Resenha | A Menina Que Roubava Livros4 min de leitura

Em 2007, há exatos dez anos, o mundo foi apresentado à emocionante história de Liesel Meminger em A Menina que Roubava Livros, escrito por Markus Zusak e publicado no Brasil pela Editora Intrínseca. A obra – que mescla ficção com um período assustador da história mundial – já é considerada um clássico juvenil desta geração e ganhou, inclusive, uma adaptação cinematográfica lançada em 2014.

A Menina que Roubava Livros é narrado pela personificação da Morte. Vemos tudo através dos olhos dela. No livro, Liesel Meminger é uma menina alemã que vive o auge do Regime Nazista e do domínio de Hitler. Ela é lançada nos braços de uma estranha família sem saber o motivo, enquanto a mãe biológica desaparece de sua vida e o irmão mais novo é levado pela Morte, deixando-a completamente sozinha. Pelo menos, no começo. Ao mesmo tempo, Liesel descobre aquilo que a definiria pelo resto da vida: o prazer em roubar livros.

Zusak é extremamente delicado em sua narrativa. Ele apresenta a trajetória de Liesel por meio das palavras da Morte, personagem que coleta almas ao mesmo tempo em que coleta histórias. A de Liesel é uma daquelas poucas que são carregadas pela narradora com carinho no bolso. Afinal, a Morte é fascinada pela menina e por aqueles que fizeram parte de um breve pedaço da vida dela.

Trecho do livro "A Menina que Roubava Livros", onde está escrito: "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler".

Mesmo que sua natureza indique o contrário, a Morte é extremamente suave em suas palavras. Ela também dá um nome especial e cheio de significado a Liesel, chamando-a de Roubadora de Livros.

A Morte, então, tece a história da jovem Roubadora de Livros de forma terna, quase uma pintura aos nossos olhos, procurando realmente explorar cada centímetro de toda palavra empregada, nos fazendo experimentar cada momento de Liesel de maneira tão vívida. As descrições utilizadas por Zusak e expressas pelos lábios da Morte trazem à nossa imaginação o sentimento exato que um objeto, paisagem ou pessoa poderiam realmente provocar.

E talvez essa tenha sido a intenção de Zusak, já que a narrativa de A Menina que Roubava Livros é tão única e peculiar, diferente mesmo de outras obras suas, como O Mensageiro. Liesel, com certa dificuldade e muita paciência (sua e dos outros), aprende o poder que as palavras podem ter. Ela entende que a influência dominadora de Hitler não proveio de sua brutalidade, esta sendo uma decorrência de seus intuitos. A força do ditador adveio de seu discurso manipulador, fazendo com que ele conseguisse entrar na mente da população e, assim, subjugá-la aos próprios ideais e propósitos. Liesel, então, descobre que as palavras podem construir – ou destruir – o mundo.

Texto escrito por Markus Zusak, autor de "A Menina que Roubava Livros". Está escrito: "Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito".

Por meio das palavras, ela mantém Max, o judeu do cabelo feito de penas, vivo. Liesel também aprende que tem um pai de verdade, o cumpridor de promessas de olhos prateados, e a amá-lo como sua pessoa mais importante. Ela se aproxima cada vez mais de Rudy, seu amigo de cabelos cor de limão. Ela constrói vínculos com os moradores de Molching e da Rua Himmel, abrindo portas para aqueles que se encontram mais perdidos. Por meio das palavras, Liesel ajuda a manter a calma enquanto todo o mundo desaba ao redor, e começa a entender a realidade em que vive. Liesel descobre quem ela é para si mesma e para os outros. E, por meio das palavras, a Roubadora de Livros sobrevive.

Da mesma forma como parece dançar com o leitor em sua narrativa, a Morte também é bastante precisa ao informá-lo de que eventos trágicos irão tomar parte na vida de Liesel. Como ela mesma explica, seu objetivo ao antecipar alguns acontecimentos é apenas o de amortecer o impacto de tanto sofrimento. Esse artifício de construção narrativa utilizado por Zusak pode prejudicar levemente a obra, no sentido de que não existe aquele fator surpresa em determinados momentos. Por causa disso, também já começamos a nos agonizar com algumas reviravoltas do enredo desde cedo. Mas, realmente, o duro golpe da dor é bem menor quando nos atinge.

Não que seja algo que prejudique o desenrolar da trama. A Menina que Roubava Livros age sobre nós como um ímã do começo ao fim. Assim como Liesel e a Morte, Zusak sabe muito bem como empregar seus termos e expressões. Ele é um Desbravador de Palavras.

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Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.
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