Conto | Curimbatá

Recolho a linha irritado, não tenho paciência para pescar curimba. Adoro a pesca do dourado, o valente lutador que ataca a presa com convicção e que, quando fisgado, salta por conta própria sobre a linha d’água como quem dá um recado de que lutará com galhardia até o fim para não ser privado de sua liberdade.

Já a curimba parece envergonhada ao cercar a isca, como um urubu que voa em círculos sobre a carniça, dá uma bicada e avoa de novo. Parece valorizar mais o balé orquestrado pelas correntes de ar do que a própria refeição putrefata.

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Conto | Ziploc

Se você quer a resposta sincera para o motivo de eu comprar este carango semivelho parcelado em mais meses do que ele provavelmente irá durar, terá que aceitar a mole verdade: catota.

Veja bem, eu pedalo desde sempre — muito antes de ser cool e meio de transporte preferencial dos barbudos descolados. Para mim, que sou alheio aos modismos e ciente das condições climáticas, andar de bicicleta sempre foi cool no inverno e hot no verão. A verdade é que a magrela só virou status para quem não depende dela para sobreviver. Nunca vi um adesivo “eu ❤ bike” colado em uma Monark, uma Caloi ou em uma Barra Forte. Por outro lado, em carrões importados já vi muitos.

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Prosa poética | Habitat natural

Cada um habita o espaço que lhe convém.
Alguns habitam uma casa, um emprego, uma ideia.
Outros moram na vaidade, ególatras que são.
Hoje eu moro no vazio.
Habito o nada.

Já fui desses que tem uma razão, um motivo, um porquê.
Já vivi na certeza, já fui inteiro.
Agora trago comigo o oco, o vago, a lacuna, o hiato.
Hoje eu moro no vazio.
Simplesmente não pertenço.

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Conto | Arrependido

Puxei o gatilho sem pensar. Era uma questão de sobrevivência. Ou ele, ou eu. Escolhi a mim, o que é óbvio. Preferi ser narrador a ser personagem nessa história.

O tiro foi certeiro, o que me surpreendeu, já que eu nunca tinha nem mesmo empunhando um revólver. Certeiro no sentido de que acertou, não que tenha sido cirúrgico  —  um tiro-ponto indiano no centro da testa —  nada disso. Foi daquelas mortes lentas e dolorosas.

Acertei as tripas (ou vísceras, não sei o termo exato). Palavras certas não vão deixar bonita a cena errada.

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Conto | O resto que me resta

Um dia pego minhas tralhas e sumo.

Cansei desse ambiente petrolífero. Há petróleo nos carros e no asfalto. Tudo gira em torno do líquido preto e espesso que torna grossos os modos e fino o sangue de quem aqui fica.
Juro que qualquer dia eu me mando.

Estou farto desse ecossistema concretado. Há concreto nas pontes e nos prédios. Tudo é constituído do sólido cinza e rígido que endurece a alma e amolece a mente de quem nele habita.

A chuva, que por aí penetra o solo e produz vida, aqui martela o asfalto e irriga os ralos, não sem antes germinar o caos. É a terra das ruas alagadas e corações áridos.

Não suporto mais gerar planilhas, documentos, relatórios e slides. Quero produzir algo mais que bits e bytes.

Um tomate, que seja.

Nem me lembro da última vez em que coloquei o pé descalço no chão. Não no piso frio da cozinha ou quente do asfalto. O verdadeiro chão, aquele da infância. Quero encardir o pé até ser obrigado a arear com escova ou pedra-pomes para poder enxergar as linhas da sola.

A metrópole me atrai e, como um imã, não me deixa partir. O carro, o apartamento, o emprego, a família, o shopping, as facilidades. Encontrar um restaurante aberto às três da manhã.

Às favas com a comida notívaga. Quero ouvir o coaxar dos sapos às três da manhã.
Aqui nunca temos, nunca somos.

Queremos ter o próximo modelo. Queremos ser o próximo objetivo.
O que queríamos ser e ter não valem mais, se já tenho ou já sou.

Evaporou.

Sei que o concreto moldou meu ser e que sou demasiadamente urbano.

Mas o resto que me resta de humano me diz que um dia ainda eu vou mudar.

Aí você vai se perguntar: cadê aquele cara?

E ouvirá apenas o som das buzinas e das sirenes como resposta.

Conto | Reminiscências (Lado B) - Esmaecer

Perdi meu amor e não foi no paraíso!

Se hoje faço graça é porque o tempo se encarregou de amenizar a minha dor. E também porque decidi que não iria viver arrastando correntes. Olhando em retrospecto tudo parece um filme que assisti há muito tempo em algum cinema de carpete encardido e com cheiro de mofo. Ficou apenas a sensação de conhecer aquela história, não nos detalhes, mas de ter visto tudo aquilo. Continuar lendo “Conto | Reminiscências (Lado B) – Esmaecer”

Conto | Reminiscências (Lado A) - Indelével

— Você sabe quem eu sou, Cláudio?

Ela está parada próxima à porta do quarto, como que indecisa se pode aproximar-se de meu leito e com cara de quem anseia por uma resposta afirmativa. Seu nariz avermelhado, os olhos cansados e o lenço espremido em sua mão direita denunciam o choro recente.

Algumas perguntas têm respostas simples — um sim ou não resolve a questão. Outras perguntas, como a que ela me fez, são cheias de nuances. Mesmo que aceitem o binário como resposta, às vezes, uma palavra de três letras não é suficiente para expressar a totalidade da verdade.

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Conto | O Porblmea

Se soubesse de antemão que morreria de forma estúpida, Carlinhos talvez tomasse precauções que o impedissem de trilhar o caminho do falecimento precoce. Mas, cabeça dura como era, alertá-lo desse desfecho seria perda de tempo. O problema de Carlinhos era ter cabeça dura, mas ela não era à prova de balas.

Assim que morreu, o cheiro de merda preencheu o ar. O tiro, dado a curta distância de sua fronte, transformou o ambiente em uma obra de arte. Carlinhos, contrariando as leis da física, ocupava mais de um lugar no espaço ao mesmo tempo.

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