Crônica | Cá entre nós3 min de leitura

— Posso ir andando com a senhora?

— Eu estou com Deus, obrigada moço.

— Ai que ótimo! 3 é melhor ainda! Essa cidade anda tão perigosa a noite.

— É melhor eu apertar o passo…

— Eu estava mesmo rezando pra encontrar alguém pra não precisar ir sozinha. Esse caminho entre o metrô e o meu trabalho é super perigoso.

— O senhor trabalha na rua?

— Não. Trabalho no call center no fim da rua. A senhora está voltando da igreja?

— Sim.

— Eu costumava ir à igreja também mas parei. Não estava gostando das coisas que o pastor falava sobre o “meu modo de vida”.

— E ele lá estava errado? — a senhora ergueu as sobrancelhas.

— Pecados todos cometemos, não é?

—…

— Não vou dizer que sou inocente nem nada. E por mais que as pessoas não me aceitem eu tô tomando jeito na vida. Trabalho, vou voltar a estudar.

—…

— Quem sabe ainda não dou um testemunho lá na sua igreja?

— Tá amarrado! – A religiosa arregalou os olhos indignada.

— Acha que eu não posso?

— Testemunhos são para declarar vitórias e livramentos meu caro…

— E você quer mais vitórias? Eu sei que sou muito digno.

— Desse jeito?

Desse jeito como, hein?

— Quer dizer que nunca entregou atestado falso só pra não ter que ir trabalhar?

—…

— E aquele cara pedindo comida do lado da estação?

— Aquele que já riu várias vezes por mim quando eu passo?

— Exato. Ou vai me dizer que por não te entender ele virou menos necessitado?

—…

— Acho que você já tem algumas coisas das quais se livrar…

— Mesmo se eu parar com essas coisas você acha que a sociedade vai aceitar que eu seja quem eu realmente sou? Sem violência, sem julgamento, como iguais?

— É isso mesmo que você quer, só isso?

—?

— A situação está caminhando, a passos lentos, mas e depois o que vai sobrar? Alguém igual? Com a sociedade do jeito que está que tal ser melhor?

— A senhora fala como se um dia tudo fosse se resolver. Várias amigas minhas sofrem violência todos os dias. Somos tão errados assim?

— Que tal parar de se focar no errado, no pecado que os outros apontam e tentar ser alguém melhor? Por Deus, por você ou o que quer que seja. As vezes a única escolha enquanto as coisas se ajeitam é focar no que você pode fazer de bom.

—…

—Miga, sua louca!!! – Uma voz estridente soou no ar do nada — Que demora foi essa?

— E aí. Eu tava com medo de vir sozinha da estação e vim com essa senhora. Deixa eu te apresentar minha amiga…

— Apresentar quem sua travesti doida?! Não tem ninguém com você!

—…

— Fica andando por aí sozinha essa hora da noite pra ver, ainda mais toda montada desse jeito. Se quer ser estuprada avisa. Vamos logo, a gente tá atrasada.

— Mas eu não tava soz…

— Ai, vamos logo, só consegui comer um salgado enquanto te esperava — A recém-chegada jogou o papel do lanche no chão enquanto andava.

— E… amiga pega esse papel que você jogou do chão ai vai.

— Eita! O que foi?

— Já tem gente demais sujando a cidade.

— O que deu em você, meu Deus…

Ela olhou para trás enquanto a amiga pegava o papel do chão a contra gosto. Acho que eu não tava mesmo tão sozinha. Amém.

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Diego Vieira

Paulistano, formado em Marketing e viciado em séries. Ler é outro vicio que possui. Começou com Agatha Christie, passou por Sidney Sheldon e conheceu a obra de James Patterson, que influencia muitos de seus trabalhos em desenvolvimento. Comprou um kindle, mas não abre mão do livro físico e sempre tem um a mão. Ama contar histórias desde que aprendeu a falar e sonha viver disso. Acredita que qualquer situação pode gerar uma boa história, principalmente com uma dose de mistério e fantasia.
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