Conto | Um Levante na Noite8 min de leitura

Havia uma goteira no abrigo. Uma goteira insistente que, mesmo após a tempestade ter se dissipado, persistia. Itta contava as gotas que caíam e agradecia internamente por aquela ser a única goteira. Nas últimas chuvas, o teto quase cedera e tiveram que passar muito tempo substituindo a madeira velha, que cobria o local abafado sem janelas e com portas reforçadas. Seu abrigo e prisão nos últimos três anos.

Ela rolou no chão de terra batida, procurando uma posição menos desconfortável. O dia fora longo. Os capatazes os fizeram trabalhar além do horário, pareciam ter pressa em extrair os minérios. Muita pressa.

As mãos de Itta estavam feridas. Uma bolha explodira entre o polegar e o indicador e ela atara uma fita velha e suja para continuar trabalhando. Agora, a fita estava grudada na pele dela e a secreção seca tornava impossível soltar a faixa sem gritar de dor.

Ao seu lado, Ross dormia um sono inquieto. Ele se revirava e chutava e resmungava algo que Itta não entendia. Ela estendeu a mão ferida e tocou a cabeça do garoto com a ponta dos dedos. Um formigamento passou pela mão dela e imediatamente o menino relaxou, as pernas pararam de chutar e, apesar do chão duro no qual dormiam, começou a ressonar baixinho. O peito esquelético subia e descia devagar, e até mesmo a sombra de um sorriso passou por seus lábios rachados. Itta também sorriu.

Ela pensou na primeira vez que vira o menino, no Dia da Invasão. Ross, a ajudara a fugir do castelo e se misturar aos plebeus, enquanto os Cratts assassinavam todos os membros da sua família. Itta seria grata para sempre por ele a ter encontrado. Ela conseguiu escapar de ser morta, mas não da servidão. Assim como todos os sobreviventes do seu povo, Itta era uma escrava dos Cratts. Nos últimos anos havia presenciado todo tipo de tortura, mas eles não descobriram sua verdadeira identidade, caso contrário, já estaria morta. Ela começava a se questionar se isso era algo bom.

Itta não temia a morte. Não mais. Temia sim, a manhã. Quando as trombetas soavam assim que o sol surgia no horizonte, ela se encolhia por um minuto antes de se levantar, imaginando quem entre os seus ela veria sofrer. No dia anterior, o menino Cam fora espancado até perder os sentidos, apenas por ter pedido um pouco mais de água. E, antes disso, a execução de Tracy diante dos olhos estarrecidos de todos, fizera Itta desejar ter sido morta no primeiro dia de cativeiro.

Ela se sentou no escuro. Podia ouvir os sons dos outros dormindo. E a goteira insistente. Apesar do cansaço, sua mente estava alerta. Um cheiro pungente invadiu suas narinas, cheiro de morte, como ela descrevia para si mesma.

Seus sentidos, mais apurados que os de qualquer outra pessoa, a alertaram; alguém estava vindo. Ela era capaz de ouvir os passos pesados, as conversas sussurradas, até mesmo os corações batendo rapidamente.

Não teve tempo de se preparar. As portas, grandes e pesadas, foram abertas de uma vez. Os guardas entraram marchando e, logo atrás deles, o capitão. O sangue de Itta gelou, suas pupilas se dilataram e o coração parou por um segundo antes de voltar a bater, acelerado.

O capitão sorria enquanto caminhava entre os escravos, acordados aos pontapés e gritos. Itta olhava para ele com olhos injetados de ódio, a lembrança vívida do chicote estalando em suas costas, repetidas vezes, enquanto ele sorria. O capitão gostava de usar o chicote.

Uma menina choramingou, mas ninguém a consolou. Estavam todos amedrontados demais para se mexerem. Sabiam o que viria a seguir: a cada volta da lua o capitão ia ao abrigo e escolhia uma companhia entre os mais jovens escravos, geralmente meninas, mas não raro se servia de meninos. A vítima era levada ao alojamento do capitão e, do abrigo era possível ouvir gritos e lamúrias distantes.

Itta encolheu-se tentando ficar o mais invisível possível. Olhou para o lado e notou que Ross ainda dormia, apesar de toda a comoção causada pela entrada dos guardas. Ela o tocou, tentando acordá-lo sem fazer barulho. Mas o sonho que ela lhe dera, ao tocar a testa do menino, era uma doce lembrança, doce demais para ele deixá-la ir sem protestar. Ross acordou com um rompante, soltando um gemido doloroso.

Todos olharam para ele. Inclusive o capitão.

O homem virou a enorme cabeça em direção aos dois. A face era deformada por uma cicatriz que ia do olho até o queixo. Caminhou com passos rápidos e precisos. E o sorriso ainda no rosto.

Ross, que estava sentado, encolheu-se próximo a Itta, quando o capitão se aproximou. Itta apertou a pequena mãozinha de Ross com força.

— É este. Leve — disse o capitão, depois de cheirar o pescoço do garoto e estalar a língua com deleite.

O menino gritou e se debateu, mas um soldado o golpeou e o jogou sobre os ombros como se ele não pesasse mais que uma pena, enquanto todos se dirigiram para as portas.

Itta foi tomada por um tremor, a mão ainda tentava alcançar Ross. Sua última gota de esperança estava sendo levada para longe. Seu companheiro, salvador e amigo seria torturado e morto. E ela não permitiria que isso acontecesse.

Ela se levantou e correu em direção a eles. Alguém a segurou pela cintura e a jogou para trás. Um segundo depois, as lanças estavam apontadas para ela. Todos estavam parados, encarando-a, inclusive o Capitão. O sorriso zombeteiro havia desaparecido do rosto dele.

— Soltem ele — Ela falou entre dentes.

Mas ninguém se mexeu.

— Uma escrava não se levanta contra o seu senhor.

A voz do capitão era ameaçadora. O tom grave e lento, quase um sussurro, a tornava mais sinistra que o silêncio que se seguiu. Durante alguns instantes o mais leve suspiro podia ser ouvido como um estrondo.

Então, uma lança voou na direção da garota e Itta mergulhou rápida e graciosa, como se houvesse nascido para aquilo, como se o fizesse a vida toda.

E foi aí que começou.

Em um segundo ela estava em cima do primeiro guarda. Suas mãos calejadas torceram o pescoço dele antes que pudesse perceber. Quando o primeiro grito de alarme surgiu ela já rasgava a garganta de outro guarda. O capitão buscou o chicote em seu cinto, mas ela já libertara Ross. Deixando mais um guarda sem vida, no chão.

O Capitão dos Cratts enfim a reconheceu. Ele estava diante da princesa, aquela que todos julgaram ter sido morta no Dia da Invasão. Perdida para sempre, lhe disseram, mas, agora, via que isso não era verdade. Ela estivera ali o tempo todo, ao alcance de suas mãos. E parecia escapar neste momento como areia por entre os dedos.

Ele gritou, furioso, sedento por vingança. Fez o chicote descer sobre ela. Mas ela era Itta, a princesa de Fuesta, e seus dons eram conhecidos por todo o mundo.

Um golpe foi tudo que ela precisou para desarmá-lo e, então, estavam cara a cara.

Itta podia sentir o ódio dominando-a. Podia sentir o sabor do sangue inimigo em sua boca. Ele tentou falar, mas ela não permitiu. As unhas haviam se tornado aço, e um poder que ela acreditava ter perdido no dia de sua prisão, retornava, agora, maior e mais potente do que nunca.

Ela não sorriu, quando abriu o peito do capitão dos Cratts apenas com as mãos. Queria que ele tivesse medo, que sentisse toda dor da mesma forma que o seu povo sentiu.

Toda a ação não durou mais que alguns segundos, e, ao olhar para os outros, Itta se deu conta do que acabara de fazer. E começou a se contrair, os braços ensanguentados apertados em volta de si mesma, os olhos buscando desesperadamente por uma saída, uma justificativa. Recuou até suas costas baterem contra a parede maciça. Então, uma mão tocou o seu cotovelo fazendo-a saltar.

— Está feito. Não tenha medo, pois estamos ao seu lado.

Era uma senhorinha que falava com voz embargada. O sorriso dela era tudo que Itta precisava naquele momento. Os outros, homens e mulheres, cansados e amedrontados, mas orgulhosos de sua princesa, lançavam olhares de incentivo para ela.  Ela encarou seu povo de frente e elevou a voz pela primeira vez em três anos.

— Vocês devem correr. Devem fugir antes que soem o alarme. Vão até as montanhas do leste. Lá estarão seguros.

— Mas e quanto a você, Itta?

Desta vez era Ross quem lhe tocava o braço. As lágrimas deixavam marcas na sujeira do rosto infantil. O estômago de Itta se retorceu e ela quase reconsiderou sua decisão. Mas ela sabia se algum dia houvesse a chance de fazer algo pelos seus, não hesitaria. Abraçou seu bom amigo com força e elevou a voz novamente. Como era bom falar alto, como era bom ser ela mesma.

— Eu vou ficar. Vou esperar por eles.

Ross foi o último a atravessar o portão. Os olhos deles se cruzaram rapidamente antes que o menino corresse para a segurança da floresta. Itta respirou profundamente, as mãos dormentes do trabalho escravo, eram fortes de novo. Ela se sentou no centro do abrigo. Pernas cruzadas uma sobre a outra, postura ereta, uma poça de sangue alheio ao seu lado. Ela ainda ouvia a goteira, muito distante. Assim como o alarme dos guardas. Itta sorriu na escuridão.

— Vou esperar por eles.

Tiara Gonçalves

Mineira que trocou o norte de Minas Gerais pelo interior de São Paulo, Tiara é analista fiscal e apaixonada por números e palavras. Deixou a literatura tomar conta de sua vida nos últimos anos. Escreve principalmente sobre magia e fantasia, pois acredita que é preciso sonhar e fugir (um pouco) do mundo racional. Quando não está envolta em decifrar nossa complexa legislação tributária, gosta de levar o filho, Pietro, para dentro de suas histórias, lugar onde constroem castelos e matam dragões, porque todas as crianças merecem se aventurar por mundos mágicos.

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