Artigo | O trabalho sanguinolento e visceral do escritor3 min de leitura

No Brasil, ser escritor é narrar histórias escritas com o próprio sangue, direto do pulso.

Li algo parecido quando iniciei minha carreira de escritora. Na época, fiquei maravilhada com esses dizeres. Era simplesmente poético. Teria tatuado facilmente, gravando esta frase para sempre na pele. Um pouco exagerado realmente, mas até hoje considero uma das maiores verdades sobre a vida de autor nacional.

A carreira de escritor nem sempre é vista como carreira propriamente dita. Você conhece algum escritor? Qual a profissão em que ele ou você mesmo são formados? Você irá encontrar alguns bacharéis em letras ou jornalismo, mas também encontrará publicitários, médicos, terapeutas, técnicos em informática e até veterinários, como eu. Daí o fato de contarmos nossas ficções com o próprio sangue e também muito suor. Não existe, ao menos no nosso país, uma graduação única e exclusiva para formar escritores. Ninguém carrega o título de Bacharel em Ciências Literárias, ou seja lá qual for o título que um curso superior como esse teria.

O autor brasileiro muitas vezes tem que bancar o autodidata e aprender por seus próprios meios, principalmente lendo outros autores, ou através de blogs, podcasts, livros que ensinam a escrever, etc. As coisas estão mudando um pouco sim. Nem tudo é só decepção. Nos últimos anos tenho visto surgir alguns cursos ministrados por autores consagrados como André Vianco, Fábio Barreto, Guilia Moon, entre outros. Tive a oportunidade de fazer algumas dessas aulas e, mesmo que estes tivessem abordagens diferentes, cada lição não vinha somente com a técnica pura e simples, mas com uma história de vida de quem teve que aprender na marra. Nós nunca imaginamos, mas estes ídolos eram tão perdidos na arte de escrever no começo quanto nós ao nos lançarmos nesta empreitada.

O trabalho do escritor, em especial os principiantes, é árduo, quase um processo visceral em que o que nos move é a pura vontade de escrever. Infelizmente, toda essa paixão não quer dizer que você está produzindo um bom livro. É preciso aliar esse amor incondicional à técnica e objetividade do profissional contador de histórias.

Como então?

A meu ver, quem realmente quer seguir esta carreira tem que levá-la tão sério quanto levaria qualquer outra. Cursos, blogs, podcasts e outros materiais estão aí e, embora ainda estejamos muito aquém do que é ensinado e feito nos países lá de fora, são as ferramentas que dispomos e devemos usufruí-las o máximo possível. Ainda acredito que nossa profissão é linda por todo esse romantismo de se escrever com o próprio sangue. Continuarei derrubando o líquido escarlate nas folhas de papel, mas cada vez mais com consciência do que faço para que nenhuma gota seja desperdiçada.

E você, amigo escritor? Como produzirá seus textos?

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.

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