Resenha | Harry Potter e a Criança Amaldiçoada10 min de leitura

[ALERTA DE SPOILERS]

“Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” foi lançado mundialmente no dia 31 de julho deste ano, data que também celebrou o aniversário do protagonista Harry Potter e de sua criadora, J. K. Rowling. O livro traz a história de Harry, Rony e Hermione anos após a Batalha de Hogwarts, quando Voldemort fora finalmente derrotado. Mas, desta vez, eles não são os protagonistas, ao menos no começo. Nesta nova obra, acompanhamos as aventuras (e desventuras) vividas por uma nova geração de personagens.

A trama gira em torno de Albus Potter, filho de Harry e Gina, e sua relação complicada com o pai. Ao ser o único da família a ser escolhido para entrar na Casa Sonserina em seu primeiro ano em Hogwarts, Albus se sente deslocado e incapaz de viver à sombra da glória conquistada por Harry. Ao longo dos anos, o garoto se torna cada vez mais amargurado por não corresponder às expectativas depositadas nele e se afasta de todos que se importam com ele, menos de seu melhor amigo, Scorpius Malfoy, filho de Draco Malfoy e também membro da Sonserina.

No início de seu quarto ano em Hogwarts, Albus descobre que existe uma forma de consertar um dos erros atribuídos ao pai no passado: voltar no tempo e salvar Cedrico Diggory da morte durante o Torneio Tribruxo. No entanto, brincar com o passado é algo complicado e Albus e Scorpius acabam não apenas salvando Cedrico da morte, mas também mudando completamente o próprio presente. Impedir que Cedrico seja morto ao vencer a última prova da competição, os dois jovens permitem que Voldemort vença o confronto final com Harry e se torne, de fato, Lorde das Trevas. Para remediar os próprios erros, Albus e Scorpius precisam se unir a Harry, Rony, Hermione, Gina e Draco e, assim, salvar o futuro que quase lhes fora roubado.

Ao contrário do que acreditam muitos fãs do bruxinho inglês, “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” não se trata de um livro em si, mas sim da publicação do roteiro de uma peça de teatro encenada em Londres também no dia 31 de julho. Disponibilizar o roteiro dessa forma foi uma maneira de permitir que leitores do mundo todo pudessem ter acesso à continuação da história de Harry, já que a peça estaria disponível apenas a um público restrito. Considerando que qualquer coisa que leve o nome Harry Potter seja garantia de sucesso (principalmente se for embalada em formato de livro), essa foi uma decisão acertada em termos de marketing, especialmente para reacender a paixão dos leitores por uma história tão amada no mundo todo às vésperas do lançamento de “Animais Mágicos e Onde Habitam”, filme ambientado no universo mágico criado por Rowling.

No entanto, o formato adotado precisa ser levado em consideração e pode ter sido um pouco prejudicial em se tratando do ritmo da história. Quando falamos sobre uma peça de teatro, um roteiro é apenas um dos elementos que compõe um todo. É preciso considerar figurino, cenário, iluminação, música, direção, atuação, entre outros. Todos estes elementos trabalham em conjunto para proporcionar uma completa imersão dos espectadores na história e ditar um ritmo narrativo consistente. O roteiro teatral traz apenas os diálogos e alguns detalhes da cena representada para que os atores saibam como se posicionar no palco. Além disso, existem alguns recursos característicos da narrativa teatral, como a forma de mostrar a passagem do tempo, que funcionam apenas no teatro e perdem bastante significado ao se restringirem à escrita.

No caso de “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, grande parte do desenvolvimento da trama é prejudicada justamente por causa desse formato. Pouca informação sobre os personagens é apresentada e muito do desenrolar da própria história é preciso ser adivinhado pelo leitor. É claro que a imaginação é parte essencial da leitura, mas é preciso que exista uma base para que ela possa ser instigada.

De certa forma, trazer apenas o roteiro e não transformá-lo em livro de fato pode ter se mostrado desrespeitoso ao leitor que esperou por quase 10 anos para saber o que havia acontecido a Harry e para, mais uma vez, embarcar no expresso vermelho na Plataforma 9 ¾ em direção a Hogwarts. Aliás, Hogwarts, castelo que se tornou lar para milhares de fãs, foi completamente negligenciado na trama. O que lemos sobre o lugar é quase nulo e o sentimento de identificação proporcionado pelos outros volumes de Harry Potter é enfraquecido consideravelmente. O que vemos aqui é o valor da marca se sobressaindo ao valor do produto em si.

Mas isso não quer dizer que Rowling não devesse expandir seu universo ou até mesmo explorar outros formatos de mídia. Se considerarmos os preceitos da cultura da convergência, isso na verdade se torna essencial caso a autora realmente queira manter sua história viva por muitos anos e atingir os mais variados públicos. A questão aqui é saber usar o formato certo e saber se comunicar de forma correta com o público específico de cada tipo de mídia. Lançar um roteiro de uma peça como se fosse um livro talvez não seja a maneira mais adequada.

Outra questão que pode ser comentada aqui é sobre quem de fato escreveu o roteiro. Apesar de levar o nome da Rowling, a autoria deve ser creditada na verdade a Jack Thorne e John Tiffany. A inglesa só escreveu o argumento. Muitos dizem que apenas Rowling poderia ter feito um trabalho exemplar com a história. De fato, é visível a falta de intimidade de Thorne e Tiffany com os personagens e com a história em si, mas isso não quer dizer que outros escritores não poderiam trabalhar bem em cima desse universo mágico, caso Rowling realmente decidisse não escrever mais sobre Harry Potter.

Como de fato aconteceu com George Lucas. Ele criou o universo de Star Wars, mas muitas outras pessoas deram continuidade à mitologia em diversas plataformas, como livros, jogos, animações e até mesmo filmes. Inclusive, muitas obras posteriores são consideradas melhores inclusive que os episódios I, II e III, como é o caso da “Trilogia Thrawn”. E o universo de Lucas continua crescendo até hoje, pois é isso que os fãs querem. E nada disso é uma ofensa ao autor original, mas sim uma homenagem, perpetuando ainda mais o seu legado.

Não é por acaso que existem tantas histórias escritas por fãs (fanfics) na internet, não só de Harry Potter e Star Wars, mas de várias outras obras tão emblemáticas quanto. Da mesma forma, não é à toa que leitores constantemente releem suas obras preferidas, pois querem se sentir cada vez mais conectados aos personagens e aos universos criados nos livros. Expandir Harry Potter e deixar que outros também comecem a contar histórias sobre o bruxinho não seria nada mais do que natural, e que de fato vem acontecendo, mas não de forma oficial.

O que destoa no caso de “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” é que, como já foi apontado anteriormente neste texto, não existe identificação entre autores e personagens. Eles não escrevem sobre um Harry ou uma Hermione que poderiam fazer sentido nos livros originais, mas sobre personagens que precisam se adaptar para que o roteiro faça sentido.

Só isso poderia explicar o fato de Hermione se tornar Ministra da Magia. Isso não quer dizer que ela não poderia ser Ministra – se existe alguém capaz de ser o que quiser nos livros, essa pessoa é a Hermione –, mas não condiz muito com o desenvolvimento da personagem em si. Embora tenha se envolvido com política em “O Cálice de Fogo” em busca da libertação dos elfos domésticos e tenha sido peça fundamental na guerra contra Voldemort, Hermione é, sem sobra de dúvidas, uma personagem apaixonada pela academia e pelo aprendizado. Imaginá-la longe da escola ou infeliz lecionando (como acontece em uma das mudanças temporais causadas por Albus e Scorpius) é algo quase impensável. Harry, inclusive, se posiciona muito mais como líder na crise enfrentada pela comunidade bruxa em “A Criança Amaldiçoada” do que ela. O único motivo para explicar a carreira de Hermione como Ministra seria para dar o devido poder a ela quando necessário para possibilitar a fluidez do roteiro, demonstrando o quão frágil este é.

Harry é outro personagem que precisa se adaptar para se inserir no drama criado para ele e o filho. Enquanto Albus lembra o pai na época da “Ordem da Fênix”, angustiado e cheio de raiva pela falta de compreensão dos outros e pela constante necessidade em mostrar seu valor, Harry parece ter esquecido que já resolvera seus problemas com Dumbledore e engata em uma discussão sobre amor com uma lembrança do bruxo mais velho. Enquanto Rowling já havia concluído com maestria esse capítulo da vida dos dois personagens (caso contrário, a ferida aberta de Harry não o teria permitido dar o nome do antigo diretor ao filho do meio), Thorne e Tiffany apenas apresentam um diálogo fraco e inconcluso com o intuito de apaziguar os sentimentos conflitantes de Harry em relação a Albus.

Já Rony parece simplesmente servir como alívio cômico e, além de não se envolver diretamente nas decisões tomadas por Harry e Hermione, é sempre mostrado como fraco e até mesmo patético em algumas ocasiões. Enquanto isso, Gina não demonstra toda a força e convicção que a personagem tem nos livros, passando apenas como mulher do Harry e mãe dos filhos dele. Embora o protagonismo do livro deva ser da nova geração, não é possível ignorar o fato de que personagens importantes tenham sido escritos de forma inconsistente.

Talvez o personagem mais bem desenvolvido seja o jovem Malfoy. Sem sombra de dúvida o personagem mais carismático da história, logo Scorpius assume o protagonismo ao lado de Albus e se torna fundamental não só para o desenrolar da trama, mas também para a redenção do pai e o crescimento do amigo como personagem. E talvez essa seja uma das formas encontradas pelos autores para dialogar com as gerações mais novas, que não cresceram com Harry Potter, mas aprenderam a fazer parte deste mundo recentemente, pois a história dialoga constantemente com conflitos familiares e a importância da amizade, temas recorrentes em obras escritas para adolescentes e jovens.

No geral, talvez o que tenha faltado na obra fosse um pouco mais de carinho para com os fãs em escrever um texto que conseguisse demonstrar força e consistência narrativa e não apenas se vender como uma marca. Harry Potter não só desvelou o mundo da leitura para milhares de crianças e jovens, como também abriu caminhos para uma nova safra de livros fantásticos e infanto-juvenis. O mundo mágico criado por Rowling acabou se tornando um lar para milhares de leitores e seria maravilhoso poder continuar acompanhando não só as aventuras de Harry e Albus, mas também de outros personagens inseridos nesse universo.

Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.

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