Conto | As crianças que sabiam voar

Por: Dyego Alekssander Maas

Nos fins de tarde, Hans sentava num banco desconfortável que ficava à sombra de uma castanheira na frente de casa, e esperava o ônibus que traria o filho da escola. Como sempre fazia, sentou-se ali meia hora antes e acendeu um cigarro.

Enquanto tragava, o vento gelado castigava seu rosto. Ele apreciava esses momentos em que podia ouvir os pássaros e o balançar dos galhos das árvores. Essa meia hora diária era a parte mais verdadeira do seu dia. Em breve o ônibus chegaria e ele teria de voltar ao seu papel.

Quando enfim o ônibus chegou, Karl desceu cabisbaixo e começou a caminhar na direção da casa a passos largos, fingindo não perceber a presença do pai.

“Karl!”, chamou, odiando a ideia de que o filho o estivesse ignorando de propósito. “Venha cá!”

Quando o menino se aproximou, Hans deu uns tapinhas nas tábuas secas ao seu lado. O menino sentou-se obediente sem encarar o pai.

“E então, vai me dizer o que está te incomodando?” perguntou, tentando esconder a preocupação por trás de um tom bem casual.

Karl levantou o olhar devagar e fitou o horizonte em silêncio. Hans fez o mesmo e os dois permaneceram calados por vários minutos. Então Karl respirou fundo e encarou o pai. Suas palavras saíram um pouco abafadas.

“Tem algo de errado comigo.” Hans não respondeu, dando tempo para o garoto traduzir em palavras seus sentimentos. Enfim, Karl continuou. “Eu não consigo, pai, não consigo voar!”

Os olhos do menino estavam vermelhos e lacrimejantes e por um momento Hans achou que não aguentaria, que logo estaria aos prantos ao lado do filho. Mas esse era um luxo que não podia ter, pois era seu dever aparentar força e confiança inabaláveis.

Hans abraçou o filho com força, e quando ele pareceu estar mais calmo, afastou-o segurando seus ombros com as duas mãos e o encarou com ar muito sério.

“Vou te contar algo que não contei nem à sua mãe, mas vai ter de manter segredo.” Hans piscou e o menino assentiu, parecendo aberto a escutar. “Quando eu tinha sua idade, eu não sabia voar, nem um pouquinho. Eu me achava um completo desastre. E pra falar a verdade, não consegui decolar até o terceiro ano. Você está só no segundo ano, e não tenho dúvidas de que quando conseguir, será o melhor da turma!” Hans percebeu que estava apertando os ombros do filho com muita força, então o soltou.

“Ouça, falei com a diretora da escola há duas semanas. Pelo que sei, nenhum aluno da sua turma conseguiu decolar até agora, certo?” Quieto, o menino anuiu com a cabeça. “Na cidade onde cresci havia várias turmas de jovens promissores, mais do que eu jamais sonharia ser. Havia aqueles que importunavam os mais novos, e comigo não foi diferente. Mas você não precisa se preocupar com isso, não é mesmo? Afinal, nesse vilarejo existe apenas uma turma,” continuou, “ninguém vai fazer piada de você. É só continuar se esforçando que uma hora vai acontecer naturalmente, como acontece para todo mundo.”

“Como foi, pai, quando você decolou pela primeira vez?” perguntou curioso. Hans esperava por essa pergunta há muito tempo e estava preparado.

“Quer mesmo saber? Acho que é por isso que não contei pra sua mãe… eu tropecei.”

“Tropeçou?”. Karl esboçou um sorriso, claramente fisgado pela curiosidade.

“Sim. Eu sei que parece cômico, pode rir à vontade se quiser, mas foi assim mesmo que aconteceu. Eu tinha perdido o ônibus e estava muito atrasado para a aula. Quando cheguei correndo na frente da escola, tropecei no meio fio. Achei que ia dar de cara no chão e quebrar o nariz, mas não aconteceu. Acho que posso dizer que errei o chão.”

A ideia de errar o chão podia parecer contra-intuitiva num primeiro momento, mas era ao mesmo tempo simples o suficiente para ser crível na medida certa.

Ele esperava que o menino fosse cair em gargalhadas ou algo assim, mas ao invés disso o abraçou como nunca antes o havia feito e disse que o amava. Hans foi pego desprevenido e dessa vez não conteve as lágrimas.

***

Na manhã seguinte uma carta muito importante chegou pelo correio. Hans abriu o envelope com um abridor de cartas e Bertha, sua esposa, só precisou de uma olhadela para saber do que se tratava, e ficou feliz pelo marido. A cada ano Hans tinha de fazer uma viagem de negócios em nome da Companhia, que durava de três a quatro semanas. Bertha sabia que em alguns meses seria sua vez, porque também ela trabalhava para a Companhia. Ela, e todos os adultos da pequena Tarleburg, pensou.

Quando Hans desdobrou a carta, um pequeno bilhete escorregou para fora. Era evidente que não fazia parte da documentação oficial da Companhia, então ele o leu discretamente, sem chamar a atenção da esposa. O bilhete dizia apenas: “Podemos acabar com essa loucura! Mas precisarei da sua ajuda. Me encontre no Zur Letzen Instanz em Berlim daqui a dois dias. M.”

Hans amassou o bilhete e o jogou discretamente na lixeira. Quem quer que fosse esse tal de M, havia perdido a sanidade, com certeza. A simples ideia de conspirar contra o Projeto implicava alta traição, um crime punível com a morte. Hans não fazia ideia de como essa pessoa conseguira a proeza de incluir esse bilhete numa carta oficial, mas o que o preocupava ainda mais era o motivo de ser ele o escolhido como conspirador. Imaginou se fora o único a receber uma mensagem como essa, ou se outros teriam recebido algo semelhante? Não, ele fora o único, concluiu, pois espalhar uma mensagem dessa significava correr riscos desnecessários.

Hans não se preocupou de terminar de ler a carta e saiu sem falar nada. Precisava fumar.

***

Hans dormia um sono leve quando Bertha o arrancou do sono aos gritos, puxando com tudo as cobertas. Estava desesperada pois Karl subira no telhado e ela temia que ele fosse pular.

Hans confiava no filho e não achava que ele fosse capaz de tamanha estupidez. Mas se era mesmo assim, por que todo esse desespero, por que, Meu Deus, esse temor, essa urgência? Por que descia a escada pulando degraus e disparava pelo corredor? Era porque no fundo ele sabia que o menino ia pular, e que quando o fizesse, o sangue do filho estaria em suas mãos.

Virou à esquerda no fim do corredor em direção à porta da frente. Mal a atravessara quando um borrão cruzou sua visão periférica. Durou apenas um segundo, mas foi o segundo mais longo de sua vida, seguido de um baque surdo de ossos quebrando na calçada.

Bertha chegou logo em seguida, mas estacou de súbito a uns três metros de onde estava o marido ajoelhado na calçada, tentando desesperado socorrer o filho. Karl estava estendido no chão, inconsciente. Sangue escorria da parte de trás da cabeça e as pernas estavam visivelmente quebradas.

“Pelo amor de Deus, Bertha, venha me ajudar.” A mulher se aproximou e Hans pediu para ela mantivesse o lenço pressionado contra o corte na cabeça do menino. “Cuide do Karl enquanto eu vou buscar ajuda!” disse ele desesperado, e Bertha tomou seu lugar prontamente.

Hans desejou que tivessem um telefone de disco em casa, mas não havia um único aparelho em todo o vilarejo. O hospital ficava a apenas um quilômetro de distância, e ele achava que correndo poderia chegar lá em cinco minutos. Assim, correndo o mais rápido que podia, desejando do fundo da alma que não fosse tarde demais.

***

Hans se odiava por deixar o filho no hospital num estado tão grave. Também compreendia o rancor que vira nos olhos da esposa quando a deixou sozinha com o filho na emergência. Mas acima de tudo, a dor do arrependimento de ter compactuado com esse projeto ridículo o torturava e ele achava que talvez nunca fosse se perdoar por isso. Se tivesse se recusado a participar, imaginava, Karl não estaria sofrendo tamanha pressão para fazer algo que provavelmente era impossível. Ele também não estaria numa cama de hospital, fazendo Bertha sofrer. De alguma forma, agora percebia, acreditava nas palavras daquele bilhete. Estava na hora de acabar com essa loucura!

Voltara para casa para buscar suas malas. Um carro da Companhia o levaria a Berlim, de onde poderia pegar um trem para sua “viagem de negócios”, as férias anuais onde os membros do Projeto podiam visitar suas famílias que viviam no mundo lá fora. Ele gostaria muito de visitar a mãe e a irmã em Dormagen, mas as visitas teriam de esperar, pois ele tinha algo muito importante a fazer.

Berlim ficava a quase trezentos quilômetros ao sul do vilarejo. Dentro de algumas horas Hans se encontraria com esse tal de M. Sua mente fervilhava com possibilidades e uma ponta de esperança brotou dentro dele enquanto idealizava um futuro onde os três levavam uma vida normal, numa cidade normal. Uma vida onde ninguém esperasse que Karl aprendesse a voar. No fim, tudo o que ele desejava era não precisar mais mentir para o filho, nem enganar a si mesmo, fingindo prestar um importante serviço ao seu país.

Enquanto ponderava suas chances, Hans se deu conta de que encontrar-se com M significava entregar seu destino a sorte. Se fosse uma armadilha, provaria sua deslealdade ao Projeto e ao Führer, e certamente encontraria seu fim. No entanto, estava cansado de viver atolado no pântano de mentiras que sua vida acabara se tornando. Decidiu seguir em frente e abraçar a esperança. Arriscaria a própria vida por uma pequena chance de dar ao filho e à esposa a vida que mereciam.

***

Era a primeira vez em sete anos que ao chegar em Berlim não seguiria direto para a estação de trem. Ao invés disso, iria de táxi para um restaurante.

O Zur Letzen Instanz era um restaurante charmoso e bem discreto. Hans pensava já ter ouvido falar do lugar no seu tempo de infância, provavelmente numa das histórias do seu avô. O restaurante era muito antigo e anunciava o fato logo na entrada, onde estava escrito anno 1621 bem ao lado do nome.

Entrou pela porta dupla e sondou brevemente o ambiente. Não havia nenhum cliente, e nem sinal de M. Quanto aos clientes, não esperava mesmo encontrar muitos, visto que já eram quase três horas da tarde.

O local era rústico e as paredes preenchidas por pequenos quadros de locais históricos. Passou por uma mesa redonda para seis e escolheu outra menor mais ao fundo, onde sentou-se de costas para a janela e aguardou.

Duas horas inteiras se passaram e ninguém entrara no restaurante. Hans estava ficando impaciente e um tanto aflito e dúvidas se acumulavam na sua mente. O que ele estava fazendo naquele maldito restaurante, afinal? Estaria usando essa viagem como pretexto para não encarar o sofrimento do filho?

Ele se remoía em pensamentos sombrios quando ouviu a porta da frente do restaurante sendo aberta. Parece que o bilhete não era falso no final das contas, nem seu conteúdo uma brincadeira de mal gosto. Finalmente conheceria a identidade desse tal de M e teria a chance de conhecer suas reais intenções. Sondaria cada detalhe que M pudesse conhecer que pudesse ajudá-lo a levar o filho para longe da cidade de mentirinha que era tudo o que conhecia.

Tão logo a pessoa adentrara o restaurante, Hans se deu conta de que se enganara e que não era M. Era apenas uma cliente do restaurante. Nem por isso deixou de notar a mulher enquanto ela fazia seu pedido no balcão. Era loira e tinha os cabelos amarrados, cobertos por um chapéu branco com uma faixa vermelha, e que usava um vestido preto que descia até os joelhos.

Ela se aproximou rapidamente e sem convite algum sentou-se à mesa dele a sua frente. Seria essa mulher a misteriosa M, ou seria a sorte conspirando a seu favor? Odiou-se por pensar tal coisa num momento tão delicado e decidiu pela primeira opção.

“Não temos muito tempo” disse ela. “Eles podem aparecer a qualquer momento.”

“Eles? Quem?” perguntou Hans, virando-se para espiar pela janela.

“Não se vire e preste atenção, é muito importante!”

“Mas quem é você?” insistiu, já suspeitando que não obteria resposta.

“Escute bem, porque se você decidir me ajudar, não haverá volta.” Hans concordou balançando a cabeça e M continuou. “Você e sua esposa foram enganados, assim como todos os outros casais vivendo em Tarleburg. Mas de certa forma você já sabia, não é mesmo? Que todo esse projeto é uma farsa e não passa de um delírio de velhos loucos. Eles afirmam que estamos fazendo ciência, e que se uma dessas crianças de fato conseguir voar teremos uma prova do verdadeiro potencial ariano.”

“Mas nós estamos fazendo ciência… não estamos?” Mesmo agora, havia dentro dele esse ímpeto de tentar defender o Projeto de alguma forma. Não, não era o Projeto que ele defendia. Era apenas uma forma de justificar todo o sofrimento que causara ao filho. Não queria que tudo aquilo fosse em vão.

“O que quer que o projeto pareça ser, não é. Ao contrário do que eles afirmaram quando convenceram vocês a participar, não há e nunca houve qualquer evidência de que uma pessoa possa um dia voar ou mesmo levitar. Nenhuma criança vai voar. Nunca.”

“Mas então, se é mesmo impossível, por que todo esse esforço para fazer acontecer?”

“Esse projeto foi encomendado por alguns membros do alto comando. Goebbels certamente está envolvido. Seja como for, a natureza do projeto é muito mais política e publicitária do que científica. Sinceramente, qualquer cientista que se preze se recusaria a participar, a não ser que fosse obrigado.”

Por mais difícil que fosse acreditar naquilo tudo, ele sentia que ela falava a verdade. Ouvir aquelas palavras foi como ter seu próprio ego estapeado, e era incrivelmente doloroso confirmar a suspeita de que ele e Bertha dedicaram quase uma década de suas vidas a um projeto que não passava de um capricho de homens dementes.

“E… como vou saber que está falando a verdade?” Ele já sabia, no entanto, que não tinha escolha.

“Não vai. Terá de confiar em mim. Ouça, tem mais uma coisa: o prazo final está se aproximando. Se não houver resultados até lá, eles vão encerrar o projeto, e isso implica destruir qualquer evidência de que tenha existido algum dia.”

Hans entendeu no mesmo instante o que aquelas palavras implicavam. Não era mais uma questão de escolher acreditar ou não na mulher a sua frente, nem de decidir entre conspirar ou voltar a sua vida normal. Simplesmente não havia uma escolha. Ele tinha uma ideia bastante nítida do que a SS era capaz, e a simples possibilidade de que M estivesse falando a verdade tornava irresponsável de sua parte ignorar o problema. Se o fizesse e ela estivesse certa, estaria condenando não apenas sua família, mas também todos com quem convivera nos últimos anos. De qualquer forma, pensou, já estamos todos condenados. Mas talvez eu ainda possa fazer alguma diferença.

“E o que podemos fazer?”

Em poucos minutos, M detalhou o que teriam de fazer. Hans ficou assombrado com a simplicidade do plano. Pela primeira vez em muito tempo tinha esperança de poder mudar as coisas e fazer a diferença. Via uma chance real de sair ileso com o filho e se possível, salvar todas as outras crianças da vila.

Vultos vestindo uniformes escuros passaram rapidamente pela janela e M ordenou que fugisse pela porta dos fundos, que levava a uma área externa do restaurante. Os dois mal haviam passado atravessado a porta quando o esquadrão da SS começou a metralhar o lugar, sem qualquer misericórdia. E foi assim, com o toque final de uma granada de mão, que um restaurante com mais de trezentos anos de história foi destruído para sempre.

***

O soldado conferiu os documentos de Hans no portal de entrada da vilarejo. Hans vestia o  uniforme militar que fora deixado para ele no local exato onde M prometera que estaria, acompanhado de uma pistola Luger. Os guardas que vigiavam o portal haviam sido substituídos no dia anterior, e nenhum deles o reconheceu como Hans Bauer, um dos moradores do vilarejo. Era provável que tivessem visto uma fotografia sua, mas o uniforme militar fizera sua parte melhor do que o esperado. O soldado ficou feliz em ajudá-lo em sua vistoria do hospital e se ofereceu para guiá-lo até lá, oferta que ele aceitou para não levantar suspeitas.

Uma vez lá, foi direto ter com a esposa e a encontrou dormindo na capela. Ajoelhou-se na frente dela e acordou-a com um beijo suave na testa. Bertha ficou muito feliz pelo retorno do marido. Falou sobre como dormira mal nas últimas noites e disse que o filho havia saído da emergência e estava descansando em seu quarto. As pernas de Karl foram engessadas, mas a preocupação maior era que pudesse haver algum trauma permanente por conta da forte pancada na cabeça. Hans a abraçou por muito tempo. Então, sussurrou algumas palavras no ouvido da esposa e foi ver o filho.

Tudo o que encontrou o quarto de Karl foi uma cama vazia. Desesperado, interrogou os poucos funcionários do hospital, mas ninguém o vira sair. Como era possível um rapaz com ambas as pernas quebradas sair de um hospital sem ser notado? E para onde ele teria ido? Certamente não poderia ter chegado muito longe. Apesar de nada nessa vila ser longe, o prédio mais próxima era… a escola!

A vila era realmente muito pequena e tudo nela refletia isso. Havia apenas dezenove famílias vivendo ali, cada qual com sua criança prodígio, ou pelo menos assim acreditavam. Dezenove crianças para salvar.

Ninguém o questionou quando embarcou no ônibus escolar e estacionou na frente da escola. A passos largos atravessou o portão da frente, seguindo pelos corredores vazios. A diretora tentou barrar sua passagem e insistiu que ele deveria ir embora, pois as crianças não deveriam ser perturbadas, especialmente neste momento tão importante. Hans notou um certo tom de reverência na voz da mulher, como se ela acreditasse que o momento tão aguardado chegara finalmente, justificando e validando todos esses anos de trabalho duro. O que quer que estivesse acontecendo, ele precisava chegar rapidamente até as crianças.

Era hora do intervalo e Hans as encontrou no pátio da escola. Estavam todos reunidos num semi-círculo ao redor das mesas nas quais eram servidas as refeições. Karl estava lá com as outras crianças, e em cima de uma mesa havia uma menina. A menina se aproximou da borda e abriu os braços.

“É só errar o chão, certo?”

Hans paralisara. Não acreditava no que os olhos viam.

“Certo!” retrucaram todas as outras em uníssono. E sem hesitar ela pulou com os braços abertos. Não tentou proteger o rosto.

Foi só então que ele notou a poça de sangue que se formara no chão. Seu sangue gelou quando viu no meio da poça algo que parecia um dente. Nesse momento, o peso da mentira recaiu sobre seus ombros como uma marreta estraçalhando um vaso de cerâmica. Ao se aproximar, percebeu que pelo menos duas das crianças tinham o rosto inchado e cheio de sangue. Nenhuma delas chorava. A menina se levantou e voltou para a fila.

Meu Deus, o que foi que eu fiz?, pensou, sem saber o que fazer. Não, não fui só eu. Se essas crianças estão à beira da loucura certamente todos são culpados. Elas devem estar sofrendo uma pressão absurda em casa e na escola! E quanto aos livros ilustrados sobre heróis voadores e todo esse lixo fabricado para alimentar uma ilusão? Como os pais tinham a petulância de fazer isso com os filhos? E de repente, Hans saiu do transe com o som abafado de outra criança batendo no chão.

Ele sabia que a SS estava a caminho e que tinha pouco tempo para agir. Tentou chamar a atenção das crianças, mas elas pareciam não notar sua presença. Se não colocasse logo as crianças naquele ônibus, alguém se daria conta do que ele estava fazendo e tudo estaria perdido. Teria de fazê-las escutar já! Poderia atirar para o alto com sua Luger… assim com certeza ganharia a atenção das crianças, mas também atrairia atenção desnecessária. Ele precisaria usar uma estratégia mais agressiva: uma última grande mentira.

“Crianças!” gritou o mais alto que conseguiu, atraindo a atenção de apenas uma ou duas. “Vocês querem aprender a voar, não é mesmo?” Mais algumas se mostraram interessadas. “Sei que todas vocês são muito inteligentes. Já devem ter percebido que ninguém aqui quer que vocês consigam.”

Todas as crianças se viraram na direção dele para ouvir o que ele tinha a dizer.

“Mas os nossos pais nos cobram todos os dias. E os professores também!” respondeu uma menina. Outras concordaram.

“E por acaso alguma vez vocês já viu seus pais voando? Ah, eu aposto que não. Tudo o que ouviram foram histórias.” Os jovens olhavam uns para os outros, confusos, cochichando baixinho. “E sabem por quê? É porque eles têm medo de serem superados pelos próprios filhos. Eu vi os resultados das avaliações preliminares, e vocês demonstram maior potencial do que qualquer outra geração que veio antes. E agora o destino lhes dá uma chance de mostrar seu valor. Existe um lugar onde eles treinam jovens como vocês para serem os melhores que existem: a Escola de Voo de Berlim.”

Todas elas agora estavam em polvorosa. Ir para a Escola de Voo era o sonho de todas as crianças do vilarejo. Um sonho alimentado por inúmeras ilustrações e descrições nos materiais didáticos que a exaltavam como a melhor de toda a Alemanha, e os professores faziam o mesmo. As crianças também consumiam muitas histórias ilustradas sobre incríveis heróis voadores. Não havia uma sequer que não desejasse conhecer a Escola de Voo, embora muitas delas achassem que nunca seriam escolhidas para estudar lá.

“E eu posso levar todos vocês lá agora mesmo,” continuou, “na verdade, fui enviado pela própria Escola de Voo para buscá-los. Eles precisam vocês lá, e vocês não terão outra chance dessas na vida. Se quiserem aproveitar a oportunidade, é agora ou nunca. O ônibus já está esperando na frente do portão.”

Elas ficaram tão empolgadas com a ideia de conhecer a lendária escola de voo que nem se perguntaram se deviam ir. Apenas correram obedientes até o ônibus, onde Bertha as esperava. Enquanto observava a cena, Hans se sentiu como o Flautista de Hamelin, atraindo todas as crianças da cidade com sua música até a caverna onde as manteria prisioneiras para sempre. Só esperava que no seu caso as estivesse conduzindo para uma vida melhor. O que faria em seguida seria perigoso e voltar atrás não era mais uma opção.

Somente Karl ficara para trás. Com as muletas ele veio lentamente até o pai e o abraçou. Depois de quase um minuto, ergueu a cabeça e disse olhando em seus olhos: “Eu sei que é mentira, pai. Mas não se preocupe, não vou contar para ninguém.”


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Dyego Alekssander Maas. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

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