Moscas zunem, em seus voos acrobáticos, próximo do rosto de Oliver, atrapalhando seu breve momento de êxtase. A faca, que antes achava tão pesada, estava firme em sua mão e ansiosa para sentir mais carne cedendo ao seu fio. Ele ainda não havia entendido como obtivera aquela arma, que instantes atrás não passava de um smartfone; por instinto ele compreendia que tudo à sua frente agora poderia ser moldado ao seu bel prazer. Um carro passa pela rua principal e preenche o beco com a luz amarelada do farol e o som metálico de seu motor. O rapaz está pálido, mas junto à palidez sangue escorre pelo rosto.
Estirado a sua frente há um corpo. Sua cabeça foi decepada em um corte preciso, rolando para algum canto mais a frente, e suas tripas jorram para fora, em um volume que extrapolava seu imaginário sobre a anatomia humana, por um corte na barriga do cadáver. A mancha rubra alastra-se em sua lentidão cadavérica pelo concreto. Nesse cenário, que era reconfortante de uma maneira que Oliver não achava possível, restava-lhe apenas uma pergunta: por que havia assinado o maldito contrato? Mas, ele sabia o porquê, apenas queria sentir-se menos culpado por ter gostado daquilo. Tocou o lado direito do rosto, sentindo-o pegajoso. Por poucos milésimos de segundo, Oliver foi cercado por uma leve estática e logo em seguida todo o sangue havia evaporado.
Um tímido arco de prazer formou-se nos lábios da face pálida. As moscas continuavam sibilando. Passos ecoaram naquele beco vazio sem incomodar ninguém.
André Diniz
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