Conto | A Morte das Estrelas7 min de leitura

Uma estrela se apagou no momento em que o Pai subia no telhado de casa. Com uma coberta de lã no ombro, ele escolhia onde pisar com cuidado, para não quebrar nenhuma telha. Enquanto isso, o Filho subia a escada de mão carregando num dos braços um grosso edredom com tema de flores que pegou no quarto dos pais.

O Pai estendeu a coberta sobre as telhas geladas no outro lado da casa, aquele que dava para os fundos, onde as luzes dos postes na rua não teriam nenhuma chance de atrapalhar a noite deles. Deitou-se e aguardou o filho em silêncio, encarando o zênite celeste com a curiosidade de uma criança.

— Pai, cheguei! — disse o menino animado, enquanto deitava ao lado dele e cobria os dois com o edredom florido. Alguns segundos depois o garoto se levantou abruptamente. — Vou lá buscar dois travesseiros pra gente!

— Toma cuidado na escada, Filho.

— Pode deixar.

Enquanto isso, manteve os olhos bem abertos, encarando o infinito. Tentou limpar a mente, esforçando-se para não pensar na Esposa, lá em cima, e na falta que sentia dela. Mas, a essa altura, ele já devia saber que não conseguiria, pois o céu se tornara um lembrete eterno da mulher que ele tanto amava. E pensar nela lhe fez sorrir. Afinal, esta noite era dela. Para eles.

O menino não demorou mais que dois ou três minutos para voltar com dois travesseiros grossos e fofos, com tema do Mickey. Ele ajeitou primeiro o travesseiro do pai, e bem junto deste, o seu, abrigando-se embaixo da coberta. Por um minuto encarou o céu escuro em silêncio.

— Não estou vendo as estrelas cadentes, Pai.

— Espera um pouquinho que os seus olhos se acostumam, aí você vai ver.

— Você já viu alguma?

— Sim, algumas — mentiu. Talvez tivesse visto algumas, mas não prestara atenção. Mais uma vez, tentou focar no agora. Pegou a mão do Filho e puxou-a para perto de si, apertando-a contra o peito. Desde que a Esposa partira, ele e o filho estavam mais próximos. Ele estava feliz, e para seu deleite, o tempo parecia se estender pela eternidade.

— Eu vi uma, Pai. Vi uma estrela cadente. Ela passou muito rápido! Bem ali, olha!

— Eu também vi, Filho.

— Outra, ali! — apontou o menino, extremamente empolgado. — Mais uma, lá!

Os pensamentos do Pai se voltaram para o passado, revisitando lembranças muito queridas. É incrível como momentos como esse são capazes de trazer o passado de volta. O canto das cigarras na madrugada, o frio nas bochechas e o calor da coberta compartilhada com o irmão no telhado da antiga casa, há mais de trinta anos. A empolgação que sentiram quando avistaram juntos as primeiras estrelas cadentes.

— Pai. — A voz triste do Filho o trouxe de volta. Ele não esperava esse tom tão cedo na voz do filho. Não antes do que ele tinha a dizer.

— Sim, Filho.

— A Mamãe vai voltar?

— O quê?

— A Mamãe vai voltar? Já faz um tempão que ela saiu nessa missão. O Charles disse que…

Charles, quem era esse mesmo? Ah, sim, um amiguinho da escola. Um que dormiu aqui em casa na última noite. Nós quatro jogamos Banco Imobiliário a tarde toda. E você sempre rindo, apoiando as crianças mesmo quando elas sugeriram mudar as regras do jogo porque não podiam pagar o aluguel. Caramba, como sinto a sua falta.

— Pai? — A voz chorosa o trouxe de volta.

— O que ele disse? — insistiu o Pai. Precisava entender com o que estava lidando.

O menino ficou quieto por um bom tempo, até que a sua mão apertou ainda mais forte a do pai. Os seus olhos ensaiavam a primeira lágrima, e o Pai podia jurar que todas as estrelas da Via Láctea estavam refletidas ali. Menos as que já se apagaram. A imagem da Esposa voltou com toda força, e com ela a certeza de que nunca mais estariam juntos.

— Ele disse… — começou, respirou fundo e continuou. — Ele disse que ela não vai mais voltar, que ela vai morrer lá no Sol.

— Filho… — A garganta doía, mas ele não podia chorar agora. Tinha de ser forte pelos dois.

— É verdade que ela não vai mais voltar?

Puxando-o para si, abraçou o menino com força. Não era um abraço demorado, pois abraços só demoram quando você quer soltar, e nenhum deles queria. Eles apenas continuaram assim, por muito, muito tempo.

Sussurrou em seu ouvido.

— Não, meu filho. Ela não vai voltar.

O tempo congelou. O calor daquele abraço contrastava com as lágrimas do Filho que, em contato com o ar frio da madrugada, chegavam geladas ao rosto do Pai. Ele explicaria tudo, mas ainda não. Precisava que o menino se acalmasse primeiro, que pusesse fim àquele choro silencioso. Então esperou.

Uma hora inteira se passou até que enfim eles se desvencilharam. Uma cigarra começou a cantar no pé de limão no quintal lá embaixo. Os dois voltaram a encarar a noite, mas, desta vez, nenhum deles caçava estrelas cadentes.

— Sua mãe está fazendo o que é certo. Ela está lá em cima por nós. — Era verdade, mas nem por isso deixava de doer.

— Mas… por que ela não volta? Eles não vão deixar?

— Eles quem?

— Os homens do governo. O Charles disse que eles não v…

— Não tem nada a ver com os homens do governo. Foi escolha dela.

— É mentira. A mamãe não ia embora assim. Ela prometeu… — parou por um momento, introspectivo, a voz baixinha. — Que a gente ia pra Disney no ano que vem. — A voz dele quase não saía.

— Filho, ela aceitou essa missão para salvar o mundo. Para salvar a gente!

— Mas por que ela mentiu pra mim? Ela disse que ia voltar!

— Tudo que ela queria era o melhor pra você. Não duvide disso. Tenho certeza de que ela queria muito te levar lá.

— Mas… por quê?

O suspiro do Pai foi suficiente para que o menino recuasse um pouco em sua atitude.

— O Sol está muito doente. Você viu como ele está nos últimos dias. E já está ficando frio. Se ele apagar por completo, o mundo todo vai congelar. E ela não vai deixar isso acontecer.

O menino não respondeu.

— Já vai amanhecer — anunciou o Pai.

Aos poucos uma estrela foi nascendo, tingindo o horizonte de um marrom agonizante. A estrela, que antes brilhava tão forte no céu estava agora pálida e fraca, acometida por um mal que parecia estar se espalhando por suas vizinhas mais próximas. Mas as outras estrelas estão em desvantagem, pois elas não têm alguém para salvá-las, ninguém que as ame tanto a ponto de dar sua vida por elas.

O Sol, que agora se erguia no horizonte, estava tão fraco que os dois o encaravam de olhos bem abertos, sem esforço algum. Foi então que uma pequena mancha branca se assomou à superfície da estrela debilitada, e o Pai pôde jurar que o nosso querido Sol tinha ficado um pouco mais brilhante. Esperança.

— Pai?

— Sim, Filho?

— Aquilo, foi a Mamãe?

— Sim, meu filho, foi a Mamãe.

O menino se calou outra vez e o Pai não tirou os olhos da estrela. Ele sabia que o efeito em cadeia desencadeado pela explosão silenciosa levaria anos para curar a estrela moribunda, e ainda assim, não queria perder nenhum segundo das primeiras horas de convalescença do Sol. É nesse momento que ele se dá conta de que a Esposa está morta há mais de oito minutos, e apesar da tristeza da perda, seu peito se enche de orgulho quando olha para o filho e sabe que ele terá um futuro, que um dia ele poderá procurar estrelas cadentes no telhado com seus próprios filhos.

— A Mamãe salvou o mundo?

— Sim, Filho, ela salvou o mundo.

— Então ela é um herói?

— Heroína, meu Filho. A Mamãe é uma heroína.

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Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.
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