Conto | O Mar de Prudence4 min de leitura

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas.

— Um dia nós ainda vamos fazer o maior castelo de areia do mundo — Prudence me dizia.

— Eu quero fazer um maior que o Big Ben! — eu respondia, crente de que isso era possível.

— Você sonha pequeno, Paul. Um dia vamos fazer um maior que o Monte Everest.

As palavras de Prudence chegavam aos meus ouvidos como uma música doce e suave que enchia o meu corpo de alegria. Estar com Prudence era demais.

Ela era a melhor parte das viagens. Eu ansiava os feriados apenas para vê-la.

— Você já pensou como vai ser quando a gente for adulto? — ela me questionava com uma profundidade atípica para uma criança.

— Eu nunca parei pra pensar direito. Os adultos sempre me perguntam isso. Só sei que quero ser escritor. Ou bombeiro. Mas nunca pensei direito nisso.

— Eu quero ser engenheira, que nem a minha mãe. E eu quero ter filhos.

— Eu também.

— Mas se eu for me casar, não quero que meu marido seja que nem o meu pai. Ele e minha mãe só brigam — ela passava as mãos nos braços e nas pernas, quase como se estivesse lembrando de algo através do próprio corpo.

— Acho que todos os pais e mães sempre brigam.

— Mas não deveria ser assim.

— Acho que não tem outro jeito. Pelo menos é o que minha vó sempre diz. Ela me conta que os adultos só conseguem ter paz quando já são velhinhos.

— Eca — ela realmente pareceu surpresa com a minha declaração — imagina que horror!

— Mas se você parar pra pensar — a ideia que estava na minha cabeça era complexa demais para a minha mente aos nove anos — tem horas que os adultos não estão brigando. De vez em quando papai beija mamãe.

 — Eu nunca vi meu pai beijar minha mãe. Deve ser por isso que eles sempre brigam. — Eu percebi que os olhos de Prudence estavam lacrimejando.

— Acho que o beijo dos adultos é que nem quando mamãe dá um beijo nos machucados. É pra sarar.

— Será?

— Acho que sim. — Eu estava intrigado com nosso diálogo. — Quer dizer, eles sempre dão risada depois de um beijo.

— Mas será que o beijo que eles dão também sara os machucados que estão dentro da gente?

— Não tenho certeza, mas acho que sim.

Prudence inclinou a cabeça para perto de mim, me beijou e logo se afastou com os olhos arregalados.

— Desculpa. — Ela levantou chorando e saiu correndo.

Tentei ir atrás dela, mas só ouvi gritos de “quero ficar sozinha!”.

Durante a noite, enquanto eu lia alguns gibis no meu quarto, pude ouvir os pais de Prudence brigando na casa ao lado. Olhei pela janela e vi ela sentada na soleira escrevendo em seu diário, mais uma vez chorando. Dei uma boa olhada para ela e concluí que ela gostaria de ficar sozinha naquele momento.

As noites na praia eram muito quentes e eu sempre tive uma leve inclinação para a insônia. Eu me revirava na cama quando vi as luzes. Meu quarto se tornou um grande misto de azul e vermelho.

Vi os pais de Prudence falando com alguns policiais. Os meus pais foram logo em seguida. A mãe de Prudence só gritava e o pai dela a abraçava. Senti que algo estava errado.

Horas depois minha mãe me chamou na sala. Me contou que Prudence foi ao mar, nadar para o infinito. Antes de ir, só escreveu em seu diário que queria que os anjos fizessem os pais dela pararem de brigar.

Não sei se Prudence foi meu primeiro amor, mas com certeza foi minha primeira amiga. Estar na praia é pensar nela. E hoje, quarenta anos depois, continuo vindo aqui, sempre com uma garrafa de vinho e um turbilhão de memórias. Olho para a minha filha e penso em todas as coisas que Prudence estava sentindo, tentando achar algum sentido, conjecturando se eu poderia ter feito algo por ela. Olho para mim mesmo e tomo o pai de Prudence como o exemplo de tudo que não quero ser. Olho para a minha esposa e sei tudo que devo fazer para que nós não sejamos os pais de Prudence. Olho para tudo que eu sou e penso em Prudence e em como ela estaria orgulhosa de mim.

Não tenho mais a inocência infantil, mas ainda carrego comigo a esperança de um dia poder construir um castelo de areia junto dela.

Cesar Gaglioni

Cinéfilo e nerd, Cesar escreve sobre séries de TV, games e música no Jovem Nerd e escreve sobre todos os outros mundos possíveis em seu tempo livre. Amante do terror e do drama, tem Kerouac como seu ídolo pessoal. Editor do site Oligarquia Pop e um fanático por literatura, está escrevendo “O Fim de Quem eu Fui”, seu primeiro romance.

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