Conto | Mas é pavê ou pá…6 min de leitura

Precisei abrir o primeiro botão da calça. Naquele ritmo, terminaria a noite mais obeso do que o leitão que devoramos. Largado para trás, começava a achar a cadeira o local mais confortável do mundo. O calor, tão comum em dezembro, era ainda pior com o estômago cheio. Meus movimentos eram letárgicos e suor escorria em grossas gotas. Seria culpa do vinho ou daquela lerdeza após uma refeição farta?

Não dispensava atenção a mais nada. Não que não quisesse, mas era simplesmente impossível. Estava curtindo aquele momento único de contemplação, perdido em pensamentos, sentido a barriga cheia e hipnotizado pelas luzes que piscavam coloridas do lado de fora da janela. Não dava para responder à tia que perguntava sobre “as namoradinhas”, ou ao pai pedindo que fosse buscar mais uma cerveja, nem ajudar a avó que trazia mais uma pesada travessa de alguma guloseima. Pelo amor de Deus, não cabe mais nada aqui dentro! Dava tapinhas pouco acima do umbigo esperando que houvesse algum alívio. Os primos menores, correndo e gritando pela casa, me perguntavam alguma coisa com insistência. Eles, eu fazia questão de ignorar.

— Que horas ele vem? Que horas ele vem?

Também me perguntava se faltava muito para a meia-noite. Não me interprete mal. Sei que estou parecendo um velho ranzinza, mas a verdade é que adoro essa época do ano. Pode acreditar em mim. Os piscas enfeitando os edifícios enchem os meus olhos, o vermelho, uma das minhas cores prediletas, e sempre tão bem combinado com o dourado deixa tudo com uma aura mais feliz. Como eu curtia brincar com as imagens do presépio quando era menor. Até mesmo a lotação excessiva na casa da vó me satisfaz de alguma maneira. Claro, nestas reuniões não tenho muito onde me esconder quando a cabeça ferve e sou obrigado a dormir na sala sem o conforto de um quarto só meu. Fico completamente deslocado. Mesmo assim, adoro ver toda a família reunida. O coração cheio compensa o nervoso que sou obrigado a passar. Bem, eu irei me convencer disso depois que tudo acabar e estiver no silêncio do carro voltando para São Paulo. Todo ano é assim. E família é assim mesmo, não é?

O barulho da televisão se sobressai por um segundo e a já conhecida vinheta de fim de ano penetra no meu cérebro, fixando-se com seus longos e pegajosos tentáculos. “Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou…” Pronto, deu-se a desgraça. Agora ficarei com essa música maldita na cabeça até que seja substituída pela igualmente insuportável “Vem, pra ser feliz (Pra ser feliz). Eu tô no ar, eu tô beleza. Eu tô que tô legal.” Caramba, pessoal do plim-plim, vamos mudar isso ?

Melhor não ficar pensando em jingles que não saem dos pensamentos.

Bruuuup.

Pronto; mais um épico e providencial arroto do meu tio para pontuar a noite e me fazer parar com o cantarolar mental em que me perdia. Estou sentado de frente para ele e, graças ao ventilador na potencia máxima (meu avô sofre com o calor mais do que mulher na menopausa), sou favorecido e recebo aquele hálito quente com cheiro de embutido azedo. Vó, a senhora serviu mortadela ao invés de tender! Jesus!

Minha cara de ultrajado não o inibe, pelo contrário, arranca-lhe uma sonora gargalhada. Mais arrotos virão, tenho certeza.

— Já está na hora? — uma das crianças pergunta.

Olho para o relógio e ainda são dez horas. Pela frente, vejo longas quatro horas até que possa me esticar no sofá e dormir o sono dos justos. Vamos aguardar a meia noite e ver quem será o fantasiado deste ano – normalmente é o meu pai. Vamos esperar com expectativa pela entrega dos presentes. Depois de toda alegria, alguns fingimentos de surpresa ou de satisfação – nem todo mundo é bom em acertar o desejo dos outros. Vou ganhar aquele livro que pedi ou o jogo que estou aguardando. Infelizmente, a vontade de dormir é maior. Foi uma semana cheia. Só irei curtir meus presentes amanhã. Sim, fico desejando que o relógio acelere e, pela manhã, estarei desejando pelo próximo dezembro, um pouco arrependido de não ter curtido tanto quanto deveria. Eu realmente gosto dessa época e acabo sentindo falta de todos esses malas.

— Meninos, eu trouxe o pavê.

Não vó, não faz isso. A vejo vindo da cozinha com o refratário em mãos, toda faceira e orgulhosa de seus dotes culinários. Por que a senhora faz isso, vó? Por quê? Precisa anunciar o prato desse jeito? Guarda o nome pra senhora.

Ela coloca a travessa no centro da mesa. Eu me preparo e meu semblante clama desesperado pelo bom senso ao encarar o meu tio. Ele sorri de maneira travessa e não se contém.

— Mas é pavê ou pá…

Não aguento. Não resisto. Não me controlo. A faca usada no leitão foi providencialmente esquecida bem ao alcance da minha mão. Sou rápido e ele está perto. Agarro o cabo assim que ele abre a boca e num movimento único e magistral a lâmina corta aquele pescoço roliço e rosado antes que ele possa terminar a piada de todos os anos.

Minha avó grita desesperada e desmaia. Meu avô e meu pai saltam de seus lugares sem saber a quem socorrer primeiro. Sei que o restante dos parentes me fulmina assustado e enfurecido. Mas eu só consigo encarar aquele par de olhos esbugalhados. Sorrio. Dever cumprido. O sangue verte do corte e aquelas mãos gordas tentam conter o sangramento. Vejo pequenas bolhas de ar escapando da traqueia dilacerada toda vez que ele inspira. O sangue esguicha e escorre manchando a toalha branca. A cor tem tudo a ver com a decoração. A regata do meu tio também está empapada e seu olhar já se tornou opaco, perdido na imensidão do infinito. Será que ele está vislumbrando a Estrela de Belém? Não dá tempo de perguntar. Aos poucos ele esmorece e vai ao chão. Enfim suas gracinhas acabaram. Sucesso. Nunca mais ouvirei aquela mesma piada repetida.

— Mas é pavê ou pá cumê?

A voz dele me traz de volta. Meus olhos deixam de encarar a lâmina engordurada e fitam o meu tio. Ele está radiante, feliz consigo mesmo. Você conseguiu mais uma vez, tio. Dou um sorrisinho forçado. Finjo ter curtido a graça. Tudo bem. Em nome da harmonia e felicidade familiar, vou relevar mais essa. Eu poderia realmente ter te matado tio, mas ainda me sobram 364 dias para fazê-lo, afinal, hoje é Natal, melhor não estragar a magia.

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.

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