Antes de tudo, é preciso tirar algo da frente: Sangue Revolto (Rocco, 2021) não tem relação com o posicionamento transfóbico de J.K. Rowling como muitos disseram. E essa postura lamentável da autora não está presente nas 960 páginas do quinto romance da série do detetive Cormoran Strike.

Outra boa notícia é que Sangue Revolto, novamente escrito sob o pseudônimo Robert Galbraith, é o melhor livro da série até aqui. Diferente do antecessor Branco Letal, cujos estereótipos dos personagens extravasaram suas margens, a história da vez é muito mais sensível e elaborada.
A começar pelo caso a ser desvendado. Desta vez, Strike e sua sócia Robin Ellacott são contratados para desvendar um desaparecimento ocorrido há 40 anos. Como se esse desafio não bastasse, o mistério também está ligado à possível participação de um serial killer e a uma investigação com contornos sobrenaturais, o que explica, em parte, as quase mil páginas do romance.
A outra parte da explicação está em um aspecto que os leitores da série vão reconhecer de imediato: os casos que a agência de detetives investiga são o pano de fundo para a verdadeira história, que são os encontros e desencontros da dupla Strike e Ellacott. Em Sangue Revolto os dramas familiares do detetive nunca estiveram tão em evidência, enquanto Robin busca se reencontrar em uma sociedade machista após um divórcio traumático. Além disso, a dupla tem diante de si o dilema de um envolvimento amoroso que parece cada vez mais próximo.
O principal mistério da trama merece um olhar à parte. A agência é contratada por uma mulher chamada Anna Phipps para investigar o desaparecimento de sua mãe, a Dr.ª Margot Bamborough, uma médica feminista que, antes de exercer a medicina, foi coelhinha da Playboy. Apesar de não participar diretamente da história, nem mesmo em flashbacks, Margot está presente em cada trecho do romance como uma entidade que deixou marcas em toda parte. Não por acaso, é Robin quem se sente mais tocada e trata a investigação com grande dedicação.
A lista de suspeitos pelo desaparecimento é extensa. Desde o serial killer Dennis Creed, condenado e ainda preso pela morte de diversas mulheres, passando por gângsteres de ascendência italiana até chegar em pessoas do entorno de Margot. Para quem gosta de acompanhar cada detalhe de uma história de detetive para tentar chegar ao culpado, é bom pegar papel e caneta para não se perder.
Apesar da riqueza de detalhes, Sangue Revolto continua sendo uma história sobre as vidas de Cormoran Strike e Robin Ellacott. Uma história sobre dúvidas, anseios e decisões. Acompanhar essa saga, de certo modo, é como acompanhar pessoas reais que, ao longo da série, vão se tornando cada vez mais próximas. Não por acaso, terminar o livro causou uma estranha sensação de saudade. Polêmicas pessoais à parte, este é o maior elogio que a controversa autora pode receber.
Capa: Editora Rocco
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