Resenha | Em Águas Sombrias

Por: Michel Costa

Segundo romance de Paula Hawkins, “Em Águas Sombrias” (Record, 2017) apresenta o drama vivido pelos habitantes da pequena Beckford, cidade situada no norte da Inglaterra conhecida pelos diversos afogamentos de mulheres ao longo dos séculos. Essa trágica sina começa a mudar quando Jules Abbot recebe em Londres a notícia de que Nel, sua irmã mais velha, também foi encontrada sem vida no local conhecido como “Poço dos Afogamentos”. Obrigada a retornar ao lugar que a traumatizou na adolescência, Jules se vê diante de um mistério que envolve não só a morte da irmã como seus próprios fantasmas do passado.

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Conto | Força da Natureza

Por: Diego Vieira

Após horas de caminhada, o explorador viu algo que mudaria sua vida para sempre. As pernas cansadas fraquejaram quando ele parou para tomar fôlego e observar os itens a sua volta.

Itens. Mercadorias. Esses foram os termos que passaram pela sua mente assim que percebeu o que era a vastidão colorida que ele estava desbravando cada vez mais. A fonte de desejo era a floresta amazônica, onde, perto da fronteira com o Acre, o explorador soube que poderia encontrar não só plantas, mas também pedras raras para vender.

Ele se curvou e olhou com mais cuidado para uma planta roxa que não conhecia. Era raro que não reconhecesse algo da vasta flora do país. Desde as folhas roxas pontudas até os filamentos alaranjados, o espécime ganhou sua curiosidade, já que havia poucas como aquela naquela clareira. Já imaginava quais eram suas propriedades e o quanto poderia faturar com ela.

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Conto | Estátuas

Por: Diego Vieira

É curioso como do nada paramos para pensar no quanto nossa visão do mundo muda com o tempo. Sempre fui muito observadora. Mal aprendi a falar e já perguntava e interagia com tudo o que via, vivo ou não. Mesmo sem entender algumas formas – só depois é que viria a “entender” o que era arte – mas já adorava observar e até dançar em volta de tudo e todos.

Costumo lembrar de mim como aquele bebê que vai tocando as coisas com cuidado, sentindo o mundo a sua volta e se maravilhando com cada descoberta. Chego a sorrir pensando nessa época em que tudo era novidade e parecia maravilhoso. As cores então, me hipnotizavam por horas. Adorava desde a forma como os fogos iluminavam o céu até os outdoors que mixavam imagens e palavras em histórias sem fim.

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Artigo | Leitura é o que interessa, o resto não tem pressa.

Por: Rodrigo Chama

Um dos efeitos da solteirice em estágio mais avançado, pasmem, é a total inabilidade para presentear os filhos dos amigos. Cada vez que recebo um convite por e-mail, Messenger ou WhatsApp, sinto uma enorme responsabilidade. Isso porque só dou livros de aniversário. E nem sempre são infantis.

Confesso que nem sempre acerto. Acho natural. A arte de escolher um livro se assemelha ao ato de compreendê-lo. Às vezes, simplesmente, não estão prontos. Ou não aprenderam a ler, ou não viveram o suficiente. Claro que apelo ao irmão mais velho ou aos pais a missão de contador de histórias. Voltaremos a este ponto mais a frente, porém, é nas palavras o lugar mais seguro para se reencontrar.

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Resenha | SAGA

Por: Yuri Szirovicza

(O texto abaixo não contém spoilers)

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A história de amor de Romeu e Julieta teve um fim trágico, mas como teria sido a vida de ambos, caso continuassem vivos? Será que o amor deles venceria tudo? Saga, de Brian K. Vaughan (obrigado por ter feito “Fugitivos”) e Fiona Staples é um Romeu e Julieta no qual os personagens decidem continuar seu amor e viajar por um universo “parecido” com o de Star Wars. OK, esse é um jeito muito raso para definir “Saga”, mas fica comigo que já explico porquê esse quadrinho é uma das melhores e mais apaixonantes obras dos últimos anos.

No quadrinho, acompanhamos a história de Marko e Alana, dois soldados em lados opostos de uma guerra que já dura tanto tempo que nenhum dos lados lembra o real motivo dela ter começado, porém, ambos os lados compartilham um ódio mútuo. Apesar da baixa probabilidade, Marko e Alana se apaixonam, fogem juntos e tem uma filha. Atrás deles, a fúria de dois exércitos que temem o que a união do casal e o fruto desse relacionamento representa para a guerra.

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Conto | Cada Gota do Seu Sangue

Por: Dyego Maas

Larissa perdeu outro dente naquela manhã. Era quase surreal a forma como uma tarefa tão banal como escovar os dentes, assumia mais a cada dia que passava um aspecto de auto-tortura e flagelo.

O dente, o incisivo central superior que ainda vinha resistindo em sua boca e que assumira um aspecto amarelado ao longo da última semana, como um reflexo doentio do estado físico decadente que se apossara dela, repousava inerte na pia do banheiro, e por pouco não fora engolido pelo ralo. Um pouco de sangue tingia de vermelho a espuma do creme dental que decorava o dente perdido.

Era o sexto que ela perdia em duas semanas. Larissa fechou os olhos lacrimejantes e inspirou fundo, segurando o ar em seus pulmões. Sentiu o fraco sabor do creme dental sendo ofuscado pelo gosto forte e ferroso do sangue que ainda escorria em pequena quantidade da sua gengiva. Era uma sensação nova e inesperada.

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Conto | A Longa Caminhada

Por: Tiara Gonçalves

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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