João chegou no bar e procurou a mesa onde seus amigos estavam reunidos. Tirar ele de casa não era das missões mais fáceis, porém o aniversário de um de seus melhores amigos era uma daquelas ocasiões onde ele se obrigava a sair do buraco que chamava de lar. Não que ele não tivesse pensado em umas três ou vinte desculpas para cancelar. Ainda não havia achado a mesa de Carlos quando sentiu uma mão tocando seu ombro.
— Tá perdido, João? – disse Carolina, namorada de Carlos, seu amigo e motivo de ter deixado o conforto de sua toca.
— Um pouquinho – disse João enquanto aceitava o abraço de Carolina.
— Conseguimos arrumar uma mesa lá em cima. Tô indo lá fora fumar rapidinho, me faz um pouco de companhia?
João fez que sim com a cabeça e seguiu Carolina até o lado de fora do bar. A ventania dificultou um pouco o trabalho da garota de acender o cigarro. Depois de algumas tentativas, Carolina dava alegres baforadas com um olhar satisfeito.
— Por um momento achei que você não viria. – disse Carolina entre baforadas.
— Eu também – riu João. Ele sempre se sentiu bizarramente confortável com Carolina. Era raro ele se sentir tão bem perto de pessoas novas, mas gostara da garota desde que Carlos a apresentou ao grupo. Os dois juntos eram o seu casal favorito e conseguia imaginar eles com filhos um dia.
— Quem mais tá aí? – A pergunta genérica de João escondia seu real interesse. Por “quem mais está aí”, ele queria dizer: “Rebeca está aí?”.
— Ah… Teresa, Clara, Gian, Ricardo, obviamente o Carlos e mais uns amigos do trabalho dele que nunca lembro o nome.
— Ué, Rebeca ainda não chegou? – João tentou perguntar da maneira mais casual possível. Um misto de alívio e decepção por baixo de toda a falsa casualidade. Decepção, pois realmente gostava de conversar com Rebeca e ter a garota por perto. E alívio, pois apesar de seu interesse nela, João sabia que não tinha nenhuma chance com ela e saber disso sempre o impediu de tentar algo. Para piorar a situação, já tinha visto Rebeca sair nos braços de outros caras mais vezes do que gostaria, mas o que ele podia fazer?
— Ela não vem, tinha um encontro hoje e falou que não conseguiria chegar.
João se amaldiçoou por perguntar. Rebeca estava em um encontro e ele agora sabia disso. Ele poderia muito bem ter subido, não a visto, ignorado a vontade de saber o motivo ou perguntar por ela, mas não, tinha que perguntar…
Carolina apagou o cigarro e chamou João para subir até a mesa. João a acompanhou tentando afastar Rebeca da cabeça. Chegando no segundo andar, viu a mesa de seu amigo. Diversas garrafas já estavam sobre ela e seu amigo já estava meio alegre. Carlos sempre foi meio fraco com bebida e João já havia perdido a conta de quantas vezes o havia carregado apagado até em casa.
— Você veio! – As sílabas pareceram brigar na garganta de Carlos antes de saírem pela boca, mas João tinha PHD em compreender seu amigo bêbado.
— Parabéns, maninho! Cheguei tarde, mas vim! – João abraçou Carlos e beijou sua bochecha. Carlos o envolveu em um forte abraço etílico. Seu amigo era bem maior que ele, tanto horizontalmente quanto verticalmente, e quando estava bêbado esquecia da diferença de força entre os dois!
— Brigado por vir, cara! Se tu furasse hoje, eu ia te matar.
João cumprimentou o resto da mesa e se sentou perto dos amigos de trabalho de Carlos. Girou a roleta de assuntos genéricos e falou um pouco sobre futebol com alguns deles e trabalho com outros. Quando o papo ameaçou entrar em política e um dos amigos de Carlos demonstrou um pouco de simpatia por um dos candidatos merdas das próximas eleições, João preferiu mudar de emissor e acabou em um papo com Teresa, amiga de Carolina, com quem já havia ficado algumas vezes. Ambos não tinham assunto para mais de cinco minutos de conversa quando sóbrios, mas sempre acabavam se pegando. A noite estava agradável, o efeito do álcool já começava a aparecer, seu amigo parecia muito feliz e isso sempre deixava João com um sorriso no rosto.
Do lado de fora do bar chovia muito e pela porta surgiu uma Rebeca bastante molhada. Por mais que a caminhada até o bar tivesse sido curta, a chuva lá fora estava castigando. O date dessa noite havia cancelado e ela parecia um cachorro ensopado. Para piorar a situação, olhou para o andar de cima e viu João conversando com Teresa. Ela sabia que os dois já haviam ficado algumas vezes e não conseguia entender a graça que ele via naquela garota. Ambos não possuíam praticamente nada em comum, no máximo eram da mesma espécie e moravam no mesmo planeta, país e cidade. Reunindo o resto de confiança que a chuva não tinha enxaguado, Rebeca foi em direção à mesa.
João não aguentava mais tentar conversar com Teresa. Os cinco minutos de conversa já haviam expirado dez minutos atrás e ele agora estava preso em um looping de tópicos que não chegavam a lugar nenhum.
— Preciso ir no banheiro rapidinho, sabe como é, né? Cerveja é foda! – ele falou e se levantou. Quando virou em direção ao banheiro, viu Rebeca terminando de subir a escada. Seus olhares se cruzaram, a garota sorriu e acenou pra ele. Puta que pariu, que sorriso bonito!
João acenou rapidamente para ela e foi até o banheiro. Chegando lá, João fez xixi, lavou as mãos e se olhou no espelho.
— Tudo bem, Rebeca? – João começou a simular um diálogo para ver o quão emboladas as palavras saíam de sua boca. Depois de se enrolar com um N, decidiu molhar o rosto pra ver se conseguia lavar um pouco da leve embriaguez. Secou o rosto para não voltar para a mesa parecendo alguém que acabou de passar por um afogamento simulado.
Saindo do banheiro viu que Rebeca puxara uma cadeira e estava ao lado da cadeira onde ele havia sentado.
— Tudo bem, João? – Rebeca levantou e o abraçou. Foi preciso muita força de vontade para que ele não afundasse naquele abraço.
— Tudo ótimo, saudade de te ver. Falei com a Carol e ela disse que você não vinha hoje. – A palavra saudade e a ideia de João ter perguntado especificamente por ela fizeram Rebeca sorrir.
Ambos começaram a conversar, um papo bem genérico no começo, nada muito diferente do papo entre João e Teresa. Porém, conforme garrafas de cerveja iam se esvaziando e o papo continuava, João e Rebeca já haviam saído de trabalho e rotina para música, filmes e os diversos interesses em comum. Até quando entravam no território de política, onde ambos tinham visões meio opostas, o papo era legal. Rebeca e João só pararam de se falar quando a garota virou para Carolina e pediu um cigarro. Álcool a deixava com vontade de fumar e isso era uma boa chance de se afastar da mesa com João.
— Vou fumar, me faz companhia? – disse Rebeca para João.
João se levantou e foi na frente de Rebeca. Na parte de baixo da escada, João estendeu sua mão em um gesto cavalheiresco para Rebeca descer o último degrau. Ela se sentiu especial, e ele, meio tolo.
A chuva já havia parado, mas o vento persistia e Rebeca tremia de frio a cada sopro em sua roupa ainda úmida. João tirou seu casaco e ofereceu para ela.
— Não, que isso! Tu vai ficar com frio!
— Que nada, tô até com um pouco de calor. Tu que tá tremendo. – disse um João, já sem casaco, usando 90% da sua concentração para não começar a tremer feito um operário com uma britadeira.
Rebeca aceitou o casaco. Ao contrário da maioria dos caras com quem se envolvia, João era atencioso e carinhoso. O menino continuava a falar e Rebeca estava hipnotizada por sua voz. Ela se perguntava se seria hoje que algo finalmente rolaria entre os dois. Apesar de uma leve vontade de fumar, o cigarro era muito mais um artifício para ficar sozinha com ele do que uma necessidade dela naquele momento. Parte dela tinha vontade de tomar a iniciativa, mas não tinha certeza se não passaria por idiota. João era um cara muito interessante e extremamente inteligente e ela era apenas ela. Para piorar, seu cabelo e maquiagem tinham sido detonados pela chuva. Nâo se achava a mulher mais linda do mundo, mas considerava sua aparência a sua melhor arma com a maioria dos caras. Rebeca era incapaz de se ver como alguém interessante.
Seus olhos se encontraram com os de João no meio de algum ponto que ele estava tentando fazer e ela só fingia acompanhar. O álcool já havia subido e ela só queria ouvir a voz de João e ter a total atenção do rapaz.
João falava, tentando parecer interessante e charmoso, quando viu seu olhar cruzar com o de Rebeca. Deus, como ela era linda. Ele havia passado duas horas tentando se arrumar para parecer minimamente apresentável, enquanto ela, mesmo encharcada era uma mulher de tirar o fôlego. Algo nela o hipnotizava, e para piorar ela era muito interessante e toda vez que eles começavam a conversar, João jamais queria deixar o assunto acabar. Seus olhares se encontraram novamente, e ele sentiu um leve magnetismo entre os dois. Compreendeu aquilo não como desejo dela, e sim como simpatia. Tudo que ele queria era beijá-la, mas sabia que ela jamais se interessaria nele. Do outro lado daquele olhar, Rebeca tinha vontade de se jogar nos braços de João, mas se ele realmente a quisesse, já teria tentado algo. Ela era apenas uma garota por quem ele simpatizava.
O cigarro chegou ao fim, mas a tensão continuava pairando. Seus olhares haviam se cruzado diversas vezes, mas diferentes inseguranças os cegavam. Ambos retornaram à mesa, o tempo correu, o cansaço bateu e todos começaram a ir embora. Carlos já tinha passado do nível alcoólico recomendado umas 10 cervejas atrás. Enquanto isso, Carolina terminava de acertar os últimos detalhes da conta. João colocou Rebeca no táxi, e pediu um para ele, Carolina e Carlos. Carolina na volta brincou sobre ter visto um clima entre ele e Rebeca.
— Sério isso? Nunca maldei nada entre a gente. Nem acho que tenho chance… – disse João tentando esconder um sorriso ao pensar na possibilidade.
Ele deixou ambos em casa e seguiu para a sua. Deitado no banco de trás, ele lembrou dos momentos onde seus olhares se encontraram e se perguntou se aquela não tinha sido a chance dele. João pescou seu celular no bolso e brigou para digitar uma mensagem no pequeno teclado do aparelho.
— Chegou bem?
Encarava a mensagem e quando estava começando a se sentir um idiota por ter enviado, a resposta chegou.
— Cheguei sim – ao lado da mensagem um emoji de carinha com corações nos olhos.
Do outro lado, Rebeca não escondia seu sorriso pela mensagem enquanto estava deitada pensando nas trocas de olhares daquela noite. Será que ela deveria ter tomado a iniciativa? Ela sabia que ele era tímido, mas não sabia se o que travava os dois era a timidez ou o desinteresse dele.
Ambos dormiram naquela noite pensando sobre o que poderia ter sido.
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