Conto | Busca dolorosa no frio do fim do mundo10 min de leitura

“Papai?”, perguntou a menina que avançava com dificuldade na neve que subia até os joelhos, segurando o ursinho de pelúcia numa das mãos, e a mão do pai na outra.

“Sim?”, respondeu o pai por baixo da grossa balaclava de lã que cobria seu rosto, quase gritando para vencer o ruído ensurdecedor da nevasca.

“O titio vai ficar bem?”

Era uma pergunta difícil. Lucas apertou a mãozinha da filha, e mesmo através das luvas grossas, sentiu na mão da menina o mesmo tremor irregular da sua voz. O tremor, ele conhecia a filha afinal, não era do frio, mas de uma preocupação mais profunda, uma desconfiança ou prenúncio do que estava por vir.

“Quantas vezes o seu tio já ficou doente? Você lembra?”

A menina franziu o cenho. Dava pra ver a touquinha mexendo.

“Muitas.”

“E ele sempre fica bom outra vez, não é?”

“Acho que sim…”.

O pai fez um cafuné na menina e eles seguiram em silêncio, seu destino logo à frente. Quando chegaram ao bunker enterrado na neve, a menina correu até a porta de metal.

“Posso fazer a batida, papai?”

“Ainda lembra a sequência toda?”

“Sim! Três rápidas, duas rápidas e três lentas”, recitou a menina como se fosse a tabuada.

“Está bem, vai lá.”

“Oba!”

As batidas da menina ecoaram no interior do bunker. O breve momento de silêncio que veio a seguir foi quebrado por um estrondo lá dentro. Um tiro talvez, seguido por uma cacofonia de latas caindo e vidros quebrando. Lucas afastou a menina da porta, postando-se na frente dela. Olhando para a menina por sobre o ombro, levou um dedo sobre os lábios. Ela confirmou com a cabeça.

Os sistemas do bunker tinham parado de funcionar muito antes da energia chegar ao fim. As travas já não funcionavam e a única coisa que impedia invasores era uma barricada improvisada pelo lado de dentro. Lucas forçou a porta, que deslizou sem muita resistência. Por entre os móveis velhos que bloqueavam o caminho, Lucas chamou pelo irmão.

“Guilherme? Está tudo bem?”

O lugar emitia um silêncio incômodo, como as florestas de antigamente, quando já não havia pássaros nem insetos.

Começou a remover o bloqueio, tábua por tábua, cadeira por cadeira. Ana ajudava colocando os itens mais leves alinhados sobre a neve a alguns metros da porta do bunker. Talvez precisassem deles mais tarde.

Lucas se ajoelhou de frente para a menina, e com as duas mãos nos ombros da garotinha, disse olhando nos olhos:

“Você espera aqui fora, tá bem, docinho? Não vou demorar.”

“Mas está frio aqui fora”, respondeu a menina com cara de choro. “Eu quero ver o titio Gui.”

“Você vai ver o tio daqui a pouco. Ele deve estar dormindo. Seja uma boa menina, tá bem?”

Tirou a balaclava, expondo o rosto liso ao vento. Deu um beijo na testa da menina, um abraço forte, e se levantou, ligando a lanterna no colete e buscando o lança-chamas preso às costas. Respirou fundo o ar gelado e adentrou o retângulo de silêncio e escuridão aberto em meio ao brancor gelado do mundo ao redor deles.

A luz de fora não alcançava mais que uns dez metros. A partir dali ele dependia totalmente da pequena lanterna no colete, posicionada na altura do peito. Estava tão quieto que podia ouvir o próprio coração.

“Guilherme? Sou eu.”

Como ele temia, não houve resposta. No fim do corredor, a porta de madeira estava fechada. Nela, havia uma janelinha de vidro redonda mais ou menos na altura do rosto. O vidro estava embaçado. Espiou lá dentro, mas não percebeu movimento. Olhou para trás e se certificou de que a pequena Ana estava bem. Ela estava brincando lá fora, pulando alegre e cantarolando, como as crianças devem fazer. Abriu a porta devagar e entrou.

Mal atravessou a porta e teve de segurar um grito quando percebeu que pisava numa poça de sangue fresco. O rastro seguia até o centro da sala de estar e até um escritório no outro lado recinto. Havia sinais de luta: a mesinha de centro estava jogada num canto com o vidro quebrado, e o escritório estava bloqueado por uma prateleira de metal tombada, dezenas de latas de conserva caídas no chão. Metade da janela do escritório estava em pedaços e respingos esporádicos de sangue manchavam as paredes aqui e ali.

Com um pouco de esforço, devolveu a prateleira ao seu lugar. Um cheiro acre infectava o ambiente semifechado do escritório do irmão e vazava para a sala. Cobriu o nariz com a balaclava e escaneou o local com a lanterna. Encontrou num canto do escritório a origem de parte daquele sangue: um lobo quase morto gania baixinho. O animal, com horríveis deformações nas costas e na cabeça e um buraco imenso nas costelas por conta de um tiro de espingarda, não lembrava em nada a elegância dos seus antepassados. O sangue espirrado na parede atrás dele não deixava dúvidas da origem do tiro.

“Guilherme?”

Deu a volta na mesa e logo avistou a ponta da espingarda calibre doze aos pés do irmão. Deus permita que você esteja bem, desejou enquanto se ajoelhava desesperado ao lado dele, desmaiado embaixo da mesa, ferido. Chacoalhou o irmão sem resultado. Acordou-o com um tapa.

“Como você chegou até aqui? Não devia estar no abrigo?”, perguntou Guilherme, ainda desnorteado.

“Não tem abrigo nenhum… Não mais. Nós viemos te buscar.”

“Nós?”

“Não sobrou ninguém mais pra cuidar dela. Tive de trazer a Ana junto. Ela está lá fora, brincando.”

“Ana?”

“Sim.”

“Você não devia ter trazido ninguém até aqui.”

“Por que não?”

“Porque não pode protegê-la.”

“O quê? Do que você está falando?”

Guilherme olhou para baixo, segurando o pulso com uma das mãos.

“O que aconteceu, deixa eu ver esse ferimento”, disse Lucas, mas o irmão afastou o braço e Lucas o agarrou à força.

“Deixa eu ver isso. Talvez eu possa ajudar.”

“Você não pode mais ajudar o seu irmão.”

“O quê?” Lucas estava incrédulo.

Os olhos do irmão perderam todo o brilho. Estavam opacos e sem vida, como uma pedra bruta. “Não pode mais salvar ninguém.”

“O quê? Do que raios você está falando?”, perguntou gritando, chacoalhando o irmão pelos ombros. Mas ao invés de responder ele começou a sorrir; um sorriso que se estendia bem além de onde devia. Uma gargalhada acompanhou o estranho sorriso logo em seguida. Ela vinha não da garganta, mas do peito logo abaixo, abafada pela carne que começava a convulsionar violentamente.

Lucas não sabia como reagir aquilo, e enxugando as lágrimas do rosto com as costas da mão, se levantou e foi se afastando de costas em direção à porta do escritório, lança-chamas em riste. Na altura em que alcançou a porta, a gargalhada abafada tinha se transformado numa mistura de carniça sendo rasgada e de ossos quebrando, que embrulhou seu estômago. Segurou o vômito no instante em que a mesa começou a virar e uma criatura foi se revelando. Do tórax inchado saía o que poderia ser um pescoço de carne virada ao contrário elevando-se quase até o teto, de onde brotava uma boca torta com centenas de dentes arranjados em camadas, tão irregular que não podia ser obra da natureza. Cada braço, tinha sido substituído por três ou quatro tentáculos com garras afiadas que balançavam violentas e imprevisíveis, cortando paredes e mesa. A coisa avançou com as pernas que eram estranhamente familiares a Lucas.

Não tinha volta, aquilo não era o seu irmão. Além disso, tinha o dever de proteger a filha que brincava lá fora, ainda ignorante dos muitos horrores deste mundo. Ligou a pequena tocha no bico do lança-chamas e não hesitou em atear fogo na aberração que se aproximava. O grito que a coisa emitiu podia muito ter vindo do interior de um moedor de carne emperrado e feriu os ouvidos de Lucas. Ele aproveitou a convulsão da criatura para derrubar outra vez a prateleira atrás dele, ganhando tempo para voltar até Ana.

Atravessou correndo a sala de estar, pisando sobre o sangue coagulado do animal morto. Pela janelinha, podia ver Ana escondida lá fora, atrás da pilha de móveis velhos. Só mais um minuto, docinho. Arriscou olhar para trás, para certificar-se de que a criatura não o seguia. Ainda em chamas, a coisa golpeava a esmo a prateleira com as garras afiadas, reduzindo-a a pedaços. Mais alguns segundos e estaria livre.

Abriu a porta de madeira e algo roçou na sua perna, vindo de trás, tão rápido que o derrubou ao chão. A sua calça ficou manchada de sangue fresco. Seria o lobo? Ele não estava morto? Mal teve tempo para devaneios e um grito congelou o seu coração. Ana! Levantando-se o mais rápido que pôde, voltou a abrir a porta e correu em direção à luz ofuscante do dia ártico, em direção ao seu docinho.

“Ana!”

Chegou lá fora e não encontrou ninguém.

Só restaram o ursinho de pelúcia e um longo rastro na neve.

A criatura, ainda em chamas, estava chegando. Da cintura, Lucas tirou uma granada.

####

“Queri…”. Um vapor inútil escapou da boca de Lucas, as gotículas congelando imediatamente em contato com o metal gelado. Dez centímetros de barba pouco ajudavam quando a questão era mantê-lo aquecido. Esfregou o rosto com as luvas grossas, preparando-se para uma segunda tentativa.

“Querida… você está aí, docinho?”

Algo caiu lá dentro, uma lata talvez, seguindo por um choro abafado. Num segundo, ele agarrou o trinco com força e começou a girar.

Hesitou.

“Você não sabe o que tem aí. Não pode se descuidar desse jeito” disse a esposa, pousando uma mão no seu ombro. “Não foi isso que você me ensinou? A agir de cabeça fria?”

A mão dele congelou no lugar, afrouxando o aperto sobre o trinco. Respirou o ar gelado como que para resfriar os próprios impulsos, acordando a criatura fria e calculista de que precisava naquela hora. Ele sabia o que fazer.

Removeu a touca, expondo as orelhas ao frio cruel, sabendo que aquilo não era nada comparado ao que estava por vir. Bem devagar, levou a orelha esquerda de encontro ao metal congelado bem abaixo de zero. Com a mão direita, bateu na porta três vezes, então duas, então três, desta vez, espaçando as batidas em dois tempos. Aguardou sem respirar.

Nada.

“Faz um ano que estamos procurando. Você sabe que não vai encontrá-la aí dentro desse freezer… nem neste hotel, nem no próximo. Quantas portas mais terá de abrir até se convencer? Eu sei que é difícil ouvir isso, mas talvez seja a hora de parar.”

“Não!” gritou entre os dentes. “Eu não posso! Eu prometi cuidar dela.”

Sem desgrudar do metal frio, tentou outra vez. Três batidas, então duas, então três. Algo se moveu lá dentro, baixinho. Lucas levou a mão ao coldre na altura do peito.

Três batidas, então duas, então três. Não ia desistir agora.

Duas batidas fraquinhas no outro lado da porta. Ele pôde sentir na orelha congelada. Então três, então duas, espaçadas em dois tempos. Era ela, com certeza!

“Pode ser uma armadilha. Cuidado.”

Ele ignorou o conselho. Expeliu o ar dos pulmões até se sentir vazio, e só então puxou a cabeça com força. A orelha praticamente fazia parte da porta agora, e um pedaço ficou por lá mesmo. Ele não gritou, mas girou o trinco com o entusiasmo de um pai que encontrava o tesouro da sua vida pela segunda vez.

“Papai?”

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