Entrevista | Fábio M. Barreto

Por: Vitória Castro

Em uma entrevista extremamente agradável e informativa, Fábio M. Barreto, escritor, roteirista, revisor, leitor crítico, editor, tradutor, consultor, apresentador do podcast Gente Que Escreve ao lado de Rob Gordon, instrutor do C.O.N.T.E, arqueiro, pai de família… e responsável pela união de todos os membros do Conte Histórias, fala sobre suas paixões, trabalhos e o mercado literário brasileiro. Leia na entrevista a seguir.

Conte Histórias: Em uma entrevista, nada mais justo do que começar pelo início. Como surgiu a paixão pela literatura e, consequentemente, a escrita?

Fábio M. Barreto: A resposta é meio boba até: eu era o nerd gordinho da escola no subúrbio, onde mais ninguém se interessava pelas mesmas coisas que eu, onde eu parecia um alienígena – mesmo!  Uma vez inventei de discutir mitologia grega com um professor e metade da classe ficou me olhando com cara de “de onde esse mauricinho saiu?”. Estudar era meio bobo e feio para muita gente, vai entender. Então, a culpa é da escola. Tive a sorte de tomar contato com os livros certos, sem dar muita bola para os obrigatórios desinteressantes. Eu lia, claro. Mas aqueles de temática mais próxima da que gosto hoje marcaram. A Luneta Mágica foi o primeiro realmente marcante para mim e é bem próximo do que Neil Gaiman faz hoje. Algo trivial transformado em mágico. As Reinações de Narizinho também foi bem importante e a história do Minotauro, do Monteiro Lobato, abriu meus olhos para a mitologia. Ler na infância é muito importante, pois dá perspectiva, ajuda a determinar os gostos e guia o resto da vida. Mas há algo mais especial que tudo isso: o único livro que meu pai me deu – na vida – foi uma cópia ilustrada de Alice no País das Maravilhas. Caí tanto naquele buraco e surtei tanto com aquelas alucinações do Carroll,que, de certo modo, nunca me recuperei. Então, a culpa é do meu pai, embora ele nem deva se lembrar e, provavelmente, nunca vá compreender.

CH: Se não tivesse optado pela carreira que segue hoje, o que estaria fazendo?

FMB: Seria oficial na Força Aérea. Larguei a oportunidade lá para me dedicar à faculdade de jornalismo. Ser piloto era um grande sonho, mas a realidade do sonho versus chances disso acontecer no Brasil com pouca história militar, bons aviões e sem muito o que fazer com eles me fez escolher as letras. Eu era um daqueles garotos malucos que colecionava aviões da Segunda Guerra Mundial, adorava ver filmes sobre o assunto e sonhava em salvar o dia no cockpit de um caça.

CH: É de conhecimento notório que Deuses Americanos, do Neil Gaiman, é seu livro favorito, o que mais o atrai na história?

FMB: O subtexto. Muita coisa acontece por trás daquela história, por trás da cortina, e a guerra entre os deuses novos e velhos mostra muito isso. A trajetória do Shadow é muito forte, mas ele serve como arauto de algo maior. Quando li Deuses Americanos, estava mergulhado no estudo do druidismo e de outras religiões do Velho Continente e consegui traçar tantos paralelos entre a narrativa do Gaiman e as jornadas que passamos em nossas vidas, tanto pelo aspecto pessoal quanto pelo espiritual, que o livro teve um impacto gigantesco. Eu espiei atrás da cortina, vi muito além das palavras e, claro, posso ter adaptado muitas coisas para a minha realidade no momento, mas, como o próprio Gaiman diz, todo leitor completa a história. Então, foi o melhor caso de “livro certo na hora certa” para mim. Por isso entendo quando criticam ou não enxergam as mesmas coisas. Pode soar arrogante, mas, nesse caso, você precisa estar pronto para entender tudo o que acontece ali. Perceba, é “estar pronto”, não “o livro ser ou não para você”. Ele é para todo mundo, mas o momento é tudo e, como o final diz, tudo depende do simbolismo mesmo. Escrever algo como Deuses Americanos é meu grande objetivo, pois ele permite grandes leituras, grandes viagens e afeta o mundo à volta dele. Um livro verdadeiramente completo e relevante pela eternidade.

CH: Além de Neil Gaiman, quais outros autores você admira?

FMB: Cresci lendo Monteiro Lobato e Júlio Verne, mas fui cair de amores por um autor só mais tarde quando descobri Isaac Asimov e Mario Prata. Asimov era o ídolo distante, que me apresentou A Fundação e mostrou que toda história poderia ir muito mais além do que eu havia imaginado. Verne era criativo, claro, mas era limitado pela época dele; Asimov não foi limitado por nada e extrapolou todas as barreiras. O Mario Prata foi o primeiro autor que “conheci”, ele era colunista no Estadão, bati um papo com o cara uma vez, li uma coletânea e lia todas as colunas. Ele mostrou que era possível escrever coisas divertidas, e bem feitas, que iam além do jornalismo. Foi uma dobradinha bem bacana, dois mundos, duas perspectivas, duas ideias. Acabei seguindo mais pelo caminho do Asimov, mas nunca escrevi da proximidade do texto do Mario. O resultado do que eu escrevo é, essencialmente, uma mistura deles dois. E, claro, meu coração sempre terá lugar reservado para J.R.R. Tolkien e Robert Heinlein.

CH: Aproveitando a oportunidade, além de crítico de cinema e escritor, você é reconhecido por sua grande paixão pelo universo de Stars Wars. Quais os elementos da saga que mais o fascinam?

FMB: Perguntaram isso uma vez numa das Jedicons que organizei e caiu a ficha de nunca ter pensado nisso a sério. Mas a resposta veio rápido e se mantém até hoje: amizade. O fator da amizade é fortíssimo em Guerra nas Estrelas – sim, eu sou velho, nasci no ano da estreia do filme no Brasil – e isso supera os sabres de luz e as X-Wing. O fator visual foi o responsável pela paixão, mas a amizade selou o amor pela Maior de Todas as Sagas. Todas as relações entre Han, Chewie, Luke e Leia, e os dróides, reforçam isso, mantém o envolvimento do espectador e faz a gente torcer para que eles escapem das enrascadas. Claro, existe a Jornada do Herói do Campbell, toda a influência japonesa e os surtos criativos do George Lucas, mas a história não se sustentaria sem a cumplicidade – e dependência – dos amigos. Como o Imperador Palpatine diz para o Luke, “a confiança nos seus amigos é o seu (ponto fraco)”. Maior prova disso foi quando li o romance Vector Prime, eu chorei copiosamente pela morte do Chewbacca, pois sabia que ele e Han Solo nunca mais protegeriam um ao outro, tirariam sarro e salvariam o dia. Amizade só existe quando duas pessoas se comprometem. Esse é um conceito essencialmente plural. Não existe amigo solitário. Um alvo é preciso, a amizade é aplicada a alguém, não a si mesmo. Maior lição não há.

CH: Quais outros universos o cativaram? Falando mais especificamente em livros, você acredita que isso se deu pela força do primeiro parágrafo, da primeira página, ou da história como um todo?

FMB: Quando se é jovem, ou mesmo criança, não existe noção dramática. A história não tem partes, ela simplesmente é. Ela acontece, diz o que tem que dizer, e entra para a memória ao lado de tantas outras. As boas continuam acessíveis com facilidade, as outras ficam lá servindo como base, parâmetro, pedacinhos de quem nos tornamos. Como disse no começo, a base foi composta por vários autores, vários momentos, vários personagens. Fui entender a coisa do “universo” de forma consciente (afinal, O Sítio do Pica-Pau Amarelo é o primeiro universo da maioria dos brasileiros) quando li Tonico e Tonico e Carniça, dois clássicos infanto-juvenis. O primeiro foi indicação de professor, o resto da série – e demais livros da coleção – fui atrás por conta própria. Eu queria saber onde tudo aquilo ia terminar. E não havia nada de universo fantástico ali, eram apenas dois garotos mais pobres do que eu e, em certo ponto, era parte ficção e parte realidade. Cresci perto de gente muito miserável, mas de bom coração, e de gente com dinheiro, e alma podre. Tonico mostrou o que acontecia depois que eu voltava para o conforto da minha casa e meus colegas de futebol no campinho continuavam com a vida deles. Eu sabia o que eles faziam, mas nunca vi. Um livro ilustrou esse mundo para que eu não precisasse perguntar a eles. Constantemente, a vida me lembrava que uma decisão errada poderia me transformar em algo vil ou errado. Sempre fui meio paladino desde a infância e sentia muito ao ver colegas de classe, ou vizinhos, seguirem para o mundo do crime, da luta pela sobrevivência a cada minuto, enquanto eu tinha a chance de ouro de estudar e não me preocupar com comida na mesa. O conceito de “universo” implica numa existência permeada por várias histórias interligadas, mas, não necessariamente, contínuas. Então, quando percebi que as histórias poderiam ir além, passei a imaginar desdobramentos para tudo que eu conhecia. Aí você junta isso com Anos 80 e boom: Goonies, Star Wars, Tubarão, O Iluminado, 2001… tudo, absolutamente tudo, podia ter – e em muitos casos tinha – continuação. A primeira história era apenas o princípio.

CH: Mudando de assunto, para quem ainda não sabe, o projeto Conte Histórias nasceu da união de alunos do C.O.N.T.E. – Curso Online de Técnicas para Escritores –, curso ministrado por você como forma de ajudar na preparação de novos escritores. Depois dele, vários outros surgiram. Como o escritor, interessado em se aperfeiçoar, pode reconhecer um bom curso?

FMB: O que eu ensino é apenas reflexo daquilo que eu aprendi. Simples assim. Então, quando escolho um curso para fazer – e eu faço muitos deles, gratuitos ou não –, procuro saber quem é o instrutor, por onde ele passou, se as referências são próximas das minhas ou se tem condição de agregar ao que eu preciso solucionar com o curso em questão. Já fiz cursos pequenos e fantásticos, dados por uma autora de livros infantis, e cursos universitários cheios de nome e pompa, que não serviu de nada. Sou bem crítico ao programa do curso, analiso a oferta do conteúdo e sei quando aquilo vai ser útil ou não, pois a necessidade é minha. Já vi vários cursos que surgiram depois do C.O.N.T.E., aliás, e a programação não agradou, pois além de parecer um vulto do que o C.O.N.T.E. é, não vi nada que pudesse agregar a mim. E isso não tem nada a ver com concorrência: sempre serei escritor, sempre preciso aprender, evoluir. Faço pelo menos três cursos de reciclagem por ano e sempre busco aquele que será mais útil e só sei quais são esses pontos por escrever muito e sentir a dificuldade. E, agora, por ensinar e vender o C.O.N.T.E. – sozinho – consigo perceber quando a oferta é sincera, quando existe mais que um produto ali. Eu acredito no potencial do C.O.N.T.E., no benefício dele para o mercado, no que posso oferecer aos alunos, então espero ver isso de um instrutor ou empresa passa a mensagem.

CH: O C.O.N.T.E. já está em sua terceira edição. Quais as lições aprendidas com as primeiras turmas e de que forma esse aprendizado tem ajudado nesta nova empreitada?

FMB: A maior delas é o fato de que o C.O.N.T.E. e cursos como ele são extremamente necessários no mercado brasileiro por uma razão muito simples: os escritores precisam de preparação e não existe um sistema educacional preparado para atender a escritores, em nenhuma esfera. Cansei de ouvir alunos dizendo terem sido desmotivados por professores no ensino primário, médio e até mesmo na faculdade. A ideia de dizer que “ser escritor não leva a lugar nenhum” é um desserviço prestado à cultura nacional e acaba impedindo a descoberta de talentos precoces, assim como impede a lapidação de quem chegue mais rápido. Ser escritor, no Brasil, é quase como praticar um esporte olímpico. Depende do investimento, desejo e da perspectiva de pouco retorno, mesmo depois de tudo isso, pois todo mundo tem o primeiro ciclo motivado pela vontade e empolgação. Quando isso passa, é preciso que mecanismos de aprendizado entrem em cena para manter o trabalho de forma produtiva e organizada. Perdi a contas de quantos e-mails já recebi de “escritores” que não sabem pontuação básica ou construção de sentenças. Em algum lugar, de alguma forma, alguém precisa começar a incentivar essa mudança de perspectiva. Então, quando tudo isso ficou claro, compreendi que o C.O.N.T.E. não era apenas uma faceta do meu trabalho e algo que eu achava que teria razão de ser, e sim uma ação que merecia muito mais da minha atenção, especialmente nos encontros mensais, para ajudar os alunos a compreenderem a profundidade, amplitude e relevância do trabalho que podem realizar como escritores. No fundo, a resposta curta seria: quando notei o que o pessoal realmente precisa, e não tem como encontrar apoio sólido e estruturado além do C.O.N.T.E., percebi que posso, de fato, estar criando uma nova geração de escritores comerciais. E isso, sinceramente, muda tudo, pois deixa de ser a missão e passa ser a realidade.

CH: O C.O.N.T.E. é quase um pioneiro quando se trata de curso de técnicas para escritores. Como você vê o mercado literário brasileiro que receberá essa nova geração?

FMB: Sem puxar a sardinha para o meu lado, mas já puxando, o C.O.N.T.E. é o pioneiro nesse formato. Nenhum outro curso nacional promete, e entrega, a capacitação do escritor. Vejo muitos cursos aí tentando ensinar a vender, a como lidar com editores e etc., mas de que adianta chegar ao editor se o livro não tem lugar no mercado? Eu sempre acreditei em trabalho de base, na preparação correta e efetiva. E não digo isso por causa do C.O.N.T.E., não. É assim que encaro a profissão. Sem ler, sem aprimorar o estilo e a gramática, sem saber ouvir críticas – especialmente as negativas – e sem saber vender, seu livro será apenas uma realização pessoal. Para algumas pessoas, isso já basta. É sonho. Porém, 65% dos alunos do C.O.N.T.E. veem a escrita como carreira. E desses, apenas 15% está realmente apto a escrever um livro vendável. Isso quer dizer que os outros 50% estejam fora da briga? Pelo contrário, podem não estar prontos agora, mas conforme evoluírem, levarão a estrutura mental e organizacional do C.O.N.T.E. com eles. Outro dia um aluno me disse que não consegue mais ter ideias sem antes pensar nas “Perguntas” e na “Relevância”, que são conceitos que estudamos e colocamos em prática à exaustão durante o curso. É meio mnemônico, é preciso aprender e colocar em prática. Ajuda a concentrar em coisas boas, em ideias válidas. Sinceramente, não sei como o mercado vai ver, pois, inevitavelmente, existe uma parcela que encara empreendimentos como o C.O.N.T.E. como “caça-níqueis” e acha o cúmulo o instrutor cobrar. É uma mania ruim do brasileiro, pois, como digo durante os processos de inscrição, praticamente todas as universidades norte-americanas oferecem cursos de Escrita Criativa, ou seja, formam escritores. E cobram por isso. Ensino tem valor e precisa de investimento. Atualmente, uma turma do C.O.N.T.E. basicamente viabiliza a próxima e já está ajudando na composição de outros dois cursos – o C.O.N.T.E. 2, que será uma oficina de redação com 80% da carga de exercícios práticos; e um curso de Roteiro Cinematográfico – e tudo isso requer investimento técnico para gravação dos vídeos (nada de webcam e meu guarda-roupa como pano de fundo), edição profissional, composição de material didático e o grande diferencial: atendimento garantido como o instrutor. Nada de assistente ou e-mails genéricos, eu tomo a frente de cada demanda técnica. Minha esposa ajuda com a organização, mas a parte educativa é toda minha. Enfim, acabei falando mais sobre o que é curso, pois é assim que gostaria que ele fosse visto. Acredito que dos mais de 80 alunos que já passaram pelo C.O.N.T.E., apenas 3 ou 4 saíram com as expectativas abaixo do esperado. Isso em si já é uma vitória. Mas, como o mercado vai ver? O mercado nem vê esse tipo de coisa, o mercado é nublado por escritores que criam auras fofas, meigas e cheias de sucesso e tudo lindo ao redor de suas carreiras e colocam na cabeça de novas gerações que basta acreditar e tudo acontece. Bom, infelizmente, a realidade é outra. Acreditar é importantíssimo. Mas sem preparo, sem orientação e sem dedicação, nada sai. Meu sonho é que editoras, quem sabe, vejam o que está acontecendo e eu consiga patrocínio para o curso ser dado GRATUITAMENTE aos alunos, para que centenas e milhares de novos escritores se beneficiem. Porém, por hora, somos apenas um casal sonhador, trabalhando duro toda semana para ver os frutos do trabalho nos créditos e agradecimentos de livros lá na frente.

CH: Como você faz para equilibrar a figura pública com o escritor?

FMB: Isso tem um pouco a ver como que disse no final da pergunta anterior, afinal, projetamos a realidade ou a imagem que o leitor “quer ver” quando interagimos ou expomos as personas públicas nas redes sociais, em eventos e etc.? É uma pergunta muito traiçoeira, pois é comprovadamente sabido que leitores e fãs gostam de se relacionar com pessoas de sucesso.

Então, como amargar, digamos, um ou dois anos sem publicar nada e, mesmo assim, tentar manter a imagem intacta? O resultado disso é muito pó de pirlimpimpim jogado por aí. Pois existe uma coisa muito importante aqui: a figura pública e o escritor são a mesma. Para alguns, sou jornalista. Para outros, podcaster. E tantos outros, escritor. Diria que a porta de entrada passa por uma delas, mas assim que a pessoa me conhece um pouco mais, sabe que sou tudo isso ao mesmo tempo e que, diferente da maioria – e sei que serei criticado por isso, mas eu tenho opinião forte; sempre tive, enfim – eu não tento criar um mundo mágico no qual tudo dá certo e eu sou um ser intocável pelas mazelas da vida. Eu questiono meu trabalho, as razões pelas quais faço, meus erros, meus acertos, celebro meus filhos, fico doente, fico feliz, p da vida, uso o Twitter como divã de psicólogo, compartilho planos e frustrações. Eu não consigo ser um personagem, como vários escritores criam. Talvez seja meu erro, mas eu cresci sendo autêntico, com falhas graves e acertos críticos, mas sempre fui eu. E daí vem uma lição: tentei contrariar minhas crenças pessoais e escutar esta linha de raciocínio [que eu deveria ter uma persona diferente]; ao longo dos dois primeiros anos depois da publicação de Filhos do Fim do Mundo, virei o grande divulgador máster da minha obra, fui o cara legal, bem-sucedido, que não era afetado por críticas ruins, xingamentos online ou pelas doenças que vira e mexe eu pego – já tenho quase 40, o corpo sente a passagem do tempo (risos) – e o resultado foi o seguinte: virei só isso, um divulgador, uma persona, e divulgador não escreve. Ele promove. Odiei isso. Ah, temos que fazer os dois? Na maioria dos casos, sim. O que não pode acontecer é deixar essa pergunta tomar mais tempo do que ela merece. Aprendi algo com Neil Gaiman em meu último encontro com ele: melhor coisa para vender seus livros antigos é um livro novo. Então, e isso é recente, resolvi deixar de lado o divulgador por natureza (fui assessor de imprensa por sete anos) e abrir espaço para o escritor tempo integral retornar à tona. Eu sou um caso estranho, pois divulgar Filhos do Fim do Mundo deu certo, mas deu errado. E, como foi um processo pelo qual só eu passei – a editora quase não moveu uma palha para ajudar -, o aprendizado é só meu também. Mas gostaria de ter ouvido este conselho antes e ter economizado dois anos. A verdade é que o Fábio M. Barreto que você vê nas redes sociais é o mesmo que responde o e-mail, o mesmo que atira com arco e flecha toda sexta e sábado, e o mesmo que ama a família. Goste ou não, eu som assim e nunca vou tentar enganar ninguém.

CH: E como é lidar com as críticas? Existe um momento certo para parar de ouvi-las ou as ruins sempre incomodarão?

FMB: Um homem que diz não ter medo do campo de batalha é mentiroso ou maluco. Algo parecido com isso pode ser aplicado a escritores. Há uma escolha clara, e bastante válida, nesse cenário: ou você lê todas e faz de conta que não leu, ou simplesmente ignora. Não há resposta certa e, garanto, não importa o quanto o escritor diga que “aceita bem as críticas”, elas machucam. É inevitável. Talvez por uma característica inerente aos tempos modernos, especialmente na minha área, que é a literatura de ficção fantástica, não existe crítica profissional. Ponto. As exceções são raríssimas e o grosso da repercussão que livros modernos conseguem é gerado por blogs de jovens despreparados tanto para ler quanto para avaliar. É o festival da sinopse encorpada, com dois parágrafos de “eu acho” e a notinha. Isso nunca foi, e nem vai ser, resenha literária. São opiniões de gente que se força a ler 5 livros por semana para cumprir cota e agradar os parceiros. Logo, tanto as críticas quanto elogios acabam sendo repetitivas, sem ir além da primeira camada do texto – ou sequer tentar ir além – e fica complicado avaliar. Sinceramente, até hoje, Filhos do Fim do Mundo teve cinco resenhas de verdade, uma delas em jornal físico. Três em blogs especializados e uma no Medium (e foi provavelmente a melhor de todas). E estamos falando de um universo de mais de 95 artigos (sem contar entrevistas). É bem complicado. E sempre existe aquele pessoal que bate para machucar. Ou não gosta do gênero, ou da editora, ou do próprio autor, então a “resenha” vira lavação de roupa suja e tem menos valor ainda. Uma vez, aliás, criticaram a minha voz como podcaster e, noutra, a minha filha (?!). Qual a influência disso numa resenha literária? Nenhuma. E meu ponto aqui não é desmerecer os feedbacks negativos, de modo algum. Já disse e repito, serve para os elogios também. Uma vez, fui chamado de Melhor Autor do Brasil. E não sou, sabe? Nem aspiro ao cargo. Posso ter sido para aquela pessoa, o que é uma honra imensa. Mas tenho o pé no chão e não fico procurando louros para me gabar. Os prêmios, realizações e elogios que recebi de quem realmente entende tanto de literatura quanto de ficção científica vieram com muito trabalho duro, então são celebrados sim. Eu li todas as críticas a Filhos do Fim do Mundo, boas e ruins. Posso citar várias delas. Mas foi a primeira e última vez. Nos próximos romances, minha esposa vai servir como filtro e selecionar o que realmente preciso ler – bom ou ruim –, pois eu acredito na necessidade de melhoria e, se a crítica negativa for relevante, enfiar o dedo na ferida e me mostrar pontos de melhoria, vou aproveitá-la da melhor maneira possível.

CH: Para você, qual o pior inimigo de um escritor?

FMB: O saldo bancário. Atualmente, o cenário é o seguinte: ou você vira celebridade no primeiro livro (no máximo no segundo) ou você vai ralar por muitos anos até conseguir começar a ganhar dinheiro efetivamente. Leitor compra livros de gente famosa. Ponto. Os estrangeiros já chegam famosos ao Brasil, pois os blogs fazem a lavagem cerebral, as editoras investem para construir a imagem e, claro, a mídia tradicional dá espaço para os grandes sucessos do exterior. Por exemplo, Rick Riordan conseguiria espaço em quase qualquer jornal ou revista (das poucas que sobraram) se topasse dar uma entrevista, a qualquer momento. Já o querido André Vianco, mesmo depois de quase um milhão de livros vendidos, ainda é tratado como exceção e acaba aparecendo naquela matéria cheia de outros autores, como case de sucesso, quase como uma aberração. São dois pesos e duas medidas. O mercado está mal das pernas, pois, finalmente, o maior dos nossos medos se tornou realidade: com o aumento do consumo gratuito de livros, as editoras precisaram adequar preços (com o aumento do papel, disparada do dólar para os direitos autorais, e etc.) e, embora o brasileiro esteja lendo mais, está gastando menos (recessão e instabilidade político-econômica). Sempre falamos isso do cinema e da literatura, alguém tem que pagar a conta. Quando ninguém paga, o mercado se retrai e o primeiro a perder é o autor nacional, pois ele vende menos. E nesse cenário, como esperar fazer sucesso nas vendas sem apostar em literatura superficial e feita especificamente para adolescentes deslumbrados? E, mesmo assim, é difícil acertar a mão. A literatura enlatada parece não ter valor e ser de fácil produção, mas não é não. Se fosse, toda semana sairia um Crepúsculo novo. Logo, o autor precisa receber pelos direitos, poder se sustentar e escrever o próximo livro. Mas isso não acontece por pelo menos cinco títulos, pois aí os direitos combinados de X obras vai ser somado num valor sustentável. Antes disso, a fama é o único caminho. E isso gera o câncer do jovem autor que quer ser famoso antes mesmo de aprender a escrever, aí fica entupindo o Wattpad de material questionável, consegue milhares de leituras (um clique é considerado uma leitura) e sai por aí tentando se gabar, mesmo escrevendo tudo errado e não ganhando um centavo por isso. Daí penso: então, escritor novo ou vem de família rica, ou tem dinheiro sobrando ou ainda mora com os pais e pode se dar ao luxo de escrever? Ou, claro, é jornalista; a única profissão, entre as grandes do Brasil, que, de fato, ensina a escrever bem e para entendimento geral. A coisa está tão fechada assim? Sou jornalista, mas venho de família modesta, nunca tive dinheiro sobrando e resolvi escrever com família para criar, não o contrário. Há outros casos de gente que venceu pela força de vontade e dedicação, gente que partiu com a missão de ser escritor. Não de “ser famoso”.

Ser famoso mata mais carreiras do que bloqueio criativo ou seja lá qual barreira você deixe vencer sua vontade. Então, o maior inimigo é a grana, pois ela é o resultado do trabalho. Quando ela não vem, isso pode ser encarado como incapacidade técnica e uma série de outras coisas ruins que não necessariamente são verdade, mas suspendem carreiras, engavetam livros e fazem sonhos desmoronarem.

CH: Quando se trata de rotina de trabalho, cada escritor parece ter a sua. O Stephen King, por exemplo, gosta de escrever pela manhã, responder e-mails e cartas à tarde e ler e curtir a família à noite. Você poderia falar um pouco sobre sua rotina?

FMB: Já tentei ter uma rotina fixa de trabalho, mas a minha vida de freelancer e pai sem escritório me impede de manter horários. Já tentei escrever de manhã e traduzir de tarde, escrever só de madrugada, pegar duas horas aqui e ali. Nunca dá certo. Então, criei um jeito caótico que, por enquanto, tem funcionado: limito o número de palavras por dia e faço o possível para cumprir a meta. Isso me permite fazer 200 palavras numa sentada, mais 30 num intervalo entre uma coisa e outra, mais 300 noutra brecha e por aí vai. Escrevo 2.000 palavras por dia, quando estou, de fato, escrevendo. Em períodos de pesquisa, análise de mercado e estudo de projeto, não escrevo praticamente nada narrativo. Ter o foco de “agora estou escrevendo” ajuda e sempre coloco prazos. Sou muito mais efetivo sabendo que preciso da versão final pronta em, sei lá, três meses do que “ah, vou escrever um livro e ver no que dá”. Não, eu já sei que vai ter potencial de mercado, sei quando vou terminar e quando vou começar o próximo. O mesmo vale para os roteiros. Nas poucas vezes em que pude escrever, período integral, foi insano e fantástico. Dá para produzir demais, mas isso é quase utópico. Acabo mantendo mais o foco no último mês de traduções do que na redação do meu material. Acho que é um caso clássico de casa de ferreiro, espeto de pau! (risos)

CH: Como tem sido a experiência de morar e trabalhar nos Estados Unidos por tanto tempo? É difícil ser um estrangeiro em outro país, adentrando o mercado de trabalho e disputando as mesmas oportunidades que um nativo?

FMB: Demais, pois por mais que eu manje de contar histórias e tenha uma perspectiva internacionalizada mais ampla que os americanos, eles dominam a língua num nível que nunca conseguirei igualar. Isso faz diferença na hora da decisão final. Cansei de chegar nas últimas rodadas de seleção e perder a verba para um roteirista local, mas não desisto. Isso na área de roteiros, devo dizer. Já na literatura, há um interesse bem bacana por perspectivas além da norte-americana, com novas vozes e ideias. Se bem escrito, há espaço. Porém, simples traduções não tem espaço no mercado. É necessário reescrever a obra e adequá-la ao mercado dos EUA e isso se faz com um coautor local ou a contratação de algum editor que dê aquele tapa no texto, para o foco se manter no conteúdo, não na forma como ele foi exposto. O lado bom disso tudo é que os roteiristas e produtores sempre gostam de conversar e recebem quem vem de fora muito bem, contanto que as ideias sejam boas. Essa é a verdadeira nota de corte, afinal, texto capenga pode ser arrumado, ideia ruim sempre vai ser ruim. Uma das minhas metas para 2017 é, finalmente, entrar no mercado norte-americano de romances, possivelmente com a versão em inglês de Filhos do Fim do Mundo e a estreia de uma outra obra. Já passou da hora, agora vai!

CH: Em 2014, Filhos do Fim do Mundo foi vencedor do Prêmio Argos de Melhor Romance do Ano de Literatura Fantástica de 2013, agora, em 2016, você ganhou o prêmio internacional do Sunset Film Festival de Melhor Roteiro por Lilith – The Vampire. Sabendo como você se encantou pela literatura, resta perguntar: em que momento surgiu o amor pelo cinema?

FMB: O cinema aconteceu antes de qualquer outra paixão. Ele é a minha origem, um dos melhores professores e um dos amigos mais sentimentais. Aprendi a sonhar, temer, ousar e sentir com grandes filmes na minha infância, e nem ligava para os filmes ruins que, eventualmente, apareciam na programação da Globo. Claro que eu já lia, afinal, a escola estava fazendo o trabalho dela, mas a possibilidade de consumir uma história inteira – em um dia só – era muito legal. Então, virei rato de locadora, daqueles que levava seis ou sete filmes para casa no fim de semana. Lembro de uma vez, quando fui tentar alugar Guerra nas Estrelas, mas alguém chegou antes, acabei levando TODOS os filmes da tripulação clássica de Jornada nas Estrelas. Foi minha primeira maratona. O cinema plantou a paixão pelas grandes histórias, heróis dispostos a sacrificar tudo e mulheres tão lindas quanto audazes na hora de maior necessidade, afinal, Ripley e Sarah Connor formaram tanto meu caráter quanto Han Solo e Capitão Kirk. Já que estamos falando de história antiga (risos), minhas primeiras memórias são nebulosas, mas acredito que o primeiro filme no cinema tenha sido Atrapalhando a SWAT, dos Trapalhões. Foi ali que vi o trailer de O Retorno de Jedi e a tara por Star Wars começou. Aí vi o filme do He-Man. Só tenho essas lembranças da infância, meu pai não costumava me levar ao cinema. Na juventude, recomecei a visitar as salas com O Grande Dragão Branco, do Van Damme, vi Batman – O Retorno no inesquecível Cine Marabá, no centro de São Paulo, e daí não parei mais. Aliás, adorava ir até o centrão ver filmes baratinhos de tarde e até cabulava aula para isso. Ops, era segredo.

CH: Qual foi o conselho mais importante e eficaz que você já recebeu na sua carreira como escritor?

FMB: Para de frescura e escreve! Simples assim. Tenho uma mania besta de exigir demais de mim, meu nível de cobrança é quase infinito, então muita coisa morre no último capítulo, fica de lado por um problema ou outro. Filhos do Fim do Mundo saiu debaixo da porrada, pois, se dependesse de mim, eu teria ficado mais um ano reescrevendo. Ou um mês. Qualquer coisa que pudesse. Parecia drogado querendo mais uma dose. E esse conselho está ligado a outro mundo bom: termine as coisas. Pois, se você parar de frescura, escrever e terminar, olha, você tem um livro/roteiro pronto! É mais ou menos assim, a vida insiste em atrapalhar, nossa função é mandar ela para o inferno e escrever mesmo assim. Escritor é quem escreve, não quem passa anos dizendo que vai escrever.

CH: Você teria alguma dica para os escritores novatos?

FMB: Compre batom! (risos) Entre na literatura para ser escritor, não para ficar famoso. Medir sua validade, qualidade e relevância pelas exceções é pedir para fracassar. Quem entra no jogo para escrever, pode até demorar, mas vai se dar bem lá na frente. Simples assim.

CH: Por fim, você poderia nos revelar alguns de seus futuros projetos?

FMB: Acabei de contar aqui e tenho 13 romances estruturados, iniciados, quase finalizados e em outros tantos pontos do processo criativo. Como falei no Gente que Escreve #24, meu agente – Bruno Mendes – e eu estamos tentando forçar mão do mercado, mostrar uma alternativa, reavivar a relação de longo prazo entre autor e editora. Estamos vencendo as barreiras aos poucos, mas ainda há muito a ser feito. Então, com um pouco de sorte, qualquer um desses pode ver a luz do dia. Mas como não é nada legal ficar trabalhando nas sombras, e depois de investir tanto tempo nisso, precisamos pressionar o mercado de outros modos e, para isso, devo publicar um romance exclusivo na Amazon KDP até novembro de 2016. Devo finalizar Snowglobe, que é um projeto antigo e já passou por três encarnações, até novembro e já reiniciei o trabalho de adaptação de Filhos do Fim Do Mundo para o cinema e, ainda é segredo, mas estou na primeira fase de uma coautoria de uma ficção com base histórica inspirada numa das maiores tragédias de São Paulo. Ainda manterei o tema e a identidade da coautora em segredo, só posso dizer que o projeto está previsto para conclusão em 2017 e vai render um romance e um roteiro cinematográfico. Também vou lançar um novo conto de Halloween no início de outubro, seguindo o universo de A Velha Casa na Colina.

Gostaram da entrevista? Para saber um pouco mais sobre o que o Fábio M Barreto está fazendo ou dizendo, acesse suas redes sociais:

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