Conto | Os Homens Que Apagaram as Estrelas do Céu12 min de leitura

A definição era baixa, mas a veracidade do vídeo era inquestionável. As imagens bidimensionais mostravam uma gravação holográfica de uma realidade que não condizia com a História. Eva recebera o vídeo em uma mensagem anônima há alguns minutos. A mensagem terminava com um convite para encontrar sua fonte naquele mesmo dia no topo da Huxley Tower. Deveria ir sozinha.

Eva era uma repórter num mundo de paz desprovido de pobreza, onde não eram as tragédias diárias que dominavam os meios de comunicação, mas a celebração de conquistas e realizações de uma sociedade essencialmente feliz. Era um tempo onde tensões políticas esporádicas ainda acompanhavam os movimentos éticos da sociedade, mas as grandes crises eram coisa do passado. Ainda assim, as pessoas continuavam humanas e tão capazes de loucura e violência como sempre o foram.

Quando terminou de assistir ao vídeo pela primeira vez, suas mãos tremiam ritmadamente. O vídeo era breve e ela não compreendia realmente seu conteúdo, mas se convencera de que era algo grande, que estava diante de algo muito maior do que qualquer história publicada por um jornalista vivo. Se o sujeito estivesse falando a verdade, talvez essa fosse a maior história de seu tempo, aquela que projetaria suas sombras sobre todas as outras que estavam por vir.

Mas para isso precisaria de provas.

***

Apesar de ter sido construído há mais de trezentos anos, o Huxley Tower era um dos prédios mais altos do mundo, com mais de um quilômetro e meio de altura. O elevador galgava rápido as centenas de andares enquanto Eva enxugava com a manga do casaco as gotículas de suor que via através do espelho. Com a outra mão enfiada no bolso do casaco segurava um spray de pimenta.

Ela sabia que estava para fazer algo perigoso e até irresponsável, e que colocaria a própria vida na balança. Só esperava que seu palpite estivesse certo e que o risco valesse a pena.

O elevador só alcançava o último andar. Ela seguiu para o terraço através das escadas e conforme o esperado, as portas estavam todas destrancadas. Lá fora o vento era forte e gelado e um sujeito a aguardava em silêncio. Ele estava de costas para ela, sentado numa cadeira de descanso, apreciando o pôr do Sol. Ele fez sinal para que ela se juntasse a ele.

A noite já alcançara a base do prédio, mas ali em cima eles ainda tinham alguns minutos para apreciar a vista magnífica da estrela que se escondia no horizonte dourado a oeste. Não muito longe dali, Phobos atravessava o céu apressada na direção oposta.

— Sempre me considerei um historiador, sabe? — começou o homem. — Ah, como era divertido passar os dias investigando o passado, buscando discrepâncias na nossa História e no discurso dos Poderes, sempre com o intuito de gerar polêmicas. Gosto de polêmicas.

— E você seria…? — Eva agora podia ver o rosto dele, mas não o reconheceu.

— Ah sim, que falta de respeito a minha. Muito prazer, Adam. — Ele não se levantou, mas ofereceu a mão para que ela a apertasse.

— Eva. Mas é claro que você já sabe disso — respondeu, apertando a mão dele. — Então… você é o famoso Adam Rudolph Smith? — perguntou, já sabendo a resposta, pois a fala dele o denunciava. — Li alguns dos seus trabalhos. Eles são bastante… imaginativos, eu diria.

— Não precisa ser bajuladora, senhorita Eva Morgan — disse sorrindo. — Sei que você não leva o meu trabalho a sério, e tem toda razão em pensar assim, afinal, eu sou o cara que vive de conspirações mirabolantes, de histórias que perspassam os mais altos níveis do governo e coisas do tipo. É um trabalho interessante.

— Disso não tenho dúvidas. Mas eu gostaria de saber um pouco mais sobre o vídeo, se não se importa.

— Claro, claro, o vídeo. Não se preocupe, muito em breve terá o que veio buscar. Mas antes preciso mostrar uma coisa para você. — Olhou em seu relógio de pulso. — Está na hora.

Levantou-se da cadeira e buscou num canto um aparelho estranho de um tipo que ela nunca tinha visto. Era uma espécie de cilindro, um pouco mais largo numa ponta que na outra, e que ficava apoiado num tripé de madeira. Ele o posicionou em frente as duas cadeiras e regulou o aparelho de modo que agora parecia mirar um ponto bem específico no céu.

— O que é isso? — perguntou curiosa enquanto ele ajustava o aparelho. A noite finalmente os alcançara e a escuridão os abraçou.

— Venha, é só olhar bem aqui, assim.

Ela se aproximou e apesar da leve desconfiança olhou pelo aparelho.

— Não vejo nada.

— Continue olhando, só mais alguns segundos.

— Espere, estou vendo uma coisa. É uma luz bem fraquinha. O que é isso?

— Aquilo minha cara, é uma estrela.

— Sumiu! Como assim, uma estrela? Só existe uma estrela, o Sol. Todo mundo sabe disso.

— E essa, minha cara, é a história: os homens que apagaram as estrelas do céu! — exclamou, descrevendo um grande arco com a mão direita, num gesto de grandeza. — Com certeza vai dar um ótimo título.

— Você está começando a soar tão ridículo quanto as suas histórias.

— Se é assim, então por que você ainda está aqui?

Eva não respondeu.

— Muito bem então, sente-se. Vamos começar pelo começo.

Ela retomou seu lugar, enquanto ele permaneceu de pé para contar sua história.

— Era uma vez um mundo onde havia muitas culturas, cada uma incrivelmente diferente das outras. As diferenças eram tamanhas que frequentemente entravam em conflito e muitas vezes resultavam em guerras.

— Guerras?

— Guerras são… bem, são disputas armadas. Quando a diplomacia falhava, guerras eram travadas. Morria muita gente. Milhares, talvez até milhões de soldados e civis. Seja como for, não é uma coisa que gostaríamos de ter por aqui.

— É bem difícil imaginar tamanha barbaridade. E o que tudo isso tem a ver com o artefato?

— Absolutamente tudo. O artefato existe há muito tempo, é quase tão antigo quanto esse mundo. É um presente por parte daqueles que, como nós, não suportavam a ideia de enterrar a verdade. O artefato que você viu no vídeo contém um registro holográfico de um mundo que não é o nosso.

— Você percebe o que está dizendo? Que o Sol não é a única estrela? Que Marte não é o único mundo que existe?

— Olhe para o céu e contemple a escuridão. Os dois únicos pontinhos pálidos que vemos são nossas duas luas, Phobos e Deimos. Mas nem sempre foi assim.

Ele tirou do bolso o pequeno artefato e o posicionou numa mesinha próxima das cadeiras. Com um gesto de mão o ativou e um show de luzes os envolveu. Era a coisa mais maravilhosa que Eva vira em toda sua vida. No centro do holograma havia um pequeno planeta. Grande parte dele era azul. E havia também uma lua que não era pequenina como as nossas, mas uma aberração monstruosamente grande.

— Essa é a Terra, o mundo de origem da raça humana, onde a nossa história começa — apontou como um apresentador fazendo a entrada de um show —, e esse — gesticulou mostrando o veio leitoso da Via Láctea — é o nosso verdadeiro céu. O céu que nos foi negado.

Eva caminhou até o centro do holograma e vislumbrou maravilhada o céu que era projetado ao seu redor. A vastidão escura e vazia que antes dominava o zênite celeste fora preenchida por milhares, não, milhões de pontinhos luminosos, pequenas estrelas no céu. Elas deviam estar muito, muito longe… E assim, de repente, seu universo se expandiu.

Ela voltou sua atenção ao Sol que gigante dominava a cena, banhando com a sua luz não um mundo apenas, mas vários, uns pequenos e outros muito grandes. Notou que somente um deles tinha o céu azul, aquele que Adam apresentara como sendo a Terra, o mundo de origem. Eva estendeu a mão como se pudesse tocá-la. Adam mexeu nos controles e o sistema solar sumiu.

Em seu lugar, uma série de vídeos bidimensionais parecia representar momentos históricos que não faziam parte da História: soldados corriam para sua morte ao sair de valas cavadas no chão enlameado; milhares de pessoas assistem emocionadas ao discurso inflamado de seu líder; enormes máquinas que andavam sobre correias destruíam prédios inteiros com um único disparo; corpos e mais corpos eram jogados em valas ou queimados; uma gigantesca explosão em forma de cogumelo. Eva não estava preparada para tamanha barbárie, e teve de fechar os olhos por uns instantes para não vomitar.

Enfim, forçou-se a continuar assistindo. Os vídeos seguintes eram em sua maioria coloridos: uma máquina gigantesca sobe em direção ao céu; um homem numa roupa estranha finca uma bandeira num mundo desprovido de cor, a lua daquele mundo, a julgar que a Terra parecia estar visível no céu; duas torres gêmeas são atingidas por aviões; mais um vídeo de um homem fincando uma bandeira, só que desta vez num mundo vermelho como a ferrugem.

O vídeo agora avança mais rápido, e os segundos compreendem décadas. O céu começa a mudar de cor, primeiro para um tom esverdeado, e depois para o azul muito vivo que ela conhecia tão bem. As primeiras cidades surgiram e prosperaram. E então o céu apagou.

As luzes do holograma se apagaram e eles foram envolvidos pela noite. Eva permaneceu imóvel. Como deveria reagir a isso?

— Sei como deve estar se sentindo… descobrir que toda sua vida foi construída em cima de uma mentira, e que toda a História que conhecemos não passa de um grande castelo de cartas. Uma rede de mentiras construída cuidadosamente para garantir uma sociedade estável, livre de todo o peso dos crimes de um passado distante. E o mais importante, uma sociedade livre para acreditar que o seu mundo é o centro do universo.

— E o que você quer que eu faça? — perguntou ela, saindo finalmente do transe.

— Sei que você chegou aqui atrás de uma história, mas não fazia ideia do escopo da verdade. Eu quero que você faça aquilo que não tenho a coragem de fazer. Quero que destrua esse mundo de mentiras.

— Então você quer que eu… publique tudo isso?

— É assustador, não é? Saber que por sua causa governos vão cair e pessoas vão morrer. Que talvez tenhamos guerras…

— Você é um historiador. Por que não publicar você mesmo?

— Minha carreira é uma grande piada. Ninguém me leva a sério. O que eu produzo não passa de entretenimento, e mesmo que eu publicasse, a história não teria a potência necessária. Por isso eu preciso de você.

— Tem algo mais, não é mesmo? — ela perguntou, começando a perceber as implicações do que ele dizia.

— Como eu já disse, não tenho a coragem necessária. Acho que isso faz de mim um covarde. Além disso, não quero ser o responsável pelo fim de tudo isso. — Ele levantou as mãos na direção da cidade. — O mundo é um lugar bom, afinal.

— Mas ainda assim não suporta a ideia de manter a verdade enterrada…

— A minha vida acabou. A minha carreira foi destruída no instante em que pus as mãos nesse artefato. Tudo que estudei e produzi perdeu seu valor quando descobri a verdade. Talvez você venha a se sentir assim também. E ainda assim, mesmo sem ter mais nada a perder, tenho medo do que pode vir a seguir. Ideias são como ervas daninhas. Se você deixar que se espalhem, é impossível voltar atrás. Tenho medo de abrir a Caixa de Pandora e estar vivo para vislumbrar as consequências.

— Se a verdade é assim tão perigosa, por que você quer tanto que seja publicada? Você assistiu aos vídeos, e o que eles mostram é que o passado está cheio de guerras e violência. Talvez nossos antepassados tenham agido certo afinal, apagando esse passado horrível da memória.

— Tem algo mais que os vídeos nos mostram, se prestarmos atenção: que a humanidade não deixou para trás apenas a parte ruim do seu passado, mas algo mais, uma parte importante de quem somos. É verdade que conquistamos a paz e a prosperidade, mas a que custo?

— Você está falando das estrelas no céu?

— Estou falando de muito mais do que isso. O que quero dizer é que nossos antepassados da Terra eram exploradores. Que quando eles olhavam para o céu estrelado à noite eles viam possibilidade. Talvez pensassem para si “um dia visitaremos as estrelas”, e de fato eles o fizeram! Eles colonizaram nosso planeta vermelho, e foram traídos no final. Seus feitos apagados da memória assim como as estrelas do céu. E o nosso espírito explorador foi perdido no caminho, nosso potencial de ir muito mais longe, de alcançar o desconhecido!

— E mesmo assim você não tem coragem de publicar? — perguntou incrédula depois de ouvir um discurso tão apaixonado.

— Algumas pessoas não têm a força necessária para mudar quem são.

— E o que o faz presumir que eu o farei?

— Porque eu sei que você não sabe viver de outra forma. Ir a fundo e colocar a verdade lá fora onde todos possam ver é o que você faz. Faz parte de quem você é.

— E se eu me recusar?

— Seria uma pena, porque você é a única esperança desse mundo.

— Como assim? O que voc… Não! — gritou, mas já era tarde demais. Adam pulara, e quando ela olhou pela beirada, ele ainda caía. Não teve coragem de olhar até o fim.

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Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.
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