. No horizonte, ele podia ver a fumaça da queimada. Sentiu uma melancolia dentro de si e seguiu seu caminho. Na estrada, conseguiu ver o corpo do Alazão já cercado de moscas. O gado dava seu último suspiro nesse mundo com olhar pesado.
Andou por mais alguns minutos até o centro da cidadela. O sorriso das pessoas desaparecera há meses, mas ele ainda era capaz de manter a gentileza que dava algum alívio pra vida daquela gente. Entrou na capelinha tirando o chapéu. Com os joelhos fracos e franzinos, colocou-se aos pés do Criador.
Entre lágrimas e orações, ele perguntou:
— Pô que tamanha judiação, Pai? Pô que o Sinhô dexô que isso contecesse côá gente? — Não queria confrontar o Senhor, mas a dor invadia completamente seu corpo, revirando seu interior num grande caldeirão de angústia que só se manifestava através de um choro que parecia não ter fim e onde cada segundo parecia durar uma semana. Após o diálogo com o Pai, saiu da capela e seguiu para casa. Talvez, no aconchego do lar, conseguisse encontrar alguma paz para silenciar todos os gritos abafados dentro de si.
***
A noite não era menos quente na região. Os pensamentos dele estavam longe e a tristeza era visível em seu rosto. A esposa sentou ao seu lado e se apoiou em seu ombro. As lágrimas correram soltas entre soluços e um abraço apertado de um amor que não seria palpável por alguns meses.
— Rosinha, cê me promete má coisa?
— O que ocê quisé, mámor — ela enxugou as lágrimas do marido e lhe projetou um sorriso.
— Guarda com ocê — ele soluçava — guarda com ocê o meu coração.
Apesar da melancolia, havia alguma esperança em seus gestos. Sabia que seguiria para as Gerais por ela e só por ela. Naquela noite, amaram com um amor que conseguia ser mais do que só amor. Na despedida, somente carinho e a promessa do retorno.
***
Durante o descanso depois da colheita, com a sombra da copa, ele lembrou dela assim que a Asa Branca pousou perto da árvore. Sorriu e se encheu de amor. Seguiu até o casebre onde vivia, pegou papel e o primeiro toco de madeira com grafite que encontrou. Ali escreveu: “Quando o verde desse seu zóio se espaiá na nossa prantação, te asseguro, num chore, não, viu? Eu voltarei, viu, meu coração”. E aquela Asa Branca bateu as asas rumando pro Norte em busca do amor.
Cesar Gaglioni
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