Resenha | Desventuras em Série4 min de leitura

Querido leitor,

Sinto muito dizer que a resenha a seguir é bastante desagradável. Ela conta sobre as tristes aventuras dos jovens Baudelaire em Desventuras em Série, coleção de livros escrita pelo infeliz Lemony Snicket. Eu entendo se quiser largar este texto agora e procurar por uma resenha mais alegre, que fale de alguma história onde os personagens não precisam enfrentar vários infortúnios e desprazeres enquanto fogem de um vilão cruel e ardiloso. Quem sabe um conto sobre um elfo feliz, em uma floresta encantada, onde nada de ruim pode acontecer?

Não se convenceu? Pois bem, não diga, depois, que não avisei… Está mesmo preparado? Então, vamos lá. Pegue alguns lenços de papel, pois agora escreverei sobre uma história que tirou toda a esperança de meu coração.

Desventuras em Série narra a história dos três órfãos Baudelaire logo após perderem os pais em um misterioso acidente. Cada um deles possui uma habilidade específica, que os ajuda ao longo de suas desventuras. Violet, a mais velha, é criativa e adora inventar coisas. Klaus, o irmão do meio, é curioso e gosta de ler sobre tudo. Já a caçula Sunny pode não saber falar ainda, mas tem dentinhos muito afiados, capazes de perfurar até mesmo a pedra mais dura.

Ao longo dos 13 livros, Violet, Klaus e Sunny precisam encontrar um lugar para chamar de lar. Como todos ainda são muito novos, não podem cuidar sozinhos da herança deixada pelos pais, por isso precisam de tutores. O problema é que o primeiro guardião que arrumam é justamente o terrível Conde Olaf, um homem sem coração e nem escrúpulos.

Sorte a nossa que os jovens Baudelaire são mais espertos que o vilão e conseguem sempre dar um jeito de escapar no final de cada livro. Azar o nosso que os demais adultos da história são tão ingênuos a ponto de nunca desconfiarem das armações sórdidas do desalmado vilão.

Desventuras em Série tem uma narrativa própria, diferente de grande parte das histórias do mesmo gênero. Todos os livros são bem curtos, rápidos, e viajam sem rédeas pelo impossível. Talvez esse seja um dos grandes encantos da obra. Não existem limites para o absurdo e, nós, como leitores, precisamos apenas nos deixar levar pelas palavras de Snicket enquanto as crianças buscam, de maneira cada vez mais criativa, superar os desafios impostos pelo maligno Conde Olaf.

Os seis primeiros volumes têm uma narrativa semelhante. Os irmãos são enviados logo no começo de cada história para um novo guardião. No entanto, logo se deparam com algum truque de Olaf, sempre vestido com os mais elaborados disfarces.

Nos demais livros, as desventuras das crianças se tornam mais contínuas e interligadas, na medida em que os mistérios envolvendo a morte dos pais são aos poucos desvelados e, também, se tornam mais confusos.

Isso porque a história realmente embarca na ideia do absurdo e não procura resolver todas as questões que são colocadas ao longo da obra. E são muitas as perguntas. Talvez ao final do último capítulo tenhamos até mais dúvidas do que certezas. Pode ser que isso seja um problema para os mais curiosos, mas não estraga a experiência da série. Afinal, o que conta aqui é justamente a jornada vivida pelas crianças e a afetividade que elas sentem umas pelas outras.

Outro personagem importante a ser mencionado é o próprio Lemony Snicket. Sim, ele faz parte da própria obra. O nome, na verdade é o alter ego de Daniel Handler. Snicket foi criado para trazer um pouco de verossimilhança à história e dar a impressão de que Violet, Klaus, Sunny e o Conde Olaf são realmente reais. E isso só deixa o leitor ainda mais envolvido. Afinal, ficamos com a impressão de que a história realmente aconteceu e somos parte dela de alguma forma.

Snicket está o tempo todo conversando com o leitor e relatando suas tentativas de encontrar os jovens Baudelaire. O único problema, no entanto, é que isso acaba cansando após algum tempo, por mais divertidas que sejam as observações do escritor.

Muitas vezes ele quebra alguma ação envolvendo os órfãos para narrar alguma peripécia própria, perdendo o fio da narrativa. Outras vezes, insiste demais na tragédia que paira sobre a vida dos irmãos. Caso você, leitor, resolva ler os 13 volumes em sequência, essa insistência pode cansar um pouco.

No mais, Desventuras em Série é uma obra memorável. Se resolver embarcar nesta aventura, vá de cabeça aberta. Esteja preparado para enfrentar muitos percalços e combater inimigos perversos, mas inventivos. E não se esqueça de que você terá três jovens criativos, inteligentes e muito corajosos ao seu lado.

Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.

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