Um dia pego minhas tralhas e sumo.
Cansei desse ambiente petrolífero. Há petróleo nos carros e no asfalto. Tudo gira em torno do líquido preto e espesso que torna grossos os modos e fino o sangue de quem aqui fica.
Juro que qualquer dia eu me mando.
Estou farto desse ecossistema concretado. Há concreto nas pontes e nos prédios. Tudo é constituído do sólido cinza e rígido que endurece a alma e amolece a mente de quem nele habita.
A chuva, que por aí penetra o solo e produz vida, aqui martela o asfalto e irriga os ralos, não sem antes germinar o caos. É a terra das ruas alagadas e corações áridos.
Não suporto mais gerar planilhas, documentos, relatórios e slides. Quero produzir algo mais que bits e bytes.
Um tomate, que seja.
Nem me lembro da última vez em que coloquei o pé descalço no chão. Não no piso frio da cozinha ou quente do asfalto. O verdadeiro chão, aquele da infância. Quero encardir o pé até ser obrigado a arear com escova ou pedra-pomes para poder enxergar as linhas da sola.
A metrópole me atrai e, como um imã, não me deixa partir. O carro, o apartamento, o emprego, a família, o shopping, as facilidades. Encontrar um restaurante aberto às três da manhã.
Às favas com a comida notívaga. Quero ouvir o coaxar dos sapos às três da manhã.
Aqui nunca temos, nunca somos.
Queremos ter o próximo modelo. Queremos ser o próximo objetivo.
O que queríamos ser e ter não valem mais, se já tenho ou já sou.
Evaporou.
Sei que o concreto moldou meu ser e que sou demasiadamente urbano.
Mas o resto que me resta de humano me diz que um dia ainda eu vou mudar.
Aí você vai se perguntar: cadê aquele cara?
E ouvirá apenas o som das buzinas e das sirenes como resposta.