Resenha | Jogador Nº13 min de leitura

Adaptado para o cinema por ninguém menos que Steven Spielberg, “Jogador Nº1” (Editora Leya, 2015, com tradução de Carolina Caires Coelho) não é uma história convencional. Para começar, poucas obras foram capazes de reunir tantas referências à cultura pop de maneira tão orgânica quanto o romance de Ernest Cline. Em 464 páginas, o autor estadunidense conduz o leitor através de uma jornada pelo imaginário nerd com foco especial nos anos 1980.

Outro aspecto que chama a atenção é que, ainda no prólogo, Cline estabelece para o público que o protagonista, o jovem Wade Watts, alcançou parte de seu objetivo. E não é difícil para o leitor mais atento perceber que o herói teve êxito em sua missão. No entanto, apesar dessa revelação, a narrativa fisga o leitor com uma questão simples: como diabos ele conseguiu?

A história começa com o protagonista descrevendo o futuro decadente do ano de 2045. Nessa realidade, a Terra atravessa uma grave crise energética e econômica, restando às pessoas, sobretudo as mais pobres, passar os dias no OASIS, um mundo virtual onde quase tudo é possível, inclusive esquecer uma existência miserável. Dentro do OASIS, as pessoas podem estudar, trabalhar e experienciar aventuras incríveis, isto é, desde que caibam no orçamento de cada usuário, uma vez que nem tudo na plataforma é gratuito.

Escrevendo em primeira pessoa, Cline coloca o leitor no ponto de vista do protagonista, um jovem órfão que mora numa comunidade pobre construída precariamente a partir de diversos trailers empilhados, uma visão bastante crítica e pessimista dos rumos atuais dos Estados Unidos, um lugar onde alguém como Wade dificilmente conseguiria sair.

Contudo, o mundo de Wade muda por completo quando é anunciada a morte de James Halliday, famoso bilionário e um dos criadores do OASIS. Em seu vídeo póstumo, Halliday revela que está deixando toda sua fortuna para quem conseguir encontrar a série de easter-eggs que ele implantou no próprio OASIS.

Como era de se esperar, o anúncio dá início a uma caçada que envolverá o mundo inteiro. Wade, cujo codinome passa a ser Parzival, e outros aficionados pela biografia de Halliday passam a ser chamados de caça-ovos e dedicam suas vidas à busca pelos easter-eggs. Paralelamente, o interesse pela fortuna de Halliday também desperta o interesse de grandes corporações como a IOI (pronuncia-se “ai-ou-ai”) que farão de tudo – e aqui leia-se tudo mesmo – para encontrar as pistas primeiro.

Além da corrida pelo grande prêmio que move a história, chama a atenção também a diversidade de personagens. Além de Wade/Parzival e seu humor irônico e ácido, outras figuras interessantes desfilam pelas páginas. A começar pela blogueira e exímia caça-ovos Art3mis, cuja personalidade chega a ser mais cativante que a do protagonista. Aech, melhor amigo de Wade, e os japoneses Daito e Shoto completam o núcleo central dos heróis, enquanto a IOI se personifica em Nolan Sorrento, um executivo desprovido de escrúpulos.

Todavia, é a personalidade de Halliday que permeia a história. De típico nerd dos anos 1980 a maior bilionário do mundo, vemos um homem atormentado por um amor não correspondido vivendo recluso apesar de toda fama que o cerca. Porém, é sob a forma virtual do poderoso mago Anorak que Halliday se torna o condutor da trama que leva Wade a seu destino dentro do Oasis.

Num cenário que mescla ficção científica com fantasia, “Jogador Nº 1” abriga muitas camadas como a crítica ao capitalismo em sua forma mais selvagem, desenvolvimento sustentável, comportamento nas redes sociais, além de questões relevantes como racismo e gênero. Tudo embalado na forma de uma aventura inesquecível capaz de fa00zer o leitor participar ativamente da caçada de Wade e se sentir ganhador ao final da última página.

Capa: Editora Leya

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