Artigo | Distopias Incríveis4 min de leitura

Antes de iniciar a leitura de um romance fantástico, o leitor estabelece um acordo tácito com o escritor: ele se dispõe a acreditar que quaisquer eventos ou personagens são possíveis desde que o escritor estabeleça regras tornando aquele universo crível dentro do proposto. Trata-se de um pacto que, se quebrado, dificilmente poderá ser restaurado.

Nas distopias – futuro normalmente marcado pela presença de um governo de extrema opressão – essas regras não escritas estão intimamente ligadas à construção de um mundo que faça sentido a partir da realidade que vivenciamos hoje. Em outras palavras, não basta apresentar ao leitor uma situação extraordinária se o pano de fundo não for convincente. A não ser que o leitor enxergue a história acima desses problemas ou não os perceba. Existem romances distópicos cujas histórias tiveram apelo suficiente para que os fãs as aceitassem de bom grado mesmo com o oferecimento de argumentos pouco consistentes.

No mais famoso desses casos, a série Jogos Vorazes (The Hunger Games), Suzanne Collins coloca jovens se digladiando por imposição de um governo totalitário e genocida. Apesar da obra também ser marcada pela crítica social, acreditar que uma sociedade aceitaria ver crianças sendo retiradas de suas famílias para se enfrentarem até a morte com o objetivo de satisfazer um show midiático requer uma suspensão de descrença acima do normal. Felizmente para a escritora, o drama da destemida Katniss Everdeen combinado com a era do empoderamento feminino transformaram a saga num gigantesco sucesso.

Não se trata, neste espaço, de julgar o valor de Jogos Vorazes, mas apenas partir do pressuposto de que as distopias deveriam possuir uma base mais crível como futuro da humanidade. Ponderemos que a mesma história poderia ter sido contada, com poucas mexidas, sem prejuízo de sua carga dramática. Para tanto, bastaria tomar elementos atuais como o avanço da política ultradireitista nos Estados Unidos e na Europa para justificar a segregação e a xenofobia; a autoexposição midiática expressa em reality shows e em redes sociais; e o aumento da desigualdade em países capitalistas para criarmos uma nova configuração: jovens segregados tentando fugir de uma vida miserável se tornariam voluntários em um jogo que promete fama e fortuna ao sobrevivente. Não seria uma inspiração tão nobre, é verdade, porém, certamente é mais verossímil.

Se o assunto é verossimilhança, então é melhor convidar Maze Runner para o debate. Sem dúvida é instigante a ideia de vermos jovens desmemoriados desembarcando numa clareira próxima de um labirinto perigoso. Todavia, a justificativa encontrada pelo autor James Dashner para esse confinamento – sem spoilers aqui – é tão implausível que o leitor fica com a nítida impressão de um esforço criativo maior na elaboração do conflito em comparação ao tratamento recebido pelo desfecho. Deste modo, caberá ao leitor acreditar ou não na solução apresentada.

No que se refere à trilogia Divergente, o questionamento é outro. Aceitando uma sociedade onde as pessoas são separadas por castas identificadas por perfis comportamentais, é preciso tecer todo um pano de fundo que justifique e sustente ato divisor tão extremo. Mais do que isso, faz-se necessário construir um mundo onde essa sociedade exista de forma orgânica. Durante a produção do filme homônimo, a autora Veronica Roth foi perguntada pelos roteiristas sobre aspectos como o funcionamento da economia daquela distopia além de outros detalhes que ela alegou não ter desenvolvido plenamente. Um obstáculo que os profissionais conseguiram superar, mas restou evidente a existência de um problema no desenvolvimento da história, mesmo que este não tenha interferido no êxito comercial da obra.

O leitor de fantasia mais atento possivelmente vai pensar em J. K. Rowling neste momento. Embora não seja criadora de nenhuma distopia, a autora de Harry Potter sempre será lembrada como exemplo de meticulosidade quando o assunto é pano de fundo. De memória, a britânica costuma citar o desfecho de personagens de terceiro ou quarto escalões de Hogwarts, bem como o passado e o futuro da saga. Logicamente, não é correto buscar a genialidade de Rowling em todos os escritores. No entanto, é justo pensar que todos os escritores deveriam se mirar na riqueza de detalhes que os grandes nomes da literatura se propõem a elaborar. Afinal, ninguém quer que o adjetivo “incrível” seja usado em sua obra no sentido de pouco crível.

e304c31e573a310864b6992dfcf3d92c?s=80&d=retro&r=g - Artigo | Distopias Incríveis

Michel Costa

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
e304c31e573a310864b6992dfcf3d92c?s=80&d=retro&r=g - Artigo | Distopias Incríveis

Últimos posts por Michel Costa (exibir todos)

Comentários

comentários

Deixe seu comentário. É importante para nós! ;)