Não notei quando a porta sumiu. Minha esposa e filhos tinham ido para o interior visitar a minha sogra. Demorei um pouco para processar a informação, constatar que onde havia a porta do nosso apartamento agora era uma parede lisa, sem qualquer ranhura. Refiz o caminho quarto-sala umas dez vezes, mas o resultado era o mesmo: estava preso.
Começou como férias antecipadas. Tinha muito trabalho a fazer, concordamos que o melhor era ficar em casa, sozinho. A despensa cheia ia me dar a paz e o tempo que precisava para terminar o livro e deslanchar os novos projetos. Me considerava um bom marido e um pai decente.
O porteiro subiu até o meu andar e pôde comprovar que não havia mais o apartamento 33. Logo, o grupo de WhatsApp do condomínio estava em alvoroço com a situação inusitada. Depois de muito apelo, o corpo de bombeiros apareceu para resolver a situação. Enquanto falava pelo interfone comigo, o Capitão Odair instruía seus homens a derrubar a parede. Era como se areia, cimento e pedra se transmutassem primeiro em concreto, duro e perene, e depois em energia antiga e misteriosa. Horas se passaram e todos se foram, frustrados.
À noite, liguei para a família e contei sobre o meu dia. As crianças choravam copiosamente, minha esposa disse que Deus não me abandonaria e que achava melhor continuar na casa da mãe até a situação normalizar.
Calculei que ainda tinha provisões para uns dez dias. Luz, água e internet estavam funcionando. O deadline para entrega do livro acabava no penúltimo dia. Mergulhei no trabalho.
A programação não se alterou nesse período. Pedreiros, policiais, paramédicos, políticos, padres e pastores se revezavam em frente à minha não-porta. Participei de lives, noticiários e matérias nos principais jornais do país. Virei o assunto do momento e já não falava todo dia com a família.
Mandei o rascunho do livro ao editor e aceitei participar do quadro “Arquivo Confidencial” do Faustão. Não me lembrava de ser tão produtivo na vida e, de uma maneira estranha, passei a desejar que a situação se estendesse um pouco mais.
No 11º dia, as janelas sumiram.
***
No lançamento do meu livro “ID 199.138.0.4”, a live foi acompanhada por mais de 25 milhões de pessoas, divididas em 35 países. Me tornei best-seller mundial. Com a venda dos direitos autorais pude pagar outra casa para minha família, assim como a continuidade dos estudos das crianças.
A demanda por novos conteúdos que explorassem minha condição só começou a diminuir depois de cinco anos. Desse período temos “A trilogia do não”, uma série pra HBO com quatro temporadas e três filmes. Foi, então, que resolvi parar e comecei a recusar entrevistas e deletar as redes sociais. Eu tinha adquirido mais livros na plataforma da Amazon do que algumas bibliotecas de cidade pequena. Avisei a família e decidi me ensimesmar.
***
A despensa vazia não me fez falta, há muito me alimentava de cliques, bites e prints. Ao meu redor, todo o resto criou marcas. A cama, o sofá, o chinelo e as roupas me lembravam que o tempo estava passando. Tentei lembrar de como era o sol cobrindo a pele melaninada; as ondas do mar banhando os pés rachados como canela em pau; os cheiros que preenchiam a vida em qualquer lugar. Já não bastava falar sobre o passado, até minha voz dava sinais de encurtamento.
Recebia as fotos da vida lá fora como quem joga pedras num lago e observa as ondas se formando e sumindo. Partes de amor, partes de dor, a pobre bricolagem da memória aguerrida que teima em existir.
***
Um dia chegou a notícia de que a estrutura do edifício estava comprometida e precisariam demolir. Grupos pró-vida cercavam o prédio e protestavam contra decisão municipal. Religiosos exigiam a minha beatificação, um mártir da abnegação. Novamente, era o assunto do momento. Minha família era de netos e bisnetos que já me conheceram por tela.
Um dia depois da demolição, acordei e encontrei uma porta desenhada onde era parede lisa. Fiz o teste e a maçaneta rabiscada girou, a porta rangeu e aos poucos se abriu. O corredor estava vazio. Sem portas, teto e piso. Apenas uma ausência densa e sufocante, preenchida de silêncio e solidão. Um quadro negro sem inscrições, professores ou propósitos. E finalmente me permiti chorar, mais como um grito sem som. Como um cinema mudo as imagens da minha vida apareciam e sumiam. Helena, as crianças, nós.
Entrei no meu apartamento sem janelas, fechei a porta e apaguei o desenho. Gargalhei e solucei até não mais distinguir entre os dois. Até não mais ser alguém.
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