Conto | O papelão em que me deito5 min de leitura

Costuro o aglomerado ambulante de pessoas até meu destino. Sinto o de sempre. Os olhos julgadores. Será que isso nunca vai parar? O Doutor disse que minha paranoia estava melhorando — bem que sempre achei que aquele merda não sabia de nada. Acho que eles não sabem que os percebo, ou, então, devem estar brincando comigo. Noto, como um por sexto sentido, eles dizendo em suas vozes sussurradas, gozadoras e cacofônicas, “lixo” “escoria” “decepção” “olha como é estranho”. Vejo outros olhares, nas frestas de portas e janelas, suas pálpebras cerradas, que me atingem em golpes cirúrgicos de um bisturi. 

Chego ao mercadinho, está com poucas de pessoas. As outras coisas existem em abundancia. O ar quente cheira a produto de limpeza me sufoca.

Refri. Pão. Queijo e presunto. Tomate. Salgadinhos. Comida de micro-ondas. Cerveja. Pago a mulher do caixa sem dar muita chance para conversa. Inferno. Ela devolve um monte de moedas.

Shua. Shua. Shua. As sacolas batem em minha perna enquanto tento chegar logo em casa. Com o som tentador dos sacos, em questão de segundos me vejo com uma das cervejas do engradado em mãos. Isso sempre ajuda, pensei. Bebo em demoradas goladas para faça o efeito mais rápido.

Inclino a cabeça para trás e deixo o último gole amargo descer pela garganta. Assim que olho para frente, percebo um senhor, sentado em uma fina camada de papelão pardo, com seu braço estendido em minha direção.

— Uma dose para uma entidade fraca? — O sujeito diz com sua voz rouca, cheia de pigarros. Não consigo evitar e dou alguns passos para trás.

Ele usa uma fina camisa, que algum dia foi chamada de branca; um grande jaquetão jeans, com mangas dobradas até os cotovelos, e uma calça tactel tão desbotada quanto a camisa. Possui uma tez amarelada e desgastada pela longa exposição das intempéries do tempo. Em seu rosto, velhos óculos de aviador com lentes azuis espelhadas. Do seu lado, um vira-lata de um cinza sujo que parece estar dormindo.

O homem se levanta, fazendo mais esforço que o normal, como se não mudasse de posição há muito tempo.

— Bom, posso resolver algum problema seu em troca. Se tiver disposto a pagar… — Ele se aproxima, com uma postura firme e impositiva; quase impondo superioridade. — Apesar de que faz bastante tempo desde o último acordo que fiz… — Ele encara algo atrás de mim.

Olho também, mas não há nada. Apenas a calçada vazia.

— Mas que caralho é esse, minha criança? — Ele aponta seu indicador para algo atrás de mim. — Cê tá cheio de peste.

— Peste?

— É — diz ele enquanto coça a cabeça. — Acho incrível como cês simplesmente criam um monte dessas coisas e nem percebem… deixa eu mostrar procê.

Ele estala o dedo e em uma velocidade espantosa toca minha testa. No segundo seguinte, bestas horrendas aparecem ao redor. Depois, as formas animalescas ganham fisionomias humanoides; até se parecem comigo. Com o susto, piso em falso. Na queda, moedas caem do meu bolso e rolam em todas as direções.

Uma moeda de um real bate no pé descalço do homem. Ele pega e a analisa por alguns instantes.

— Sua oferenda foi aceita, criança. — Em um movimento que não consigo acompanhar, a moeda desaparece. — Vou fazer essas criaturas pararem de olhar para você.

Ele senta em meu colo, olhando-me de frente. Minhas pernas amassadas contra o concreto com o peso dele. O Homem segura minha cabeça com mãos grandes e ásperas. Com uma paciência divina, encosta sua testa na minha. Um calor aconchegante se espalha pelo meu corpo e meus pelos se arrepiam. Da sua boca eu esperava mau cheiro e dentes podres, mas apenas identifico algo agridoce e vejo dentes perfeitos.

De repente, sinto um solavanco vindo do umbigo, que me deixa sem forças. O calor esvai e meu corpo fica gelado. O Homem está me deixando? Não quero que isso aconteça, mas não tenho coragem de pedir para que fique comigo por mais tempo. Ele é assim; livre. Encaro o fundo daquelas lentes azuis e um show caleidoscópico me engole. O peso some do meu corpo. As coisas começam a perder a ordem lógica. Escuto o som de minha cabeça batendo no chão. Em seguida, sinto o latejar na nuca. Desmaio.

Sem saber o exato instante em que recobro a consciência, meus olhos abrem. Não faço ideia de quanto tempo passou. A primeira coisa que sinto é a aspereza do papelão em que me deito, apesar de ainda trazer algum aconchego. Em seguida, me dou conta da falta dos olhares. Parece que eu não tenho mais importância para eles, que tanto me perseguiam. Sou insignificante. Mais um papelão jogado naquele chão.

Não importa mais o que o doutor disse. O que importa é o Homem de óculos de aviador azul e nada mais.

Vejo alguém virar a esquina e andar na minha calçada. De maneira automática, estico-me por cima do cachorro – Vou chamá-lo de Fumaça – e pego uma caneca amassada que há ali.

Estendo o braço e peço alguma esmola. O pedestre nem sequer se dá conta de que estou aqui. Passo despercebido. Inatingível aos olhares deles. Os únicos olhos que me vigiam, agora, estão guardados por lentes azuis espelhadas.

Nada importa mais; não acho isso ruim.

André Diniz

Nasceu em Anápolis, Goiás, mas viveu um breve tempo na Irlanda do Norte tentando receber uma carta de Hogwarts. No presente, está em Várzea Grande, Mato Grosso, caçando criaturas místicas das florestas. Apaixonado desde sempre por qualquer tipo de história, segue o lema de sempre buscar as boas para contar. Treinador Pokémon de longa data e um completo medroso para filmes de terror.

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Comentários

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2 comentários em “Conto | O papelão em que me deito

    1. Que bom que gostou, Jair! Espero que continue acompanhando as publicações do CH e que eu continue surpreendendo você nos meus próximos textos.

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