Conto | Sob os Olhos da Nova Espécie8 min de leitura

Morremos todos os dias. O que fomos ontem não seremos amanhã. Nossas células se transformam a cada dia e fazem da água em nossos corpos vapor. Mas a memória é de rocha, assim como nossos feitos, sejam eles bons ou ruins.

Passei a vida inteira fugindo. De amigos que não me aceitavam, amores que não se interessavam ou mesmo da família que não me queria. Relacionamentos me faziam alvo de chacota e zombaria, por isso fugia. Percebia rápido quando não me aceitariam, e com isso aprendi a ficar invisível, discreto, misturado na multidão medíocre. Talvez seja esse o meu destino. Ficar só. E cá estou eu, na companhia de minha lente de aumento e minhas amostras.

Não sou importante, não me são importantes.

Sempre achei a interação social uma verdadeira perda de tempo, talvez por minha natureza reservada, mas confesso que este aparelho é interessante. Registro meus pensamentos como se os escrevesse em papel. O texto é enviado automaticamente para o meu perfil do iCortex, mas não tenho seguidores. Minhas notas não são para serem compartilhadas.

O sistema também substitui o telefone, e raras são as pessoas que digitam números hoje. O aparelho é como um pequeno adesivo, que ostentado por muitos em diversas cores e estampas, me é preso à testa com a cor da minha pele. Uma recarga elétrica mensal é o bastante para usar serviços de voz e dados, mas o modo econômico me dá bateria inesgotável e não me preocupo, já que não entro em contato com ninguém. Uso o acessório como um relatório pessoal, nada mais.

Lembro do papel com saliva que ela grudava em minha testa para curar o soluço.

***

Examino um casulo encontrado no quintal. O estresse da cidade é ignorado aqui. Ouço pássaros e animais silvestres que circulam minha cabana de estudos. Fecho os olhos e identifico cada um deles. São como vizinhos, mas posso dissecá-los.

Também tenho vizinhos na cidade. Colegas de trabalho.

Trespasso lentamente a crocância da casca, a fim de observar a mariposa prematura. Nunca poderia ser um cirurgião, não bastasse meus problemas sociais e na fala, sofria de um mal que herdara do pai que não conheci. Minhas mãos tremem, mas não há ninguém para me avaliar agora.

Clarão. Mariposa. Alguém. Trovão.

Um raio me cortara a atenção. Dividi o animal numa forma bruta e grosseira. A gosma verde e opaca saindo do inseto não me causa enjoo, mas o baque me provoca soluços, amplifica minha tremedeira, diminui meu fôlego e castiga meus pulmões.

Gosto de estudá-los, de abrir seus órgãos analisando as diferentes pigmentações e texturas. Não sou nenhum doutor, por isso vejo-me como um caçador. Não uso pólvora ou armadilhas, nem sigo temporadas de caça, mas este é o melhor passatempo e cortá-los me faz sentir superior.

***

A noite chega abruptamente quando percebo que o estrondo descarregou meus geradores. Tateio os armários da cozinha, procuro velas ou minha antiga lanterna à dínamo.

Dor. Caí. Não vejo. Óculos.

Estanco o sangue do meu nariz com a manga da camisa de flanela. Meus óculos se espatifaram e minha visão é ainda mais comprometida. Alguns apertos no gatilho e a lanterna ilumina, mas minha vista é embaçada demais.

Sem energia, não há muito o que fazer aqui. Voltar para a cidade é a melhor opção. Sem meus óculos, levarei mais tempo e terei o triplo de atenção ao volante. Mas o caminho é simples, e já dirigi em condições piores numa época de muita neblina.

As chaves do carro, cabana e apartamento são registradas no iCortex, mas não funcionam no modo em que uso. Meu chaveiro estava próximo da lente de aumento na última vez em que o vi. De olhos cerrados, tateio com a ajuda da lanterna e vejo que as chaves estão soltas, sem o chaveiro de silicone que os juntava. A secreção do casulo reagiu de uma forma em que minha ignorância não pode explicar. As chaves estão aparentemente inteiras; muito brilhantes por sinal; mas o chaveiro foi consumido. Penso em armazenar o pútrido suco do inseto para experimentos no apartamento, mas minha visão é falha e não quero apostar no que isso faria em minha pele caso me descuidasse.

***

Os grilos e cigarras estavam em sintonia até eu dar a ignição. O ronco do motor também assustou aves próximas, molestando novamente a calmaria do ambiente. A fragilidade que sentia pela visão ruim diminui. Agora sou o trovão que me atrapalhara momentos atrás e voltarei para desmembrar todos vocês.

***

O caminho é simples, apesar de longo. Basta continuar descendo e seguindo com atenção até a cidade. Não vou conseguir dirigir nas ruas do centro, mas logo posso estacionar em um posto e chamar um táxi. Me concentro nas faixas luminosas do meio da pista. Talvez seja a minha vista fraca, mas elas parecem não ter absorvido o suficiente do sol hoje.

Airbag. Girando. Bile. Sozinho.

***

Meu pescoço dói, não sei que animal atropelei, mas pela velocidade em que eu dirigia, não fui seu assassino. Já devia estar morto, ou pelo menos em agonia.

Sinto o mesmo cheiro do corrimento do casulo que deteriorou meu chaveiro. Aponto a lanterna para os pneus. Danificados e fumegantes. Não vou verificar os restos do animal, ou posso ser o próximo a ser esmagado na estrada.

O posto não está tão longe. Mais dez minutos e já poderia estacionar, mas não posso contar com o carro agora, então tenho uns sessenta minutos a pé.

Tranco o carro e sigo descendo a pista. Não há calçada, mas mantenho a caminhada rente à mata. Os poucos postes fornecem o mínimo de iluminação; meus tendões sofrem enquanto energizo o escandaloso dínamo, mas a lanterna deve me proteger mostrando minha posição caso algum motorista venha na direção oposta.

Barulho. Animais. Não conheço. Corra.

Nunca fui um atleta, mas a adrenalina em minhas veias precisa manter os músculos fortes. Também não sou um biólogo, mas conheço os malditos da região. Passei anos cortando-os, separando-os; vivos ou mortos. Não reconheço esses ruídos que fazem agora. Algo dentro de mim está inquieto; me alerta do perigo. Eu corro.

Sapos não possuem chocalhos e morcegos não relincham.

***

Sustento o fôlego e chego até o posto. Vejo carros estacionados e o local parece estar funcionando; mas estou sozinho, abandonado até pelos soluços que me atormentavam na tensão.

Não posso sair. Os animais que não entendo estão lá fora. Se mortos, expelem sangue corrosivo, sabe lá o que podem fazer em vida.

***

O estômago me lembra que o lanche foi devolvido quando derrapei com o carro. Sinto fome e abro um pacote de biscoitos. Sinto sede e vou ao balcão do bar me servir. A lanterna ilumina o piso gorduroso e me atento à um curioso brilho no chão. Um dente. De ouro.

Posso ver.

A surpresa de ter reparado um detalhe tão pequeno mesmo sem óculos se esvai quando percebo que o chão ensebado está agarrando meus passos e corroendo a sola da minha bota. Tento me afastar da poça, mas não há área livre do fluido.

Corro tentando pisadas longas para preservar o calçado, vou em direção aos animais que não conheço. A adrenalina me ferve as têmporas e avanço sem apontar a lanterna no caminho.

Enxergo no escuro.

Passo por fivelas, anéis, e até alguns óculos que não necessito agora. Meu organismo se mantém alerta quanto ao ambiente estranho. Vejo animais com guelras subindo em árvores, insetos voando sem asas e formas microscópicas que agora possuem o meu tamanho. Eles me ignoram, mas sei que não posso parar.

E eu parei.

Nada do que vi hoje me fez parar, mas isso é diferente, inalcançável. O alarme do iCortex me envia o sinal de “boa tarde”, mas não há sol. O céu fora tomado por um olho gigante e abissal que escurecia o dia. A parte esbranquiçada que seria a esclera possui ranhuras vermelhas que pulsam como tentáculos nervosos. Me atrevo a dizer que vejo os anéis de saturno em sua íris; enquanto a pupila vai além do espaço.

Não posso fugir agora.

Passei a vida inteira fugindo. Não me aceitavam, não se interessavam, não me queriam.

Não me viam.

Eu só queria chamar a atenção.

Lembrei da ira da cidade que eu amortizara na cabana com as dissecações e crueldades com os pequenos animais.

O panorama me causa um deslumbre pavoroso quando um vento forte sopra contra mim.

Está me vendo.

Meus cabelos se desprendem. Estou mudando.

Meu corpo é levemente suspendido enquanto minha barriga e peito são abertos como as asas de uma mariposa que se prepara para o primeiro voo.

Sangue. Estômago. Pulmão. Coração.

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Leonardo Santhos

Nascido em 1985 no R’lyeh de Janeiro, teve sua mente alimentada por todo tipo de material fantástico, de quadrinhos e filmes de terror, até jogos de videogame e longos finais de semana jogando RPG com os amigos. Trabalha com dublagem, tradução, localização de games e escreve contos de horror. Aprendeu a ser invisível no teatro e no Ninjutsu, mas não consegue se esconder dos seus próprios pesadelos.

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