Costuro o aglomerado ambulante de pessoas até meu destino. Sinto o de sempre. Os olhos julgadores. Será que isso nunca vai parar? O Doutor disse que minha paranoia estava melhorando — bem que sempre achei que aquele merda não sabia de nada. Acho que eles não sabem que os percebo, ou, então, devem estar brincando comigo. Noto, como um por sexto sentido, eles dizendo em suas vozes sussurradas, gozadoras e cacofônicas, “lixo” “escoria” “decepção” “olha como é estranho”. Vejo outros olhares, nas frestas de portas e janelas, suas pálpebras cerradas, que me atingem em golpes cirúrgicos de um bisturi. Continuar lendo “Conto | O papelão em que me deito”
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Resenha | A Música do Silêncio
O livro “A música do silêncio” (144 páginas), de Patrick Rothfuss, é um spin-off da popular e bem avaliada trilogia “As crônicas do matador de reis”; a qual também guardo como uma das minhas melhores leituras de anos anteriores. Porém, o apego em como a narrativa funciona nos livros anteriores, “O nome do vento” e “O temor do sábio”, pode acabar fazendo a leitura desse livro não ser tão agradável para quem o iniciar aguardando algo semelhante aos anteriores. O próprio autor começa dizendo que esse não é um livro normal e que entende se não gostar da história; isso se refletiu em toda a crítica, que ficou bem dividia. Quem gostou, gostou muito e quem não gostou, quer simplesmente queimar e pisotear as cinzas desse livro e fazer ele perder o próprio nome. Continuar lendo “Resenha | A Música do Silêncio”
Conto | Contrato
Moscas zunem, em seus voos acrobáticos, próximo do rosto de Oliver, atrapalhando seu breve momento de êxtase. A faca, que antes achava tão pesada, estava firme em sua mão e ansiosa para sentir mais carne cedendo ao seu fio. Ele ainda não havia entendido como obtivera aquela arma, que instantes atrás não passava de um smartfone; por instinto ele compreendia que tudo à sua frente agora poderia ser moldado ao seu bel prazer. Um carro passa pela rua principal e preenche o beco com a luz amarelada do farol e o som metálico de seu motor. O rapaz está pálido, mas junto à palidez sangue escorre pelo rosto. Continuar lendo “Conto | Contrato”
