Conto | Maldita Noite de Oktoberfest13 min de leitura

DESABAFO – 10 de Julho de 2015

Recusaram outro conto meu. Já faz dois anos que escrevo e ainda não tenho um conto sequer selecionado para uma antologia. Talvez seja a minha insistência em escrever contos de terror. Já me disseram que tenho uma mania de inventar moda e tentar inovar demais. Quer saber? Que se fodam as antologias, e que se foda o que os outros pensam.

FIM – 11 de Julho de 2015

Este é provavelmente meu último post. Escrever talvez não seja para mim, e o meu ego já não suporta mais os golpes cruéis e desproporcionados da crítica, sempre dura e às vezes injusta. Assim sendo, não espere por novidades tão cedo.

CONSIDERE-SE AVISADO – 02 de Outubro de 2016

Se porventura você chegar ao fim deste post, considere-se avisado, pois o que segue não é um mero conto ou ensaio, mas um relato doloroso da pior noite da minha vida. É a descrição em detalhes, ou pelo menos, do que a minha mente quebrada é capaz de recordar, de uma maldita noite de Oktoberfest, que aconteceu quase um ano atrás.

Nada podia ter me preparado para o que o vislumbrei naquela noite idílica. Minha desgraça não foi a festa em si, mas o que veio no pacote. Mesmo depois de um ano as lembranças daquele lugar escuro, daquela noite infernal, até hoje me atormentam. Acordei no breu total que, para minha sorte, ou azar, acentuava o sentido do olfato e exacerbava o cheiro de mofo e de… outra coisa, que eu ainda não era capaz de identificar. Esse odor desagradável permeava o ar, como uma podridão suave que insiste em permanecer e que fazia meu estômago se embrulhar. Foi então que me dei conta da dor excruciante que afligia meus braços e pernas, esticados sabe-se lá há quanto tempo. Eu estava acorrentado e não fazia ideia de onde estava.

Eu tinha sede e estava faminto como se não comesse há dias. O lugar era desprovido de janelas e de qualquer fonte de luz. As trevas alimentavam, lentamente, o sentimento crescente de solidão. Gritei por ajuda, e não houve resposta. Eu já deveria saber. Quando alguém te sequestra, nunca é com boa intenção. Eles não te levam para um lugar onde possa conseguir ajuda. Não é assim que funciona. Eles te levam para longe. Para um lugar afastado, isolado e inóspito. Eles te levam para aquele lugar que nem o carteiro sabe chegar ou então se recusa a encontrar. Sem dúvida, era num lugar desses que eu estava.

Passado o desespero inicial, veio uma calmaria momentânea, na medida em que fui percebendo que desperdiçava minhas energias inutilmente. As correntes eram fortes e não iam ceder. A dor de cabeça eu conhecia muito bem, e era certamente resultado das minhas aventuranças na cidade durante a Oktoberfest. Era difícil pensar objetivamente. Ainda assim, eu precisava avaliar a situação e descobrir uma forma de escapar, ou pelo menos, de virar a situação a meu favor.

Minhas roupas pareciam intactas, apesar de sujas, e a lama nas minhas costas confirmava minha teoria de que eu fora arrastado para um lugar remoto. Ocorreu-me que, se esse era o caso, nutrir esperança era praticamente uma futilidade, mas logo afastei esse pensamento derrotista e foquei no momento. Sacudindo um pouco o corpo, não senti o peso do smartphone no bolso. Eu já esperava por isso.

Meu sangue gelou no instante em que gritos de agonia quebraram o silêncio tranquilo, antes dominado pela minha respiração inconstante.

Era o choro desesperado de um bebê, conferindo ar macabro à situação toda, pois havia algo mais naquele choro. Ele parecia… errado.

Ah, maldita hora em que passei a apreciar contos de horror, pois o choro estranho, cada vez mais alto, aliado à escuridão e ao odor desagradável do meu cárcere, amplificava em minha imaginação terrores dignos de Poe ou Lovecraft.

Em meu desespero, feri ainda mais meus pulsos doloridos e, aflito, gritei uma vez mais por socorro, mas desta vez, a falta de resposta assumiu um ar mais definitivo, e eu desatei a chorar. O choro estava bem alto agora. De alguma forma, meus ouvidos doem. Uma porta começou a abrir do outro lado da câmara, e quando uma fraca luz elétrica entrou, meus olhos já tinham desistido da luz.

Naquele angustiante momento de cegueira e terror, fantasias tenebrosas tomaram minha imaginação fértil e fartamente alimentada por anos pelos mestres do horror. Realidades foram conjuradas nas quais a razão fracassava em confrontar o inominável, alheio e indiferente a tudo que é humano. Os gritos incessantes do bebê estavam mais altos do que nunca, tão estridentes que por algum motivo, estranhamente inexplicável, não pareciam humanos, mas outra coisa. Eu preciso voltar, pensei. Preciso encarar a realidade.

Respirei fundo e abri os olhos, e contemplei uma cena inesperada. Parada na porta, os contornos de uma silhueta feminina, alta e ereta, se insinuavam contra a luz. Em seus braços, um bebê chorava desesperado. Os cabelos longos da mulher estavam soltos. Eram loiros, aqueles cabelos, e eu os reconheci.

Subitamente eu lembrei, arrastando-me com dificuldade pela névoa da memória embriagada da noite anterior. A festa blumenauense fora tudo o que eu ouvira falar e até um pouco mais. Controlar a bebida não era prioridade para ninguém depois da meia noite, e eu era um desses. Acabei me perdendo dos meus amigos. Ou eles me perderam. Vaguei cambaleante pelas ruas vazias da cidade de ares germânicos, como um vagabundo sem rumo, acenando para as capivaras na beira do rio. Foi então que ela apareceu, como uma miragem. Seus cabelos loiros balançavam ao vento frio, e a pele alva e os olhos azuis me conquistaram antes mesmo do primeiro sorriso. De onde eu vim, tem mulheres lindas, mas esta que avançava na minha direção… ela tinha algo diferente. Seu olhar denunciava uma decisão tomada, uma determinação real reafirmada a cada passo, pasmem, na direção de um bêbado qualquer. O meu mundo, que até então balançava hesitante, estabilizou-se. A minha visão borrada, tornou-se cristalina e meus olhos puderam ver e deslumbrar a beleza estrondosa que se apossava de mim, um passo de cada vez. E quando os braços dela envolveram delicadamente o meu pescoço, quando seus olhos azuis se aproximaram lentamente, mantendo o tempo todo os meus como reféns, quando seus lábios vermelhos tocaram os meus, eu me entreguei, completamente. E então o calor aconchegante daquele momento único foi se dissipando, consumido aos poucos. A noite se tornou mais noite, na medida em que a luz enfraquecida cedia, dando lugar a um vazio amplo e frio, convidativo à sua própria maneira. E a próxima coisa que me lembro é de acordar nesse maldito covil.

Com um clique do interruptor, a luz amarela de uma lâmpada velha iluminou a sala, revelando a imundície vil na qual eu me encontrava. Azulejos verdes de um tom de mau gosto revestiam o piso e as paredes. O teto sujo estava rachado. Os azulejos revelavam, enfim, a origem daquele odor que até então eu não conseguira, ou não quisera, identificar. Era sangue, e estava por todos os lados. O cheiro da própria morte, da minha morte, se aproximando. Meu estômago se revirou novamente, e dessa vez eu vomitei, fazendo uma pequena contribuição à sujeira e ao fedor do lugar. Uma pequena poça de vômito líquido se formou à minha direita. Bebida, na maior parte.

Ciente do meu provável destino, encarei com maior atenção minha algoz e seu bebê, e um calafrio potente percorreu minha espinha. Eu posso jurar que cada pelo do meu corpo se eriçou.

A mulher me encarava com um sorriso no rosto que me causava desconforto, mas eu ainda não sabia dizer o que havia de errado nele. Pela primeira vez, notei que a pele dela não era alva, como a minha memória insistia em recordar. Ao invés disso, era tão pálida e anêmica que a razão negava que pudesse estar viva. A pele do bebê era ainda mais desbotada que a da mãe, e parecia ser de um matiz cinzento que evocava ares de morte. Quando me viu, ele pareceu se acalmar um pouco, e eu me recusei a buscar significado no fato.

— Calma, meu filho! — disse a mulher, entrando, enfim, na câmara de tortura. E olhando para mim, completou. — Mamãe já vai te dar de comer.

A mulher pálida colocou aquele bebê assustador no chão, perto da porta, sentado sobre uma poça de sangue seco com que ele parecia se maravilhar. A julgar pelo seu tamanho devia ter quase um ano de idade. Com as unhas, ele retirou uma casquinha de sangue seco do chão e brincou com ela, divertindo-se. Enquanto isso, a mãe se aproximou de mim, agachando-se ao meu lado. Não vi de onde e ela tirou a faca.

A única coisa que eu podia fazer era implorar e suplicar, e foi precisamente o que eu fiz. Mas ela não hesitou, e com um movimento lento, começou a abrir um corte no meu braço. Se quisesse causar uma morte rápida, ela teria cortado ao longo das veias, mas eu não tinha tanta sorte. Quando o sangue começou a correr, ela sorriu. Então eu soube o que havia de errado naquele sorriso. Eram os dentes, muito compridos, e afiados demais. E quando ela lambeu os lábios, achei que ela fosse me morder ou beber meu sangue. De alguma forma, os segundos em que a lâmina beijava minha pele adquiriam uma aura de paz, decorada pela ausência de qualquer som.

Quando o bebê quebrou o silêncio com o que parecia ser uma gargalhada, meu coração destruiu qualquer resquício de paz interior que restava em mim, rufando como tambores desavisados, cujo ritmo incessante conseguia apenas acelerar o sangramento e a ameaça de perder a consciência. Talvez fosse melhor assim, pois as risadas deformadas do bebê mais lembravam o guinchar agudo de algumas espécies de morcegos que habitam a noite.

A mãe se afastou, deixando o caminho livre para a “criança” saciar-se.

Ele rastejou até bem perto de mim, ávido por banquetear-se em meu sangue, e parou em frente à poça de sangue que se formava. Do meu sangue. Ele ergueu os olhos, fixando-os nos meus, e eu não vi nada além do negro mais absoluto e vazio que vi na minha vida. Não havia expressão naqueles olhos. Eles não eram, definitivamente, humanos.

Voltei a gritar, mas desta vez, não eram gritos de desespero, pois o medo mais parecia alegrar a coisa, mas urros raivosos nascidos de algum instinto antigo, que visavam intimidar. A coisa parou, hesitante, mas eu continuei gritando, nutrindo, por um momento de insanidade aguda, esperanças que já nasciam condenadas. A coisa encarou a mãe, incerta do que fazer.

— Vai lá, querido. Pode ir.

Com entusiasmo renovado, a pequena criatura tornou a avançar. Fechei os olhos, pronto para abandonar as últimas migalhas de fé em algum tipo de salvação, e servir de alimento a uma criatura demoníaca que só deveria existir no reino da ficção, mas cujas mãozinhas ainda assim atormentavam a minha sanidade fragilizada com seu toque gelado.

O som de um tiro me arrancou da escuridão desesperançada. Outros três se seguiram e a mulher pálida, que assistira deliciada meu desespero, caiu contra a parede oposta da sala, inerte, morta finalmente. Seu próprio sangue cinzento agora decorava as paredes sujas dessa prisão maldita. A criatura horrenda que se preparava para sugar meu sangue quente fugiu para um canto mal iluminado, como se as sombras pudessem protegê-lo daquele estranho armado.

O pouco de razão que me restara implorava que não acreditasse no que os olhos me diziam. Sussurrava que o homem trajado de fritz não podia ser real, nem seu lindo revólver prateado de cano longo. O homem acabara de matar uma vampira bem na minha frente, ou pelo menos é isso que eu acho que ela era. Para a criatura acuada no canto da sala, ele não reservara piedade. Apenas duas balas. Delírios, pensei, enquanto deslizava devagar para a inconsciência acolhedora.

Não sei como cheguei ao hospital no centro da cidade, mas essas lembranças deixaram marcas profundas que não cicatrizam. Nas primeiras noites de volta à minha querida Osasco, o cheiro sempre presente do alho dificultava minhas noites de sono. Passado um ano, eu nem sinto mais o cheiro do alho. Ele se tornou uma companhia constante, tão impregnado nas coisas que para mim é tão imperceptível quanto o cheiro característico de um apartamento com cachorros. O sono, no entanto, continua difícil e instável, e enquanto a insônia me consome aos poucos, os pesadelos corroem a pouca paz que me resta.

Semana que vem começa a Oktoberfest, e alguns amigos me convidaram para voltar a Santa Catarina. Eles insistem que eu preciso sair mais. Que preciso aproveitar a vida, desestressar. Mas eu recuso. Tentei alertá-los, mas nenhum argumento meu se mostrou capaz de convencê-los.

Às vezes eu me pergunto o quanto daquela noite foi real, e qual foi a parcela de participação do álcool e dos distúrbios da minha mente perturbada. Não espero encontrar outra vez o homem que me salvou. Um caçador de vampiros, suponho. Tudo o que sei é que pelo menos parte do que vi foi real, e que aquela noite aconteceu. A cicatriz no meu braço é prova mais do que suficiente para mim, e ainda hoje posso sentir o fantasma daquele toque gelado no meu braço direito. Que se foda o que os outros pensam. Eu desisti de tentar avisá-los.

Há um bom tempo penso em levar essa história a público, mas o medo de ser ridicularizado me deteve. Levei um ano para me reconstruir e juntar coragem suficiente para deixar de lado o orgulho que é tão forte na minha família, mas com a festa desse ano se aproximando, decidi que precisava agir. Esse relato é minha última tentativa de alertar o mundo dos perigos que deslizam esguios pela escuridão da noite. Quem sabe, este relato faça jus ao seu propósito e sirva de aviso para alguma alma afortunada, disposta a acreditar nessas palavras sinceras. No fim das contas, de uma coisa eu sei: se você for pego, pode não ter tanta sorte quanto eu.

O sol já está se pondo, e sempre que anoitece, eu tranco cada porta e janela desta casa. Sei que todo mundo faz isso, mas eu tenho mais motivos que a maioria das pessoas para temer o que está à solta lá fora, nas sombras da noite.

Então eu acho que vou recusar o convite bem intencionado dos meus amigos, e ficar em casa. Agora, se me dão licença, vou verificar as fechaduras, e trancar o mal lá fora.

Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.

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